Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

assobiar

a feminina e histórica culpa

 

Um padre mexicano suscitou uma assobiadela das grandes. Seguro na sua decisão, o homem recomenda às mulheres que não usem minissaias ou biquínis. Assim, evitar-se-ia o assédio sexual. As mulheres ficariam na paz dos anjos e os homens sossegados. Não há dúvida. O mal é feminino. Malditas mulheres. Demoníacas. O que elas inventam para provocar os afoitos machos. O clérigo descobriu o fundamento para tanta violência.

 

Dizem as lendas que Lillith foi a primeira mulher de Adão. Irritada com a submissão insurgiu-se. E depois de amores falhados e insípidos fugiu. Emerge Eva. Obediente e mansa. Dependente. Adão gostou. Os homens gostam. Mas gostam tanto que nem lhes passa pela carnal cabeça que tivesse existido uma tal Lillith. Parece que ao padre mexicano também não. Inicia perseguições. Oculta o mundo feminino. Cala-as. Ignora-as. Acusa-as do mal do século. De heresias. Acende a fogueira. Empurra-as para lá. As potenciais pecadoras não merecem melhor sorte. Disseminadoras de pecados. E assim se validou a submissão da organização deliberada pelos homens.

 

O padre mexicano não incrimina a maçã. Muito menos a serpente. Ovaciona o paraíso, alerta para o fruto ilícito de saias vestido. E apregoa que a ignorância não é pecado. Mas é! E para ajudar o padre, eis que surge, nesta história, o reitor de uma universidade. Também ele instruído. E muito respeitador. Aplaude o padre e, do alto da sua cátedra, muito bem explica. Toda agente aprende. De facto, o assédio e os actos de violência contra as mulheres são causados pela sua forma de vestir.

 

As coisas que a Igreja inventa! As coisas que as universidades sabem! E eu juro que não sabia. Lá, como cá! Ainda me admiro com a posição da Igreja. Mesmo que individualmente assumida. E, nem eu sei a razão, a minha memória contou-me histórias. Com séculos de teimosia. Com verdades mentirosas. E o Papa teve um encontro a portas fechadas com as vítimas de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica…E pede desculpa. Mas o padre mexicano não concorda com conversas ou gracejos picantes. Das mulheres, evidentemente! Que pena. Que sensaboria. Uma conversa sem malandrice não tem espírito, senhor padre! Desenvolve o pároco que as minissaias despertam o "lado doentio" dos homens. Ele, que é homem, ou padre, lá saberá de que fala.

 

Admiro-me, ainda, com estas clérigas atitudes. Admiro-me com o disparate repetido ao longo da História. Admiro-me sem qualquer borbulhar feminista. Admiro-me por ser mulher. Só por isso.

 

fotografia da Internet

 


Escrito por Paola às 00:40
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