Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

ensacar

azeitoninhas

 

                          Paola

 

 

O léxico mostra-se nas palavras. Todas as que a nossa língua tem. E tem tantas que não caberiam num saco. E dessas, muitas são as minhas e as tuas também. Vocabulário rico ou pobre. Diversificado ou repetitivo. Parco, brada a Andreia. Gostou da palavra, que não constava do seu magro vocabulário, mas que descobriu num texto lido na aula.

 

Um saco enorme, dizia eu. Mas roto, afiançava o Miguel. O rapaz lá explicava que a bolsa do léxico necessitava de ter a boca aberta e as asas arredadas uma da outra. A surpresa instalou-se nos olhos de quem defendia a tese do saco fechado. Assim como os sacos para lixo em rolo, em alta e baixa densidade, resistentes e estanques. Práticos e fáceis de abrir. Impenetrável! Garantiam. O Miguel escutou. E afirmou ter a certeza que o saco lexical tem portas e janelas. Umas vezes fechadas outras entreabertas. Às vezes, mas raramente, fechadas. E o pobre do rapaz ia perdendo o fôlego com tanta oposição. Teimoso na sua certeza, enfrentou a multidão e perguntou se entrava alguma coisa para um saco atado. Não! Responderam de imediato. Aí está, concluía o pequeno, então o saco tem que estar aberto para que novas palavras possam entrar. Ah!!! Pois é. Entram os neologismos, os estrangeirismos… Ai, professora, tantos ismos. Atenção que os arcaísmos não saem. Ficam por lá… abandonados. E há quem troce deles, o que é coisa ruim.

Professora, conduto é um arcaísmo? Não! É aquilo que se come habitualmente com o pão... Eu sei, profesora! Mas é um arcaísmo ou não? É que a minha avó está sempre a falar no conduto, professora. Apenas para algumas pessoas... para outras não. Vamos falar de regionalismos, vamos? Mais um ismo!!!! Lá por mor disso falemos de popular!

 

E falámos. Só que não lhes contei das saudades que tenho de comer pão alentejano, do verdadeiro comprado na venda, sem conduto. Facto que punha a minha avó materna em alvoroço. Então, a rapariga não quer toicinho com o pão? Nem água-mel?
Ainda, hoje, me recordo como um naco de pão alentejano me fazia entoar lindas canções, garanto que Deus não me deu voz para cantar, e como o conduto não tinha importância nenhuma. Nem a minha avó se ralava com regionalismos ou popularismos linguísticos. O que ela queria era que eu fosse feliz. Que comesse muito. E que engordasse também.

 

Mas o que eu gosto mesmo é de pão com azeitonas. Que era o conduto preferido da minha avó materna. Tudo em alentejano. E lamento que os meninos de agora já não saibam o que é conduto. Falam em mortadela, fiambre, creme de chocolate, compotas, sem saber que  pão com manteiga não é uma opção saudável. 

 

Professora, então o saco das palavras tem que estar sempre aberto, não é?

 

 

 


4 comentários:
De Perfume a 8 de Outubro de 2008 às 17:47
Os seus post têm sempre tanto conduto!
Será que ainda existe água mel ?
Excelente.


De Paola a 8 de Outubro de 2008 às 17:56
O conduto somos nós que escolhemos... depende das circunstâncias... e aquele que mais está na minha infância é mesmo a água-mel da minha avó. Das abelhas dela... Quase todos preferiam o mel, mas eu preferia aquela coisa que, apesar de negra e feia, era deliciosa. Talvez já não haja... ou quase.

Obrigada pela visita e comentário.

Beijinhos


De GMV a 8 de Outubro de 2008 às 18:55
Hoje o teu post fez-me lembrar essa peça tão rica, Na Casa da Língua Moram as Palavras. Como disse o teu lindinho há que manter portas e janelas abertas.
A minha avó também adorava água-mel. Alentejanices, enfim.
Bjs


De Paola a 8 de Outubro de 2008 às 20:15
Na Casa da Língua Moram as Palavras... pois moram! E na casa da minha avó, entre o Sado e o Atlântico, moravam admiráveis frascos de água-mel e que bom que aquilo era!!

Bjos


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