Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Jacinta X

de Jorge Soares,  o cisne

 

Jacinta cumprimentou a amiga com um beijo na face e uma gargalhada carinhosa. Há muito que riam as duas. Com absurdos das duas. Com conivências de ambas. Por vezes, tropeçavam nas palavras. Perdiam-lhes o rasto. Mas riam.

 

- Não tenho telemóvel…

- Tens! Foi o Júlio que to deu. Lembras?

- Não tenho telemóvel!

 

O que ficara estendido no leito não. Fora o Júlio que lho oferecera. É o Júlio que lhe telefona. E ela não ouve. Irreversivelmente. Uma resolução cruel. Que lhe dilacera a alma e amputa o corpo.

 

- Pronto! Já percebi. Não tens telemóvel.

- Beatriz, vamos almoçar à Casa do Tubarão? Apetece-me peixe… Depois ajudas-me a escolher um telemóvel novo e vamos ao cinema… que tal?

- E tenho alternativa, minha amiga?

 

Não tinha. Jacinta contava sempre com ela. Por isso, não pedinchou. Nem perguntou. Ordenou sem direito a alegações engendradas por quem estava a expurgar o quarto de poeiras e outras sujidades semanais. Beatriz é a única que assistiu, por dentro, à ramificação do envolvimento com Júlio. Nunca abençoara a relação. Pelas suas crenças. Pelo desconcerto da situação. Descobrira-lhe tramas em excesso. No entanto, deu-lhe apoio incondicional. Porque amiga. Só por isso.

 

Conheceram-se numa viagem que fizeram a Viena, uns anos atrás. Numa cidade de sonhos. Na terra da música e da arte. Apaixonadamente. E o Danúbio é apenas um rio que rodopia nos braços da valsa. Perderam-se na fascinante mistura entre arte, cultura e edifícios monumentais. E nos recantos pitorescos. Na elegância de uma cidade que se abre com portões grandes e fachadas espantosas em todos os lados. E que ostenta, orgulhosamente, o seu amor à música e à arte. Extasiaram-se a ouvir Mozart. A todas as esquinas. E numa esplanada sobre o Danúbio, saboreando um forte chocolate quente, testemunharam que, ao Sul, o Sol brilha com mais entusiasmo. E tiveram saudade. Da luminosidade. E à noite, adormeciam no encantamento da Flauta Mágica

 

À mesa não há interrogações escusadas. Comem e riem. Trocam postais ilustrados de Viena e de outras cidades que saborearam juntas. E entrelaçam cumplicidades. As palavras alastram alegremente sobre a mesa. As cores misturam-se na partilha de afectos. Uma em cima, outra em baixo. Nem sempre ditas. O silêncio ingere-se e aconselha prudências. Nenhuma delas traz o Júlio para a conversa. Falam dele, sem o nomear. Fingem que a omissão o faz abalar. E que as palavras caladas emudecem sentimentos desordenados. Termos que querem gastar para metamorfosear sentimentos. Jacinta só sabe repetir a palavra nunca. Como uma obsessão. Com tempos bem definidos. Para disfarçar um amor que a derrota no interior da sua pele. E lá ao longe, ela sente o apelo, o grito com que terminara a litígio. Agora que decidiu nunca mais atender aquele telemóvel, acredita na verdade do caminho, na justeza das direcções que decidiu percorrer. Recorda o adeus trocado naquele dia à tardinha. E das palavras que disseram ficou-lhe uma enorme ferida aberta no coração. Que cicatrizaria, acreditava.

 

- O telemóvel, lembras-te?

- E podia esquecer-me?

- Estou a pensar… naquele! Com tudo a que tenho direito.

- Sim, senhora!!! Vejo que ganhas bem, menina.

 

E entrelaçadas na harmoniosa risada de Jacinta, aventuram-se numa loja de telemóveis. A Beatriz é mais dada às novas tecnologia. Jacinta apenas decidiu desligar a chamada. Não quer ceder ao desejo de contrariar uma vontade que a corrói por dentro. E ofegar que sim. Só que o coração de Jacinta solta o último pranto. Numa praça cheia de gente...

 

 

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2 comentários:
De GMV a 9 de Outubro de 2008 às 20:16
Adoro ler a Jacinta, nestes capítulos sem tempo... sabiamente interrompidos.
Quando for livro, prometo ler tudo de seguida e adorar na mesma,

Bjs mts.


De Paola a 9 de Outubro de 2008 às 20:26
Como tu me fazes sorrir... Agradeço-te por isso. E pelo resto. Que já é tanto.

Bjos


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