Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

costurar

                                                                

 da Internet

 

 

 

Olhava para mim com olhos descontentes. Assustados com necessidades inventadas. Imprescindíveis. Da sua boca brotavam palavras tricotadas em ponto alentejano. Rendas tecidas com linhas encomendadas na loja da esquina. Frases urdidas com os dedos, ao serão, e uma agulha de metal. Com a pronúncia adequada. A entoação ajeitava-se nas paragoges de algodão e seda. Por mais que lhe provasse a minha falta de aptidão para a arte, ela dizia sempre que não. Chuleava palavras de desacordo. Cosia intenções descontentes. E eu, que estava ali, alinhava verdades rendilhadas. Eu não! Que as meninas não eram obrigadas a costurar. Que o tempo da costura já passara. Mentira, tesourava ela. O saber cabe em qualquer lugar. Ponto cadeia! A verdade é que tentei. De imediato me desembaraçou dali. Que eu não tinha jeito nenhum. Apostrofava que haveria de chegar o dia lhe daria razão. Ainda bem que não! Caso contrário, não chegariam as linhas, nem os dedais. E eu nem culpa tinha que houvesse lá em casa uma máquina de costura. Não tinha!

 
Eu sabia conjugar o verbo costurar nos tempos e nas pessoas todas, excepto no eu. E para a regozijar exibia-lhe casacos e camisolas que eu tecera com lãs coloridas. E lençóis com bainhas abertas. Um dia, dei-lhe um vitral enorme. Contornos a tinta-da-china e colorido com cores prateadas roubadas aos chocolates. A perplexidade foi notória. Entre a admiração e a desilusão interpôs o costurado. Os botões e as bainhas. Mas lá ia dizendo que o saber não ocupava lugar. Ao menos isso. Ao menos???? Eu não tinha jeito para aquilo! Nem tenho.
 
Sempre que chegava a casa, dava-lhe conta das minhas aprendizagens escolares. Do empadão ao ponto cruz. Narrava histórias generosas em que misturava a História e a Geografia com os rissóis. A leitura com a escrita E ela estava sempre à minha espera para saber. Hoje, choram as memórias dessas tardes. Dessa época, sobram-me destrezas manuais que já não sei. Não preciso. Foi um tempo que o tempo descoseu.
 
Agora, que estou aqui, pergunto-me se as meninas partilham saberes com as mães. Se ambas estão interessadas em saber. Se as meninas de agora têm vontade de aprender e o que sabem fazer? 
 
Se eu pudesse debruava a vida da minha mãe a ponto grilhão. Muito apertadinho e muito certinho. E ela estaria aqui a sorrir para mim. Pela ignorância do meu costurar.
 
 
 

 


4 comentários:
De GMV a 19 de Novembro de 2008 às 19:01
Hoje, as tuas memóras avivaram as minhas. Também elas vestidas de "Singer", que pedalava noite e dia, para a entrega atempada dos blusões que seguiriam para Angola, ainda em tempo de guerra. A minha avó e a sua máquina de costura.

Obrigada, Paola.

Um beijo meu


De Paola a 19 de Novembro de 2008 às 19:08
A minha cosia folhos nos vestidos que eu estreava ao domingo e que pintava com cores de amoras e de medronhos... Ficavam lindos!! A minha mãe é que não gostava...

Beijo


De cigana a 20 de Novembro de 2008 às 15:40
A minha avó costumava dizer que tantos anjos a levassem ao céu como os pontinhos que já tinha dado, e agora ao ler isto pensei que eu então não vou ter anjos nenhuns...
Obrigada pela nostalgia.


De Paola a 20 de Novembro de 2008 às 15:59
Expressão curiosa, a tua avó... Só que fico quase como tu, porque sempre dei uns pontinhos. Que sossego para os Anjos! Assim não têm muito que fazer...

Beijinhos


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