Domingo, 24 de Agosto de 2008

sem rede

vidas desgraçadas

 

Hoje, nada de novo por aqui. Uma sexta-feira morna de Agosto. Numa manhã que teima em acordar de férias. Aqui e ali ouvem-se tristezas molhadas. Com água salgada, talvez morna. Seguramente fria. Tranquila e serena. Chora-se o regresso à balbúrdia. Ao ritmo acelerado. Ao trânsito irritado da cidade. No entanto, lá fora corre tudo mais depressa. Os chineses surpreendem-se com a lusa vagareza. Dizem que lá não é assim. Chinesices!

 

Na papelaria da esquina um homem compra o jornal. Um rapazito entra controlado pela mão do pai. Que compra outro jornal. O rapaz protesta. Exige a aquisição de uma qualquer coisa. As lágrimas e lamúrias manchavam a dicção. E exigências. E pedidos. E o progenitor à beira de um ataque de nervos. Para se tranquilizar pede ao catraio que explique. Que precise o que pretende. O miúdo, entre soluços e raivas, elucida que quer outra. Que a que ficou em casa da avó já não serve. Só lá que é uma aldeia parca em gente pequena. Agora que veio de férias, exige uma melhor. Para ser cobiçada pelos amigos. Única. Notável. Quase verdadeira. E assegura que até pode ser. Uma autêntica seria admirável. E senta-se no chão. O pai dá sinais de ceder à envergonha pública. O petiz esperneia exaltações sem calibre. E o pai diz-lhe que sim. E saem os dois. Com a promessa de satisfazer a vontade da criancinha. Os olhos que assistem brilham incrédulos. Os rostos vincam o grotesco da situação. As bocas emudecem a atónita desinteligência. As mãos controlam mutuamente um desmesurado desejo. O garoto valia uma bofetada. O pai, no mínimo, três. E já de saída, o homem esclarece. Desde pequeno que ele é assim, sabem? Sempre gostou de armas. Adora fingir que mata todos lá em casa. E os amigos. Agora teima. São crianças. Temos que lhes fazer a vontade. Coitadinhos! Ele quer uma a sério… viu numa revista de videojogos. Mas para crianças. Bom, vou à procura…

 

Na televisão, as notícias atropelam-se. Postos de abastecimento de combustíveis assaltados de madrugada. Os criminosos abalam com uma caixa multibanco de rojo. E o despiste de viatura roubada. Mais três mortos lá para o norte. Intervalo para escutar a Portuguesa em Pequim.  Depois cinco homens encapuzados, alguns falavam português, três viaturas e explosivos entram em acção. Arrombam as portas traseiras e agarram os sacos com notas. Nada de moedas. Pesam muito e não são a mesma coisa. Uma realidade nunca vista no país. Coisa de profissionais. Bem gizada. Isto de amadores tem que acabar. Pequim que o diga. E o campeão do salto chora lágrimas de total satisfação. Mas é no Norte que um ourives impede um assalto de encapuzados e armados bandidos. E sabe-se que o seu companheiro de profissão morre no Sul. Os ignóbeis acertaram-lhe mesmo. Na praia, aqui bem perto, roubam um BMW para assaltar um posto de gasolina. Uma máquina a sério! E o pobre do polícia, pronto para entregar as chaves que dão acesso a casinhas sociais, é agredido. Mais assalto, menos assalto. E acidentes. E mortos e feridos. As notícias repetem-se. O luso saltador sobe o degrau. Ao peito exibe o orgulho de ser o melhor. Enquanto por cá se fica a saber que a violência doméstica já matou mais este ano que em tempos anteriores. Não há paciência! Trinta mulheres mortas? Bestas! E como se tudo já não fosse muito, eis a mafarrica da lagartixa. Sem permissão, entra no carro e assusta condutor. O réptil provoca o acidente, gera um ferido e foge. Os humanos já não chegam? Francamente!

 

E a corrida às armas dá milhões ao estado. Uns míseros 4,2 milhões de euros em impostos. Que para uso e porte de arma é preciso pagar. A quantidade de armas ilegais é muita, confessam!

 

Desliguei o televisor. Em Pequim já não se houve o hino nacional. E o catraio da papelaria anda a ver muitos filmes. Calma! São situações pontuais. Tudo vai bem, e muito seguro, neste reino de Portugal.

 

 

Fotografia de João Palmela


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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