Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

divinizar

da Internet

 

Há culturas abundantemente abençoadas. Talvez uma opção genética, quem sabe cultural. Ou simplesmente porque sim. E não me digam que se deve um a desenvolvimento psíquico muito incipiente, apenas suportado pela  percepção da realidade física circundante! A verdade é que há quem se dê ao luxo de ter um deus para cada oração. Já os romanos e os gregos haviam feito o mesmo, por isso não estranho. Facto que atesta o seu enorme bom senso. Da particularização de cada deus só podem resultar benefícios, mercês e graças muito celestiais. Verdade que dá garantia de apoio personalizado e individualizado. Os deuses, masculinos, femininos ou de género indefinido, cumpriam bem a sua função. Apesar das hierarquias. Apesar da glória. Por vezes, erravam e davam-se a promiscuidades divinais. Até fatais e muito disputadas. À margem da lei. Por isso, eram castigadas.

 

- Ícaro! Ícaro! Ícaroooo!, chamou o pai muito alvoroçado.

 

Não obteve resposta. E lá ao fundo, no mar, os seus olhos estupefactos encontraram as penas que flutuavam nas ondas. Nos desencontros da maré. Não lhe foi difícil descobrir onde Ícaro caíra.  Morto! O rapaz morrera afogado na sua desarvorada ganância. Santa ingenuidade! Não percebeu, o garoto, que as suas asas eram de cera. E que o Sol não se alcança. Nem se olha de perto. E que voar, sem ter asas para o fazer, exige protecção sobrenatural. Descuido incipiente!

 

Os enganos dos deuses aumentavam sempre que dos humanos se aproximavam. Indigência inexplicável e sem qualquer ganho imediato. Até lhes retirava importância. Não careciam de tanta dependência. Nem tão-pouco de submissão. Se não abandonassem Olimpo nada disto teria acontecido. Olimpo era o monte onde viviam as divindades. Um espaço etéreo, porém nada que se assemelhasse a um luxuoso monte alentejano. Dos mercantilizados nos jornais. Com uma área de muitos hectares, entre sobreiros e montados e com muitas propriedades empoleiradas no cimo das colinas. O luxo e a sofisticação ofuscam Olimpo. Só assim se aceita a escapadela. Coisas de deuses, já que o Olimpo é na Lua.

 

Os romanos andaram por cá. E eu não entendo, por que razão não lhes pilhámos os deuses. Tantos que eles tinham, meu Deus! Só por cortesia e muita parcimónia. Até a pedir somos pobres. Valha-me Deus! No entanto, há muitos humanos, descontentes com a opção monoteísta, que se crêem divindades. Se algum vier ter comigo, oferecer-lhe-ei um par de asas de cerume. Multicores para que não subsistam dúvidas. E dir-lhes-ei que neste país não há lugar para o politeísmo.

 

E eu, para que se cumpra o culto de sábado, suplico a Ceres que ampare as searas. Rogo-lhe protecção divina para o arroz-doce da Dona Perpétua. Divinal com canela.

 


8 comentários:
De GMV a 24 de Outubro de 2008 às 23:45
Que o teu arroz-doce seja, então, divinal, como as palavras que escreves.

Bjs


De Paola a 24 de Outubro de 2008 às 23:48
Seguramente! Não posso (?) é convidar o Baco... Bebe muito e faz muita algazarra!

Bjo



De jabeiteslp a 25 de Outubro de 2008 às 17:00

alegre visão
e aos olhos de ler
a melhor veia Bocagiana
para um bom fim de semana


da Covilhã
bjo
e tambem sou adorador
de arroz feito com doçura
e amor...


De Paola a 25 de Outubro de 2008 às 17:08
Olá!

O Bocage ainda lá está, à espera da última nova... e eu, que sou sadina, já comi a minha dose do admirável cereal.

Bjos




De Jorge Soares a 25 de Outubro de 2008 às 22:37
Não pedimos os deuses aos romanos porque por cá tínhamos os nossos... em Cetóbriga as dádivas eram ao deus Baal, que era o deus do vento e do clima (isso explica muitas coisas).... mas foram eles, os romanos, que nos deixaram estes que se adoram agora, os da cruz e os dos lados...santos dizem eles!

Sabes, não gosto de arroz doce, sabes se a dona Perpétua sabe fazer aletria?

Beijinho e bom Domingo
Jorge


De Paola a 25 de Outubro de 2008 às 22:50
" os da cruz e os dos lados...santos dizem eles!": Gostei! Nunca houve tantos aspirantes a deuses.... muitos até mereciam a cruz...

Claro que sim! A Dona Perpétua é fantástica. O arroz-doce tem mais saída, mas há aletria.

Beijinhos


De Utopia das Palavras a 26 de Outubro de 2008 às 01:46
Texto excelentemente humorizado.
Pilhar deuses aos romanos era uma boa ideia, mas somos melhores a pilhar-nos uns aos outros.

Adoro o arroz doce que faço, mas não me inibo de provar outros que tais.

beijinhos
ausenda


De Paola a 26 de Outubro de 2008 às 07:54
Grande verdade... cada vez mais nos pilhamos uns aos outros. Que raio de vida! Qualquer dia não há "crentes" para tantos "deuses" em ascensão. Tenho esperança que nem todos consigam chega ao "altar"...


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