Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ponto de admiração

ponto de admiração

29
Ago08

tourear

Paola

a vaca não tem culpa

 

 

Não entra mais uma alma. A praça está atulhada de gente sôfrega. As bancadas da praça pintam-se da cor do Verão. Da exaltação e da impaciência. Na arena, há pedaços de pânico. Verónicas de medo. Capotazos de arrojo. Nas bancadas, os olhos estão incrédulos. No redondel, capotes a rigor misturam-se com lágrimas do suor que escorre assustado. A multidão acena palmas e olés. O cartel garante-lhes um espectáculo assombroso. Inolvidável. Único. As palavras chegam às tábuas vestidas de espantos. Imperceptíveis. Cá de baixo, os rostos não têm feições. O bruaá antecede as cortesias. O cornetim anuncia a hora. O pavor assalta e mistura-se com a vaidade. As mãos tremem intimidadas com a pega de caras. E advertem que não sabem nada daquilo. Que a valentia não está ali. Mas  o apoio escorrega das bancadas. Desistir seria a vergonha. As pessoas pagaram bilhete. E a diversão tinha que continuar. A inquietação  voa de olhar em olhar. A cumplicidade também. E medo não é fraqueza, porém o risco é verdade. Ali, na areia ocre não há treino nem perícias. Apenas descaradas afoitezas. Imprudências juvenis. E ao som do cornetim começam a entrar os artistas. Que fazem do sobressalto graça. E a mole humana ecoa júbilos colectivos.

 

- Touro! Ó touro lindo! Chama com passos amedrontados.

- Touro! Insiste com o capote tremulando advertências.

 

A assistência enlouquecida pede mais. Mais arrojo. E as pernas flutuam a cada movimento do bicho. Pela cor negra da pelagem. Pelos cornos em pontas que estavam embolados. Ninguém via. A multidão não cala a êxtase. O boi investe. Ninguém via. E o toureiro cai no chão.

 

- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOh!!!

 

A humilhação pública acontece na arena da praça de touros. A saída em ombros jaz na terra castanha e arrependida da arena. O toureiro permanece estendido. Entram os forcados. E os cavaleiros. E mais toureiros. O público levanta-se. As palavras calam-se em silêncios suspensos. O homem é levado em ombros. A multidão ovaciona. Esgotam-se os aplausos. Gritam-se olés e hurras muito arrebatados. Emocionados. Dá a volta. Não consegue perceber que é figura  do espectáculo que sucumbiu à primeira faena. No rosto rasga esgares de dor. De derrota. O sucesso de uma cornada memorável. E recolhe à enfermaria.

 

E volta convencido que é figura de primeiro plano. Recebeu duas orelhas na mesma tarde. Por isso, é carregado nos ombros e transportado para fora da arena até o portão principal. Ali, mereceu o galardão máximo para um toureiro. Sem saber que a ambulância imprime arte à lide de tourear o percurso para o hospital. E pergunta como pode explicar a gratuidade da aventura. E se o touro o matou. Não! No Minho, bem à tardinha, Apolo recolhe a manada. Atravessa uma nuvem aqui e outra acolá. E as pachorrentas vaquinhas dormem na corte. Sem culpa que a neblina negra do medo lhes adultere a condição. É o cheiro que avisa que elas estão ali. Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” Platão lá sabia porquê. É preciso ver!

 

 

[Fotografia de GMV]

 

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Paola 29.08.2008

    Olá!

    Eu já gostei mais. Hoje nem por isso. No entanto, um toureiro sonha e delira com a coisa. Depois acorda...

    Beijinhos
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Mais sobre mim

    foto do autor

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2017
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2016
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2015
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2014
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2013
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2012
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2011
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2010
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2009
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2008
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    Em destaque no SAPO Blogs
    pub