Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

petrificar

de Paola, sentimentos das pedras

 

Uma pedra é uma pedra. Um corpo duro e compacto. Basta olhar, professora.

 

E ver que é lápide de sepulcro onde se regista o nome dos mortos. E quadro de escola onde se escrevem palavras. E frases. Esclarecimentos de erros ortográficos e sintácticos. Sínteses e sumários de dores que calcetam o corpo. Alegrias e fantasias de um granizo que tomba desaustinado. Peças deste tabuleiro em que se joga uma vida que nos acolhe com sete pedras na mão. Nem sempre. Mas também. Aprendi que uma pedra não é só uma pedra. Estúpida e silenciosa. Dura e fria. Porque ninguém pode ser, sempre, tão duro como elas. Porque as pedras têm delicadezas que a gente não sente. Têm? Eles disseram que sim. E contaram-me tantas…

 

E ver lágrimas nas pedras que, continuadamente, são apedrejadas com restos e lixos. Queixume nas que, reiteradamente, sofrem as asperezas de pés, apressados e distraídos, que só sabem pisar. E repisar. Lamentos nas outras transformadas em armas de arremesso em mãos imprudentes. Prantos enegrecidos gerados por mortes que originam. A que assistem numa estrada qualquer. Tristes, as pedras…

 

E ver regozijos nas pedras que riem a fortuna da amizade. Unidas e solidárias numa calçada daí. Júbilos vaidosos brotam sempre que, das mãos do artista, sai arte. A pedra é esculturalmente trabalhada. E a beleza que ela tem!

 

E ver a História que elas suportam. Percursos decididos, progressos testemunhadas, descobertas inesperadas, certezas desconcertantes. São as pedras a falar, professora! Pois são! E histórias, contam? Siiiiiiiiiiiiiiim! E segredos também. Elas ouvem e não contam a ninguém. Guardam tesouros…

 

E ver a fresca alegria das pedras que se deitam para o rio passar. Leitos felizes e lavados. Lençóis distintos bordados a ponto-de-água.

 

E ver as pedras a exultar com a felicidade de uma criança. Porque suas confidentes. Parceiras na cumplicidade de narrativas engendradas. E são casinhas e animais. Rebuçados e gomas. Cadeiras e sofás. E o pai mais a mãe. E amigos de fingir. E as pedras dizem que sim, no enorme contentamento de poderem brincar. Às vezes, ensinam a contar. E a dialogar monólogos falseados. Depois, devolvem ecos...

 

E ver que a melhor qualidade das pedras é a modéstia. Não se gabam de façanhas tamanhas. Não se queixam. Não incriminam. Não desmoralizam. Não desencaminham. Não desmoralizam. Não acusam. Silenciam-se na cumplicidade.

 

E atire a primeira pedra quem nunca tropeçou num pedregulho falante e afectuoso. Ou ordinário, que também os há.

 

Apenas lhes pedi para olhar, ver, escutar e sentir! Possivelmente pedi demais... Quem sabe!

 

 

 


6 comentários:
De GMV a 2 de Outubro de 2008 às 23:15
DESCULPA... mas só me lembro de Pessoa ""Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo."
Eu sei que farei parte desse teu castelo... não me deixes no caminho.
Beijos e bfs


De Paola a 2 de Outubro de 2008 às 23:24
Fazer parte fazes, só que haverá dias em que dormirás nas masmorras... "E que posso evitar que ela vá à falência"...
eheheheheheheheheheheheh!!

Bjos


De Jorge Soares a 2 de Outubro de 2008 às 23:41
Desculpa... Essa frase não é do Pessoa.... fiz um post sobre isso.... deixa ver se o encontro.... está aqui:
http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/27079.html
e a explicação está aqui:
http://static.publico.clix.pt/homepage/provedor/04.ruiAraujo/textos/2007.05.13.fernandoPessoa.asp

Jorge


De Jorge Soares a 2 de Outubro de 2008 às 23:38
sabes, é uma questão de perspectiva..... do momento.... a maior parte da nossa uma pedra é mesmo só uma pedra... algumas vezes é uma arma de arremesso, outras vezes é um alicerce... e quantas vezes as palavras são "pedras" ...armas arremeçadas ao ar?

Sim, uma pedra é uma pedra.... há é muitos tipos de pedra...e muitas "mãos" a mexer nelas.

Beijinho
Jorge


De Jorge Soares a 2 de Outubro de 2008 às 23:43
Peço desculpa... o que queria dizer era:

Sabes, é uma questão de perspectiva..... do momento.... a maior parte das vezes uma pedra é mesmo só uma pedra... algumas vezes é uma arma de arremesso, outras vezes é um alicerce... e quantas vezes as palavras são "pedras" ...armas arremeçadas ao ar?

Sim, uma pedra é uma pedra.... há é muitos tipos de pedra...e muitas "mãos" a mexer nelas.

Jorge



De Paola a 2 de Outubro de 2008 às 23:45
Olá,

O giro disto tudo está no momento... e no olhar. Dar voz e sentimentos às pedras foi uma actividade gira... os miúdos estavam deliciados a "inventar" situações". É bom que eles descubram o lado de lá das palavras.

Bjos


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