Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

espantalhar

 

A solidão surge agarrada ao espanta-pardais numa seara de trigo, no Verão, com feições de gente... Paralisado num aborrecimento de pau, ele demora-se na chegada do vento. Exige-lhe desvelos e crónicas de outras eras. E movimenta-se em ritmos perdidos no seu olhar. Serpenteia o coração e ouve o que ele lhe diz. E duas lágrimas desbotadas percorrem os trapos que vestem o espantalho. Para baixo, para orvalhar a raiz. O tempo ignora-o. Não o tem tratado bem. Dias sombrios, com noites de luz.
 
Eu desenterro silêncios ruidosos. Melodia de máscaras. Solilóquio de mim. Procuro-me… e sou ele numa mistura desenfreada de ecos e retalhos. Sou um espantalho dispensável e os pássaros fazem o ninho nas abas do meu chapéu. Sou um espantalho sem perigo, apenas o abrigo de pardais famélicos e sequiosos. Eu não quero a função de espantalhar. Se eu fosse um espantalho chamar-te-ia para junto de mim. Não assustava os corvos, nem os pardais, nem queria a cidade que se avista no fim. Escutava árias de amor com doçura na voz e gritava contra o silêncio. Desmentia os vultos que fogem de mim.
 
 
Larguei o destino. Ninguém vê  que o tempo é que espantalha assim, que quebra e derrota. Apetece-me fugir dali, porém vou ficar aqui enquanto os piscos cantam no medronhal...

 

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13 comentários:
De GMV a 17 de Novembro de 2008 às 20:24
Admiro-TE, escritora. Leio-te e não te sei comentar.
Por isso, fico assim_________________________.

Beijos meus

(e tenho saudades do Garou!!!!)


De Paola a 17 de Novembro de 2008 às 20:51
Ainda me me admiro, amiga, com os teus exageros...


O Garou vai voltar, mas só quando me cansar de ouvir o Paulo e a Mariza. Adoro este dueto!!

beijos e muitos beijinhos


De Utopia das Palavras a 17 de Novembro de 2008 às 23:28
e eu...
fico assim
espantalhada
perdida no vento
agarrada
à raiz que me plantou
lendo-te
e tal como espantalhada
espantada...
fico...!

Mil beijos


De Paola a 17 de Novembro de 2008 às 23:46
São as raízes que nos agarram ao chão, que nutrem... o espantalho não que é boneco com medo dos pardais.

Beijinhos

Uma flor para ti ... com raiz.


De Perfume a 18 de Novembro de 2008 às 15:27
Olá Paola, o teu espantalhar tem o efeito oposto em mim,- atrai-me sempre até esta seara de crónicas....
Gostava de ser espantalho no teu jardim das palavras.


De Paola a 18 de Novembro de 2008 às 19:57
Se fosses espantalho no meu "jardim das palavras" não espantavas os piscos, nem os pardais, pois não?

Obrigada

Beijinhos


De jabeiteslp a 18 de Novembro de 2008 às 17:59

e dão que pensar
as palavras de rara beleza
profundas
próprias de uma certeza
o ser de ser na mais perfeita leveza
do sentir
e de nunca parar
a tua forma de verbo amar
e encantar

beijo da Covilhã


De Paola a 18 de Novembro de 2008 às 20:03
As palavras que usamos mais não são do que conjugar o verbo amar, gostar, admirar, sentir, chorar, rir... porque a nossa vida está recheada de acções.

Beijinhos


De jabeiteslp a 18 de Novembro de 2008 às 21:28


e penso que serão sempre
o nosso quê de se ser
as acções


beijo daqueles


De Paola a 18 de Novembro de 2008 às 21:48
agimos logo somos

Beijo


De jabeiteslp a 18 de Novembro de 2008 às 21:53





De Jorge Soares a 18 de Novembro de 2008 às 23:27
Não é que se torne dispensável, a solidão fez que percebesse que não devia espantalhar, era mais fácil aceitar a companhia dos pássaros.. por vezes a vida ensina que afinal... há outras coisas que fazer.

Beijinho
Jorge


De Paola a 18 de Novembro de 2008 às 23:35
Só que há solidões... A do espantalho no meio do arrozal é solidão... msmo que queira não tem mais ninguém, quanto muito outro espantalho espetado num pau... A outra é boa!

Bjo


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