Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

desengonçar

de Jorge Soares

 

ela que se desenrasque

 

Falar é, sem dúvida, um acto admirável. As palavras extasiam-se. E crescem e morrem. Gargalham e choram. Dizem que sim. Às vezes que não. E tudo é mais complicado quando a dúvida se instala. Por palavras ditas. Outras escritas. Numa balbúrdia algaraviada E o instante é apenas um momento em que o silêncio se impõe. Numa frívola circunstância de conferir estrondo aos vocábulos. Na estéril falsificação do linguajar de Babel. A algazarra resulta de vozes acrescentadas na ânsia de dizer mais. De ser mais. Como se a exuberância da elocução fosse o mesmo que comunicar. E falar mais alto auxiliasse a leitura na biblioteca. As palavras caiem dos livros e escrevem poemas. E histórias de amor. Sem recear que a Torre não suporte o alarido. E a multiplicação das línguas é um castigo merecido. Ao céu chega-se na solidariedade plurilingue. No desvelo das línguas todas. Com a individualidade do vocabulário quotidiano. Com o léxico da língua que é mãe. A unicidade linguística conduz a despotismos anacrónicos. A excentricidades babilónicas. A sintaxes hiperbólicas. E as palavras dizem mais quando se calam e escutam.

A mulher opinava, no autocarro. Falava das comodidades de tempos que ela não compreendia bem. Que no dela não era assim. E a apologia de passados enterrados arquitectava-se na vaidade de os ter vivido. Hoje, não há dificuldades. Está tudo à mão. Não há esforço, sabe? Pergunta de quem carrega nas mãos vestígios da dureza da escalada. E que não custava nada ir a pé. Que agora só querem andar de carro. E afiançava que as vezes que foi escola, fê-lo a pé. Horas para cá e para lá. E que sabia escrever o nome. E agora, que quer esta gente nova? Luxo! E empregava as palavras que sabia. Mesmo que excessivamente populares. Registos de língua com elevada falta de assiduidade. Numa sintaxe liberta de peias gramaticais impostas por normas codificadas. No entanto, magnificamente mesclados com toadas alentejanas. E naqueles termos soantes, eu vi compassos e ritmos entoados. Melodias com sombra. Harmonias simples dos cantares alentejanos. Vi corpos balançados em cadências langorosas, porém ouvidos em espaços abertos e largos. Em montes pintados de azul e amarelo. E  de branco abundante.

 

- A escola fechou. Já viu? As despesas… os transportes… Que maçada!

- Ora, agora há transportes com fartura. Eu ia a pé. Se eu não fosse, o meu pai chegava-me a roupa ao pêlo…

- Isso era dantes. Hoje, felizmente, as coisas já não são assim!

- Olhe, sabe o que lhe digo? Ela que se desengonce. Eu cá desengoncei-me.

 

E desengonçar chegou-me estranho. Mas gostei e saboreei a paragoge. Ai, tantos is! Admirável língua que se desengonça na dissemelhança genuína dos seus falantes. Para se dizer uma.

 

 

 


Escrito por Paola às 00:46
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