Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

calar

Salvador Dalí  A persistência da Memória

 

atropelos sem memória

 

Shiu! Da minha boca jorram descansos hesitantes. Usurpados e clandestinos. Dos meus lábios não escorrem palavras azedas e desconfiadas. Shiu! Oiço uivos de gente assustada. Melopeias atrapalhadas na toada dos caminhos. Andamentos vertiginosos. Shiu! E lá ao fundo, um pássaro executa primorosamente o adágio da manhã. Engulo a tentação de respirar. E do pátio regressam vozes aflautadas. Euforias guinchadas. Abraços perplexos. Bocas escancaradas vertem pedaços de mar e de sol. De ócios enérgicos. E olhos suspensos colam-se às janelas. Shiu! Escuto portas aferrolhadas que se desfecham.  Chaves que tilintam cuidados de última hora. Sorvo ânsias de falar. Segredo salvações, no intervalo, empoleiradas ao portão. Shiu! As vozes passeiam felinas no corredor. Atropelos cinzentos, mesclados de cores do Verão. Desenham-se escoltas no parapeito da janela. Shiuuuuuuu! Estou oculta. Ninguém sabe que estou acantonada, ali! Não quero ser tela surrealista. Representação irracional, longe do mundo real. Shiu! Vejo e escuto. Obsessões humanas donde escorre a passagem do tempo e da memória. Da memória que se esgota. Do tempo que tem olhos. Não sei se vê. Shiu! Estou refém de mim. Aqui! Com recordações. Sem elas, não há expectativas. Porém, o tempo desvirtua-se. E cala-se, também. Flacidamente. Como os relógios. Shiu! Estou sentada. Shiu!

 

Fotografia da Internet

 


6 comentários:
De ide!as a 2 de Setembro de 2008 às 21:18
Escutar o silêncio. Ouvirmo-nos. Difícil por vezes o entendimento que temos de nós... Bj


De Paola a 2 de Setembro de 2008 às 21:23
Gosto de silêncios...mas detesto que me mandem calar.

Bjos


De Professorinha a 3 de Setembro de 2008 às 00:02
Quantos de nós vivemos de recordações...
Beijos


De Paola a 3 de Setembro de 2008 às 00:10
Olá!

Todos nós, penso eu. Sem passado, não vivemos. Bom ou mau...

Beijinhos


De GMV a 3 de Setembro de 2008 às 00:12
Ainda bem que não te calas... nem no silêncio das palavras escritas. Boa noite, Paola. Bjs


De Paola a 3 de Setembro de 2008 às 00:19
Boa noite, Josefina!

Aqui posso falar e fingir e dizer verdades... Foi assim que vi aquela sala.. Também por isso, sou fã do blogue.

Lá, calar-me-ei. Aqui continuo sentada. Só me levanto para a reunião de 5ª feira...

Beijos


Comentar post

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

pontos recentes

Ontem [Como se fosse já]

Desacerto [desabafo de um...

A outra margem [restauro ...

Oportunidade

Palavras pequeninas [E cr...

O rio

Sardinheiras

No lado contrário

Gola de laço

A conversa das canções [a...

Convento de Jesus [no tem...

Água do rio

Pelo caminho [as cegonhas...

No tacho [da minha infân...

Memória

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...