Sábado, 6 de Setembro de 2008

nomear

Ideiafixa - nome impróprio para cães

 

Os verbos constituem uma classe de palavras. Talvez a mais desinquieta. Porque desempenho. Vocábulos mandões. Déspotas das vontades cada vez mais encurtadas. Afectuosos nos prazeres que se vão inventando. Raramente. E aparecem com os tempos todos. O que só dá confusão. Ontem comunicaram que sim. Hoje logo se vê. Amanhã é outro dia. Anacrónicas irresoluções. E quando não têm que fazer, inventam. Se eu fosse um animal seria uma girafa. Mas não sou. Nem tenho pernas para correr. E a hipótese é uma certeza. E já fartos de tanto danar, unem-se para semear a ordem. E mandam. Muito. E às vezes não se percebem as ordenanças. Dizem-se imperadores de domínios já extintos. E mandam. E volta o reino dos novos imperadores. E Júlio César, que não era aparvoado, usou a força em seu favor. A queda não demorou. Diz-se que por falta de escravos para uso de mão-de-obra em todo o império. Se não fosse o imperativo nada disto teria acontecido. Nem teríamos Astérix e Obélix.  E pior do que tudo, Idéfix. E numa cilada bem ajeitada, os verbos aliam-se aos pronomes. Os pessoais. Eu decreto. Tu fazes.  E nós? Também não somos gente? Eles dizem que sim. Mas que isso não tem importância nenhuma. Que já era assim no tempo dos imperadores. E há-de continuar a ser. Afirmações convictas de quem pode. E refilam alguns que assim não pode ser. Era só o que faltava. Em vez de agir, só se reage. O melhor é mesmo obedecer, alertam outros. E que se Júlio César criou o ano bissexto é porque precisava de mais um dia para despachar.

 

E neste sábado cinzento de final de Verão, o Inverno ensombra o céu. As nuvens ganham contornos indecifráveis. Os rumores amplificam-se. A multidão carrega medos e desconsolos. Por isso, não vê que  a Primavera chega a seguir. Mesmo que veja, não crê. Corrompe-se o sonho. Como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso. E espero. Mesmo que tudo acinzentem.

 

Porque comer é um verbo, comi o arroz-doce do sábado. Na Dona Perpétua que não percebe nada de verbos, nem de tempos verbais. E não tem cão. Mas se tivesse, ela mandava e ele obedecia. Com toda a certeza!

 

E se eu tiver que chamar Asterisco e Obelisco, chamarei. Nada direi, apesar de  convicta que o respeito pela verdade já tem outra avaliação. E reafirmarei que Astérix e Obélix é que está bem. Baixinho. Para ninguém ouvir. 

 

 


Escrito por Paola às 23:50
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De euzinha a 7 de Setembro de 2008 às 13:54
E tanto que César despacha!
E ordens? Quem manda sou eu...
E medos? Quem não os tem? De César, deste, e do que há-de vir.
Reage-se! Mas tem -se medo! Não o tinha Obélix? O Ideiafix, talvez não. Era cão! E há cães destemidos.
Quem me dera ser cão!
BJ


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