Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

mentir

da Internet
 
 mentiras persistentes 
 
Era uma vez um menino muito mentiroso. Todos os dias dizia mentiras como se estivesse a falar verdade. Vomitava mentiras como quem desabrocha verdades. Dizia-se que tinha perdido o tino, coitado. Que tinha sido apossado por uma daquelas estúpidas doenças que roubam o juízo às pessoas. Sempre que mentia jurava que era verdade. E acreditava!
 
Certo dia, a caminho do emprego, avistou uma claridade assombrosa. Excessiva e refulgente. Ofendida e grandiosa. A excitação arrastou-a para o local. A ignorância do facto não lhe daria descanso. Foi ver.
 
Incrédulo e amedrontado, aproximou-se mansamente. A multidão empecilhava-lhe os olhos. Ouviu gritos histéricos. Clamores extravagantes. Alaridos excêntricos. Irreligiosidades arrogadas. Deus!! É Deus que veio cá abaixo. É Ele, eu conheço-O bem. Jurava-se em uníssono. E as mãos desenhavam o Sinal da Cruz num sacro ritual. Pai Nosso que estais no céu… E o rapaz não cuidava a razão d’ Ele estar ali. Chegaram-lhe ralhos e muitas admoestações. Deus estava arreliado. E ele não percebia se era por estar ali. Tu! A divindade apontou-lhe um dedo de reparos.
 
Deus avisou. Só mais uma mentira. Durante toda a vida. E acrescentou que o limite já fora ultrapassado. Que a tolerância acabara. Que lho quis dizer pessoalmente, porque não confiava nos emissários. E o menino chorou mentirosamente. No entanto, prometeu. Afiançou que não mais mentira. Intrujices nunca mais, nunca mais… Certo que não poderia cumprir.
 
E contou que tinha conversado com o Senhor… Mentiroso! Mentiroso! Mentiroso! Insultos e ultrajes de quem não sabia a verdade. Que enorme crise de desconfiança! Uma mentira! Nem mais uma, dissera-lhe Ele. Entrou em casa a pensar se  Deus saberia. Se mentir é o mesmo que não dizer a verdade. 
 
Conta-se que o menino não aprendeu a lição. Extraiu pouco do muito. Porém, vive imensamente feliz. Não se tem a certeza se será para sempre.
 

6 comentários:
De Emilia a 25 de Novembro de 2008 às 17:27
Tal como o Tempo e o Espaço de Einstein, também a Mentira e a Verdade são relativas. E as sempre 3 verdades, a minha, a tua e a dos outros, são-no realmente para cada um dos que assim a sentem. Neste contexto, o menino nunca poderia aprender a lição de um erro que não entendia... Mais uma das minhas "tolerâncias lírico-reflexivas"...
Parabéns pelos textos: Desertos, Pavões, Rãs, Casas e Rios apaixonados, todos contam segredos , todos soltam emoções, todos traduzem o que a roupagem esconde.
Beijo


De Paola a 25 de Novembro de 2008 às 19:19
Apesar da relatividade da mentira, ou da verdade, o menino mentia. Tanto que as confundia. tanto que quando falou verdade ninguém acreditou...

beijos


De GMV a 25 de Novembro de 2008 às 20:23
Quando acabámos o estudo do Falar Verdade a Mentir, originou-se uma boa discussão sobre a mentira, sobre a verdade... e é tudo tão__________.

Tenho saudades da Jacinta, mas hoje gostei de ler sobre o menino.

Beijo meu.


De Paola a 25 de Novembro de 2008 às 21:55
... mas há verdades, apesar de toda da relatividade, verdadeiras... e, ontem, ouvi muitas mentiras. ou seriam verdades?

beijo


De Jorge Soares a 25 de Novembro de 2008 às 21:47
O problema está amiga, em saber quando de tão repetida a mentira se torna em verdade.... parece que agora é moda, alguém diz um numero, há um monte de gente que o escreve, muitos outros que o mostram e de repente, aquela passou a ser a verdade...

Vivemos uma época estranha, até os verbos perdem o seu significado.

beijinho
Jorge


De Paola a 25 de Novembro de 2008 às 22:00
De acordo! É o peso da notícia... cada vez mais é ténue a barreira entre a mentira e a verdade. Num instante, o que é deixa de ser... mundo estranho, sem dúvida.

E os verbos que sempre foram acção...

Beijinhos


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