Sábado, 29 de Novembro de 2008

subir

 da internet

 

 conversas na ladeira

 

 

O vento chicoteava o rosto como quem rouba um beijo. E as mãos como se estivesse a trabalhar. De quando em vez, agitava-se. Enrolava-se com prazer. Ofegava palavras vermelhas de paixão. Percebia-se no seu tocar. Depois, zangava-se. Afecto torvelinho num concerto perturbado. E divulgava-se na ladeira sem se importar com as pegadas que deixava no asfalto. Bradava que os caminhos eram feitos para caminhar e as ladeiras para ladear. Para baixo e para cima, sempre a rodopiar. E praguejava muito. Espumava gestos enfurecidos. No seu coração remoinhavam predadores que mordiam a solidão. E subia…
 
O Sol estendia-se ao comprido. Numa nesga da calçada. Sorria nas portas que encontrava. Esticava os dedos e empurrava o vento que não sossegava. Amornava a encosta de alcatrão, calçada de pedras cinzentas. Está frio! Gritava-se lá do alto. Pois está… ressoava do outro lado. E decidiram sentar-se a meio da ladeira. No exacto ponto onde o Sol se empoleirava e o vento não chegava. Vamos tricotar palavras. Vamos? A outra aceitou.
 
E tanto que ladearam as palavras. Esgotaram-nas antes do vento. Durante o Sol. Ela afiançava que sim. Que tinha a certeza. Mas a outra duvidava. Que nunca tinha ouvido falar. Que não deveria ser assim. Verdade! Afiançava na certeza de quem lho tinha dito. E a outra acreditava. Que bem se estava ao sol. Lamentava que o vento dificultasse o tricotar. Perguntava uma se tinha visto. Ela vira e até chorara. Garantia-lhe a beleza da emoção. Nem tinha podido. Essa era a sua intenção. Apenas não foi capaz. Adormecera estoirada, logo que se sentara no sofá. Queixava-se. Que gostava tanto, que nunca perdia um. Que aborrecimento! Não se preocupasse que ela contava. Não perdera pitada. E a narrativa era interrompida por desabafos frios. Que o vento é que estragava tudo. É claro que o vento ouvia e não gostava. Informava que tinha de ir, ao mesmo tempo que exigia companhia. Ela respondia-lhe que não. Que já era tarde. Que tinha coisas para acabar. E o marido até planeava jantar. Credo! Antes de almoço a confeccionar o jantar. Que assim se cansava e que a culpa não era da ladeira. E travaram-se de razões. Uma porque era cedo, a outra assegurava o atraso. Que a vida era um enfado. Logo retomaram o assunto. Que assim não podia ser. Pois não! Mas nada podiam mudar. Não, não tinha ouvido nada. Foi uma desgraça. Em pleno dia. À hora do Sol. Se não lho tivessem afiançado, nem acreditava. Bandidos. Não fazem nada! E a outra, conhecedora do assunto, aprontou-se a explicar que a culpa era deles. Davam cabo disto tudo. Que nunca se vira coisa assim. Excediam-se nas palavras e multiplicavam os gestos. Que ninguém fazia nada, repetia. Por isso, dava sempre razão ao marido. Desenvolvia ele que o mal vinha de fora. De muito longe, embora não soubesse fielmente o lugar. E que com aquelas conversas, ela adormecia. Ele lia, nesse caso sabia. Tornava ao jantar. Que ia cozinhar isto, talvez aquilo. Não se importava. Ele que comesse o que ela fizesse. Que uma mulher não tem tempo para tudo. A lida da casa dava trabalho! Pior do que subir a ladeira.
 
O homem deve ter jantado. Sentaram-se no sofá descansos do trabalho. Ela dormiu vagarosamente e ele dialogou consigo. Ela ressonava palavras crochetadas ao Sol. Ele afligia-se com a escuridão do silêncio. A outra, à varanda, fumava um loquaz cigarro. Queixava-se de ter pouco saldo no telemóvel. Que a bateria estava a desaparecer. Que tinha estado na ladeira. Que trocara umas palavritas sobre aquilo. Mas sem interesse. Perguntava se já sabia. Se tinha visto até ao fim. E ria.
 
Eu, que não subo a ladeira, desci. Não olhei para trás e fugi dali. E só pararei junto dela. Resguardadas do vento e do Sol, esticaremos as palavras e tricotaremos tanto, mas tanto, que  os dedos permanecerão entorpecidos o dia inteiro. Faremos volutear malmequeres e papoilas. Pétalas e folhas de rosas-do-deserto. As joaninhas voarão envergonhadas por não saber falar. Os gafanhotos pularão excitados pela incapacidade de correr. E as rãs chapinharão no charco, desconjuntando os juncos. Só depois é que subiremos a ladeira...
 
 

Escrito por Paola às 00:05
Link do post | Adicionar aos favoritos
De Emilia a 2 de Dezembro de 2008 às 19:30
Ladear... tricotar palavras! As palavras são blocos de combinação incríveis e tu fazes construções magníficas. Parabéns por dizeres tudo quando nada dizes e por não dizeres nada quando dizes tudo. O teu jogo de palavras é uma delícia viciante. E, às vezes; fico mesmo sem palavras.
Beijo
Emília


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

pontos recentes

Ontem [Como se fosse já]

Desacerto [desabafo de um...

A outra margem [restauro ...

Oportunidade

Palavras pequeninas [E cr...

O rio

Sardinheiras

No lado contrário

Gola de laço

A conversa das canções [a...

Convento de Jesus [no tem...

Água do rio

Pelo caminho [as cegonhas...

No tacho [da minha infân...

Memória

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

Gostaria de saber se vcs mandar mudas de margarida...
A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Em destaque no SAPO Blogs
pub