Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

exteriorizar

 de Jorge Soares

 

A flor exterioriza a perfeição. E procura o Sol. Sem modéstias estéreis, sem alardes insignificantes. Ela sabe que a excelência mora ali. Desnuda-se de cores que não aprova, decide-se pelas que quer. Assume o seu garbo e não esconde o enfado quando não percebem que a sua elevação é natural.

 
Preocupa-a a fragilidade, mas agrada-lhe a seriedade. E sempre que o vento chega, diz-lhe que sim. E amam-se até ele a deixar. Ela conhece-lhe as astúcias. Ele voltará. Volta sempre… Para lhe gabar a excelência. Às vezes fica. E, ao seu lado, acorda apaixonado por tão admirável beleza. Inebriado com o perfume do seu corpo. Ela sorri. Torna-lhe que sim. Que germinou assim.
 
Aflige-se com a espontaneidade, no entanto gaba a verdade. E sempre que o vento acontece, murmura-lhe que sim. Que agrilhoado não o quer. E pede-lhe que, à noite, chame o luar. Ele faz-lhe a vontade e começa a cantar. Jura que vai plantar um jardim para ela brilhar. Ela murmura que sim. Que rebentou assim.
 
Sempre que a flor acorda de manhã, revela a certeza. Que reside no facto incontornável de ela ser assim. E conta que surgiu de uma minúscula semente que o vento derramou. Que o processo foi genial, tudo muito inato e que apenas precisa de água para sustentar a raiz.
 
Sempre que o vento desperta, mostra o movimento. De flores apressadas, muito enraizadas a cumprir a missão. Empenhadas na bajulação, nem percebem a sua desconsolada condição. O vento não resguarda flores de plástico, que não é dado a coacções desusadas. Nem a sofisticações forjadas e muito laboratoriais. E a flor segreda-lhe que sim. E narra arrelias ampliadas que se exteriorizam no jardim.
 
A flor contenta-se na exteriorização da sua lealdade. Naturalmente assombrosa. E eu não percebo por que razão as pessoas preferem as flores artificiais. Tanto, que acodem como elas. Na vassalagem ao Sol. Na exteriorização de vontades que não são suas. Nem sabem que as flores artificiais dispensam a luz, a água e a pátria. Movem-se por imitação.
 
E o vento começou a soprar...
 
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se ficares exposto por muito tempo, e aprendes que não importa o quanto tu te importas, algumas pessoas simplesmente não se importam...
 

Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás, portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma em vez de esperares que alguém te traga flores, e aprendes que realmente podes suportar... que realmente és forte e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não podias mais.
 

 William Shakespeare

E a flor pôs-se a pensar...

 


10 comentários:
De jabeiteslp a 6 de Novembro de 2008 às 17:14
belos pensamentos
os do teu jardim
e sempre assim
inebriante polen de brisas
nos braços de um vento sem tempo levadas
no mais belo perfume de palavras
sejam perfumadas
mas um coração conserta-se em tal perfume
e obriga o mundo a parar
e pensar
no bonito de ser por amar
seja o que for
mas
perdi-me no dédalo dos aromas
do teu jardim
enfim.....


da Covilhã
beijo
porque não escreves um livro ?







De Paola a 6 de Novembro de 2008 às 17:38
Oi,

Gosto dos teus comentários. Assim poéticos, com imagens bonitas...

Livro, eu? Não seria capaz...

Beijinhos


De GMV a 6 de Novembro de 2008 às 21:23
Tal como Shakespeare, também acredito que se pode ir mais longe... até porque há flores que ainda pensam.

Hoje cheguei enjoada (terei pensado enojada?), pelas movimentações entusiasmadas, dessas flores artificiais que abundam naquele terreno baldio!

bjs mts


De Paola a 6 de Novembro de 2008 às 21:35
Só que as flores naturais estão à beira da extinção... não sobrevivem em terrenos baldios, o vento é frio, agreste. E o tempo não olha para trás...

Bjos


De Jorge Soares a 7 de Novembro de 2008 às 00:08
Olá

Nem sempre é fácil, será natural?, será artificial?.... será que o vento sabe?

Beijinho
Jorge


De Paola a 7 de Novembro de 2008 às 00:10
Sabe, sabe! O vento conhece-as bem... as pessoas é que se deixam enganar...

Beijinhos


De M. Emília Matos a 7 de Novembro de 2008 às 14:18
Às vezes até as mais belas flores naturais murcham perante a impotência da exigência incompreendida, porque anti-natural. Hoje o teu texto é poesia... mesmo que agrilhoada à banalidade do que teimam em apelidar de "Individualidade".

Beijo


De Paola a 7 de Novembro de 2008 às 22:14
As flores naturais estão a murchar, a perder o viço... Evidenciam-se as artificiais numa afirmação pegajosa e muito individual.

Beijinhos


De Utopia das Palavras a 7 de Novembro de 2008 às 15:40
Hoje estou de poucas palavras, mas sempre te digo
que tu... exteriorizas essa flor que tens na alma!!!

beijo


De Paola a 7 de Novembro de 2008 às 22:16
São raivas, impotências e silêncios impostos. São dores que deveriam ser de todos...

Beijinhos


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