Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

borboletear

 de Jorge Soares

 

A borboleta borboleteia-se em movimentos singulares. Subtilezas de bailarina. Quando sobe nas pontas das suas asas encontra uma leveza sublime e uma delicadeza ímpar. Invejo-lhe a doçura das cores compostas nas escamas profusamente emolduradas em complexas colorações. A graciosidade do andar. E quando descansa, a borboleta dobra as suas asas para cima. E faz preces de polinização. Vagabunda do Sol. Aventureira da vida, esvoaça no limite da beleza. No casulo, acontecera magia enfeitiçada e, num momento de singular benignidade, explodiu uma insólita excelência. De flor em flor, graciosamente. Sem compreender que o belo é efémero. Que a flor vai definhar e sucumbir. E ela é uma presença fugaz. Ao sabor do Sol que no Inverno não tem calor. Apenas ilumina dias minguados e grisalhos. O amarelo está desbotado. E a borboleta não sabe que, no Sul e no Norte, o Inverno não acontece ao mesmo tempo. O Sol também se borboleteia. Acorda todas as manhãs. Ciclicamente. A borboleta borboleteia como se fosse o último dia. Pisa o palco uma só vez, sem direito a bisar. A borboleta desconhece a força da sua fragilidade. Quer voar, voar perdidamente aqui e ali e mais além. Como uma alma que se liberta à procura do infinito, porque se sabe mestra na transformação.

 
E eu, que olho a borboleta com olhos estúpidos de deslumbramento, não concebo a destreza. Nem a leviandade de quem vive a saltitar. Invejo-lhe o casulo que foi seu e que desbaratou. Na metamorfósica ânsia de querer volutear. E já com as asas feridas pelo vento, irrompe na mais admirável voluptuosidade, modificando-se com a vida. Sempre a borboletear. Sente o equívoco do ar nas asas e corre para investigar a função das mudanças. Para compreender processo da metamorfose organizacional. Que a sua foi natural.
 
A solidez do meu casulo ostenta brechas e fendas. Hiatos tamanhos. A claridade trespassa e estonteia-me. O vidro do casulo estilhaçou-se bruscamente… Há destroços. Asas que sucumbem. Já não vejo sonhos a desenhar passos de dança delicados. Apenas sorrisos esboçados. Movimentos tracejados. Vacilantes e perplexos.
 
E eu só quero esticar as minhas asas contundidas e desaparecer no ar… Precipitada ambição. A avestruz é uma ave que nem sabe voar!
 

16 comentários:
De Utopia das Palavras a 30 de Outubro de 2008 às 14:25
Gosto de me borboletear
vestida de princesa...
e borboleteamdo-me
assim...
fico feliz
e tu...
borboleteia as tuas asas
e plana...
porque és "águia"...!

bjinhos


De Paola a 30 de Outubro de 2008 às 15:04
Também gosto de me boboletear, mas não me deixam..

Sou mais Carneiro... Águia também que é cor que eu amo.

Beijinhos


De Utopia das Palavras a 30 de Outubro de 2008 às 14:27
ops!!!

*borboleteando-me*


De Paola a 30 de Outubro de 2008 às 16:46
Qualquer borboleta que se borboleteie também erra a flor...



Beijinhos


De jabeiteslp a 30 de Outubro de 2008 às 16:26


sensíveis asas as de borboleta
e sensíveis momentos nossos de tantos silencios

da Covilhã
beijo
profunda e intensa descrição
( depois de uma noite a ouvir tunas e...
imagina )


De Paola a 30 de Outubro de 2008 às 16:42
Borboleteaste muito, suponho . Estás pronto para outra, claro! E filmaste alguma coisa?

beijo


De Anónimo reticências a 30 de Outubro de 2008 às 17:27


cerca de duas horas, só que as tunas não deve
ser grande coisa, havia pouca luz


beijo


De jabeiteslp a 30 de Outubro de 2008 às 17:28


esqueci o nome


De GMV a 30 de Outubro de 2008 às 20:12
Mais um verbo que só ganha significado pelas tuas belas palavras.
Estica as tuas asas delicadas, mas não desapareças!

Beijo daqui


De Paola a 30 de Outubro de 2008 às 20:20
E não andamos nós a borboletear estupidamente? Que bom seria imitarmos a borboleta!

Beijos e bfs


De Jorge Soares a 30 de Outubro de 2008 às 23:20
Tudo é efémero... belo ou não...

Curioso, tanto que borboleteio por aí e não tinha dado pela existência deste verbo... viver para aprender..

Beijinho
Jorge
PS:Hoje chovia... essas flores estavam no mesmo sitio.... para o ano haverá mais borboletas.


De Paola a 31 de Outubro de 2008 às 09:53
É um verbo de subtilezas várias ... e foram as tuas borboletas que me inspiraram.

Beijinhos


De GMV a 30 de Outubro de 2008 às 23:27
Gosto demais deste homem que está para aqui a cantar... acho que vou levá-lo comigo! Posso?


De Paola a 31 de Outubro de 2008 às 10:04
Estamos a falar do homem de voz rouca que veio do Candá De Garou ? Leva o homem à vontade, mais sois sage !!!!!

A música é universal, é do mundo...

Bjos

Nota - Ouve o Stanilas ... registo mais agudo.


De Professorinha a 31 de Outubro de 2008 às 16:55
Estou aqui há um bom tempo a ouvir a bela música francesa que tens ali a tocar... estou a adorar!!

Beijinhos


De Paola a 31 de Outubro de 2008 às 19:16
Que bom! Gosto muito de música francesa e só agora descobri este cantor, Garou , que adorei. Por isso, estou a partilhá-lo convosco.
Beijinhos


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