Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

nascer

meninos para o futebol

Sempre tive para mim que nascer é um verbo admirável. Só nascer. Às vezes renascer. Mas poucas, porque não acredito nessas coisas. Entre o nascer e o morrer está a vida. Que é um percurso. Curto, sempre. Quando longo é insuficiente, porque a morte chega sempre adiantada.

 

Nasce o Sol. Nasci eu. Nascem as papoilas no campo. E na pernada do sobreiro há um ninho. Estou a ouvir os passarinhos. Nascem palavras das discussões. E são demais. Dizem o que querem. Arrependem-se depois. E nascem romances grandiosos. E poemas. Por vezes, nascem amizades sublimes. Para a vida. Também na morte. E de estremecimentos transpirados. De indecisões contidas nascem viçosas cartas de afectos declarados. Quem sabe se também nasce o amor. E dos casulos nascem as borboletas. Bichos-da-seda que só pensam em comer e comer. Nas amoreiras as folhas nascem verdes e as amoras negras. E da rota da seda nascem histórias e lendas. Verdades e mentiras. E riquezas. E se tudo acontece deste modo, está bem assim. Certo é, certo está. Nascem desejos no corpo e arrependimentos nas mãos. Na boca nascem palavras de emoção. No canteiro do jardim, nascem rosas amarelas. E alfazemas disfarçadas de alecrim. Um ribeirinho nasceu ali. Tão pequenino. E corre, corre, corre. E já muito extenuado enlaçou-se no rio e, os dois, correram até lá chegar. E, deste modo, nasceu o mar.

 

Nascem homens e mulheres. Nasce a esperança. E há muitos anos nasceu o Menino Jesus. Fez-se homem. E nasceu a crença. E nasceram atritos. E injustiças e guerras. Eu nasci tranquilamente no convento. Que nasceu hospital. Numa terra que nasceu azul. Por causa do rio que se despejou no mar. Depois saí. E nasci assim.

 

A natalidade é desgosto tremendo. As aves perdem as árvores. Queimadas. Coibidas no jardim. As flores não olham para os montes e vales. A paisagem é urbana. Naturalmente! E os meninos e meninas não têm espaço para aparecer. E o país lamenta o que tem. Que em vez de nascer, envelhecem e morrem a seguir.

 

E fiquei a saber o verdadeiro drama da carência. Disse na televisão que é fonte credível. Com imagem e som. A cores. Garantia a senhora que isto agora é uma maçada. Que já não se fazem meninos como antigamente. Que as consequências são avassaladoras, acrescentava. Muito versada no assunto. É que sem meninos, os jogadores de futebol acabam.

 

E percebi que o meu clube não pode fazer milgares. E é forçado a procurar jogadores no lado de lá. E acolá. E viva la Espanha! A senhora fez a sua parte? Eu fiz a minha. Dois rapazes. Apenas errei nos nomes. Ninguém nasce perfeito!

 

Fotografia de João Palmela

 


2 comentários:
De Jorge Soares a 6 de Setembro de 2008 às 15:09
Olá

Por acaso também a entrevista à senhora, simples coincidência, passei por lá no zpping e só vi mesmo esse bocadinho.

Mas ela disse mais, disse que os que nascem só comem frango de aviário...e que portanto não vão lá!... mas olha que o problema do teu clube é mesmo esse... só traz jogadores de aviário... ..é a sina! e vê lá se dás frango do campo aos teus!

Beijinho
Jorge


De Paola a 6 de Setembro de 2008 às 15:20
Oi, Jorge!

Fartei-me de rir com a senhora... Mas esta história do frango de aviário é bem real. Muito frango se come nesta terra. E os meus rapazes não são excepção. Os do meu meio clube, tenho dois, como sabes, não devem ter esse problema. Talvez excesso de vedetismo, de luxos. Ou não!
Que venham os espanhóis. Assim, como assim sempre estão mais perto.


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