Sábado, 11 de Outubro de 2008

contar

   d Nivaldo Menezes

 

Transversalidade dos afectos ou promiscuidade familiar

 

Nos Contos Populares multiplicam-se as personagens de encantos e desencantos. Todas com engenho e arte. Com ensinamentos também, ou não fosse a sabedoria popular um recurso admirável do conhecimento. Na memória colectiva da gente, estende-se um património afectivo admirável. E a generosidade é tão grande, que os fazem correr de mão em mão. Intrigas simples, mas nem por isso menos corrosivas e acutilantes. Cada história sabia a viagens maravilhosas ao mundo da fantasia, de mão dada com os avós. E que bem que elas faziam! Alongavam abraços. Partilhavam afectos. Excitavam as gargalhadas a rir, sempre que se cumpria o arrojo de lhes acrescentar um ponto. Era a imaginação a espreguiçar-se e a criatividade a encostar-se no devaneio.

 

A terra dos contos é órfã de autoria. No entanto, não consta que alguém tivesse apresentado queixa por ter sido plagiado. E como são tantos, os contos, cada um de nós tem o seu. Eu tenho vários. Uns são maravilhosos de encantar. Outros muito mais divertidos. Gosto daqueles que têm animais. E até dos religiosos e morais. E a delícia dos que tanto se esforçam para justificar o lugar! E há sempre os que dão ares de superioridade, com um exemplo na ponta da língua.

 

Trouxeram bruxas e fadas. Príncipes e sapos. Princesas e madrastas. Gatos com botas e cães descalços. Gatas domésticas e meninas friorentas. Capuchos coloridos e padres comilões. Heróis cavaleiros, vítimas inocentes, vilões e fanfarrões. Cobardias e mentiras. Logros e lealdades. Narizes empolados e rostos torcidos. Contributos notáveis de cada personagem para a que a história se perpetue. Pequenina, que a memória já não é grande coisa.

 

A madrasta da pobre Gata Borralheira é uma das personagens mais odiadas dos contos de encantar. A sua crueldade vornou-a famosa. E eu dou por mim a pensar que  as madrastas não são tão malvadas assim , as mães é que são extraordinárias. Contudo, não me lembro de contos com padrastos ruins. Nem bonzinhos. Os contos são invenção masculina, sem dúvida.

 

À saída da escola, o conto não é ficção. E o rapaz muito indignado exclama:

 

- Mãe, o João disse-me que tinha um padrasto!

- É porque tem, João.

- Mãe, eu também tenho um, não tenho?

- Sim… o pai que a mãe te arranjou…

- Ó mãe, esse não é o meu pai! É só padrasto.

- E o teu pai, sabes dele?

 

Mais não ouvi. Fiquei sem saber se era dos bons ou dos outros. Se o padastro é pai ou se o pai é que é padrasto. Nem se as personagens dos contos populares vão ter outro enquadramento.

 

Vou com pressa. Ao sábado é dia de comer arroz-doce. Ora se D. Sebastião faz parte do imaginário português, por que razão o arroz-doce não pode fazer do meu? Arrogo-me o direito de compensar a míngua semanal de afectos açucarados. Reconheço-o pelo cheiro.

 

 


2 comentários:
De Jorge Soares a 11 de Outubro de 2008 às 20:48
Deixaste-me a pensar... não me lembro de alguém me ter contado um conto..... tentei lembrar-me de um mau masculino..... há alguns lobos, pelo menos um gigante num conto de feijões, um que outro capitão gancho.... se calhar tens razão, os contos foram invenção masculina... perpetuada por quem tinha tempo para estar com os filhos.... as mães e as avós.... mau sinal amiga.... acabaram-se os contos!

Beijinho
Jorge


De Paola a 11 de Outubro de 2008 às 20:57
Olá,

Concordo! Os homens, se foram eles, perderam a imaginação. E as mulheres já não têm tempo para "perpetuar" os contos. Como antigamente! Não me lembro de um "padrasto" mau... só madrastas... E a conversa que ouvi deixou-me a pensar... se calhar anda tudo ao contrário. Ou os contos já não têm moral...

Beijinhos


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