Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

avelhar

de Paola (Guincho, Cascais)

 

palavras com rugas e artrite reumatóide

 

A televisão está ligada desde cedo. As notícias divulgam-se ao ritmo das teclas do comando. A publicidade seduz pelo brilho e pela cor. As músicas são tão bonitas, comenta frequentemente. Não sabe nenhuma. Nem sequer é capaz de dar conta das novidades do país. Muito menos do estrangeiro. Não lhe interessam. Só quer a televisão ligada. Por causa do programa das receitas. Todos os dias uma. Que imaginação! Mas ela há muito que não cozinhava. As senhoras do Lar cuidavam do assunto. Por causa da companhia. E o aparelho cumpria a sua função. Falava. Cantava. Dançava. Representava. E até batia palmas. Só que ela não via. Bastava-lhe ouvir… Por vezes, adormecia no sofá. Todas as tardes dormita um pouco. No intervalo do sono que não chega de uma vez só.

 

Sentados no sofá falam palavras que não se olham nos olhos. Frases a granel. Vocábulos cansados por tantas vezes repetidos. Com pertinência. Sem nexo. Também sem necessidade. Sobretudo sem vontade. Nem sempre entendidos. E que interessava isso, se o importante é falar? Ambos desejam aquela sala povoada por vozes que falem palavras. Mesmo que as não percebem. Preferem o televisor. Porque fala e não os aborrece. Não têm que lhe responder. E não entendem que esteja sempre a falar de idosos deprimidos. Eles sabem que o envelhecimento corresponde aos danos da passagem do tempo. No entanto, recusam depressões caladas. Pelo menos, enquanto se amparam um ao outro. E é naquele canto da sala, em frente do ecrã, que emitem palavras ocas e vãs. Uma espécie de feira falante sobre temas mundanos. Com rifas que nenhum compra, não vá sair-lhe um termo que não quer ouvir. Não se queixam da solidão. Porém, gostam de se ouvir, apesar de já não se entenderem. Dos 55 anos de vida em comum, sobra-lhes a condescendência. A partilha do mesmo espaço. Há muito que não se agastam com disputas estéreis. Nem com outras. Decidiram não se cansar e amealhar o tempo que lhes resta. E as palavras. Proferem as indispensáveis. Silenciam desejos escondidos. Intenções ocultas. Amansam decisões que as senhoras do Lar não validam. Nem a neta que não está para os aturar. A Ritinha é uma menina. Eternamente menina. A deles. É neta, é para ser cuidada, amada e saboreada. E para estragar com mimos. Terreno arável onde semeiam amor, afecto, meiguice. Apenas coisas boas.

 

- Avóóóóóóóóó?

- Entra, querida!

- ya!

- Conta lá, como foi o teu dia na escola?

- Fixe! Tasse bem. Tenho muitos amigos. E conversamos muito. Assim tipo falar mesmo, sabes?

- Ai, filha!?

- Prontos, tão bem? A gente estamos. A cota deu-me uns trocos. Vou morfar cuns amigos.

- Ai, filha!?

- Xelente! Tão tão giros! Tão fixes! Tou tão contente. Vó, tou mesmo super, mega fixe.

- Ai, filha!

- Prontos! Só vim dar um kiss. Agora vou bazar.

- Ai, filha!

- Tchau. Jinhos. Amanhã volto.

 

Olham um para o outro, com a cumplicidade que os olhos contêm. Ele pergunta o que a neta tinha dito. Quando voltaria. E quis saber se a rapariga estava bem. Ela não respondeu. Não sabia. Mas que estava muito feliz com a visita. Afinal, a moça sempre tinha falado e aquela casa necessitava de palavras. E, outra vez, tal e qual como nas outras vezes, o silêncio interpõe-se entre ambos. Porque as palavras estão gastas. Raladas pela vida. Olham para a televisão. Mas não vêem que está a passar o programa das receitas.

