Sábado, 1 de Novembro de 2008

encortiçar

fotografia de João Palmela

 

o sabor da cortiça

 

 

 

A cortiça é uma especialidade portuguesa. A jóia da coroa, numa terra debilitada e muito encortiçada. Ou foi, ou ainda é, e eu nem dei pela transformação. Vive-se um tempo de materiais novos. Mais sofisticados e muito inventados. A cortiça é humilde e autêntica. A cidade é postiça. Enrola-se em gostos catalogados. Espreita os escaparates e depois opta pelo estranho. É por isso que vai ao estrangeiro e aproveita modas de lá. Agora, diz-se pele de excelsa beleza e qualidade. Produz-se e perjura as origens.
 
A cortiça dá-se a quase tudo. Num espectáculo polissémico grandioso. No entanto, continuo a preferir o cortiço da minha avó. Porque genuíno e tinha muitas abelhas. E lembro-me da extremosa senhora, preocupada com o meu descanso nocturno, a perguntar-me se não seriam horas de ir para o cortiço. E eu ia. Até ao alvoroço da refeição da manhã. O pão, o mel, a água-mel… e o café. Ficou-me o aroma e a algazarra matinal. Do paladar já não me lembro. Adulterei-o industrialmente. E o pão que retirava de um enorme saco de pano. Admirável, mas cabeçudo. Alentejano. Fresco, porque o outro ninguém comia. Tinha a consistência da cortiça! E eu, que nunca provara o cortiço estranhava a relação. O pão encortiçado? Só acreditei porque a minha avó era entendida no assunto.
 
Hoje, escrevo ressacada, com a língua encortiçada pela ausência de vontade, os olhos enfunados pela falta de sossego, as mãos a vacilarem pela fraqueza assumida, os pés magoados das fainas quotidianas, o olhar ensombrado pelo brilho pardacento de pressas mesquinhas, o pensamento travado por excessos pretendidos e não concretizados.
 
Não tenho ideias, não sei escrever. Estou encortiçada e, tal como a cortiça, gostava de ser exportada. Não me apete nada.  O dia rola fastidiosamente cinzento. E nada é pouco. Os sobreiros morrem de pé. E sempre que um arde, eu sinto-me mais pobre. Roubaram-me o sobreiro que me pegava ao colo. Baloiçava até o ritmo acalmar e todos os dias, pela manhã, chamava por mim. Até acabar...
 

20 comentários:
De Utopia das Palavras a 4 de Novembro de 2008 às 22:19
Olá amiga

Este encortiçar também é bem algarvio, não só pela materia prima, como também pela sua "personagem"
não são só medronhais mas também cortiçais (será que são assim ou sobreirais? tou encortiçada caramba!)

Beijos


De Paola a 4 de Novembro de 2008 às 22:29
Oi, amiga,

A minha relação com a terra remota à minha infância...Fui acarinhada pelas árvores todas.Fiquemos com os afectos... que interessa se o cortiço é uma colmeia se a cortiça vive alapada ao sobreiro?

beijinhos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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