 

Ele pensa. E ela percebe. Que as palavras têm vida. Que fazem um percurso e têm um curso como as pessoas. Que nascem e morrem. Que imitam e são imitadas. Que crescem. E até ressuscitam. E o vocabulário deles é muito parco. Sem neologismos. Nem tão pouco estrangeirismos. Nem percebem nada de registos de língua. Mas já tinham ouvido falar… na televisão. E a avó acaricia a neta. Que é nova. Que agora fala-se assim. O avô assume-se velho e lamenta que as suas palavras tenham envelhecido com ele. Que tenham rugas e sofram de artrite reumatóide. Que algumas até morram. O homem levanta-se e informa que vai dormir. Que repousasse bem e não se inquietasse, deseja a esposa dedicada. É que todos os dias nascem palavras jovens. Para contrabalançar, acrescentou. Já ele tinha fechado a porta do quarto.

 


10 comentários:
De Perfume a 18 de Setembro de 2008 às 14:34
"Este post é bué da fixe" diria a minha filha. E eu responderia - eyeh a cota concorda contigo.


De Paola a 18 de Setembro de 2008 às 14:40
Ya minha! Tasse bem! Bué!


Brinca, brinca...

Beijinhos


De GMV a 18 de Setembro de 2008 às 18:32
Ao ler-te hoje, fizeste-me recordar a minha avó. Tantas palavras que ela me ofereceu, fruto das suas ávidas leituras. Muitas delas, guardo até hoje, não as quero gastar. Fazem partes das minhas boas memórias dos dias em que, ainda eu não sabia ler, e a minha avó lia magnificamente para mim. Estão na minha memória... a mesma que a minha avó perdeu!
Bj grande


De Paola a 18 de Setembro de 2008 às 19:09
E que palavras tão bonitas que os nossos avós sabiam... daquelas que os dicionários não registam, mas admiráveis... Os meus "avós de hoje" não estão de acordo... Talvez resida aí um dos factores que conferem à nossa língua toda a "memória" que tem.

Beijinhos e um grande bfs


De Jorge Soares a 18 de Setembro de 2008 às 23:14
A língua é como um organismo vivo, só que a sua evolução é ao contrário, vai ficando mais jovem à medida que o tempo passa, vão nascendo palavras novas e vão morrendo outras, morrem as palavras que não se gastam, as que não se utilizam vão desaparecendo à medida que desaparecem os que as utilizaram.....

Beijinho
Jorge




De Paola a 18 de Setembro de 2008 às 23:20
Sem dúvida! Nascem palavras, morrem outras e algumas ressuscitam também. E rejuvenescem! Coisa que não acontece comigo!!!! Mas podia ser melhor tratada. Olha lá o vocabulário de muita gente jovem. Aquilo não são palavras nem nada...

Beijinhos


De Wolkengedanken a 19 de Setembro de 2008 às 15:32
Gostei muito desde texto melancolico. Que sim , que para mim é melancolico. Refleta a falta de comunicacao entre pessoas e geracoes e a resignacao .....


De Paola a 19 de Setembro de 2008 às 19:32
Obrigada por ter vindo!

É um pouco assim. Cada vez a comunicação é mais difícil. Pelas palavras, pela solidão, pela resignação...


De mimi a 19 de Setembro de 2008 às 17:39
Olá, é a 1ª vez que aqui venho e gostei muito daquilo que li.

Este último post então, relata na perfeição o que acontece entre gerações diferentes, e é verdade que os jovens têm um vocabulário que não é português nem é nada, mas tb é verdade que sempre nos vai influenciando numa ou noutra palavra, a mim não são raras as vezes que me sai um "YAP", ou um "Fixe", etc.

Vou voltar e espero que não te emportes por te ter adicionado aos meus amigos.

Pepita


De Paola a 19 de Setembro de 2008 às 19:37
Olá! Aparece sempre.

É verdade que as influências são muitas, cada vez se lê e escreve menos...

Bjo


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