Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

arranhar

gato emoldurado

 

 

Entre ele e o mundo, há um vidro. Uma porta cerrada. Uma janela aferrolhada. E ele permanece num mostruário moribundo. Ali, silencia alforrias arreliadas. São larguezas encarceradas nas palavras que agita no seu corpo. São arranhões nos vocábulos que abraça e embala, mas que não ousa pronunciar. Ao Sol, jazem magnânimos miados encarcerados.

 

Entre ele e o mundo, há um vidro. Entre mim e ele há o olhar. Olhos embaciados de liberdade pedintes no cárcere envidraçado. Liberdade mascarada! A sua cabeça entorna ruídos sangrentos. De gente que passa para o outro lado do passeio. Com pressa. Na lentidão de quem gasta horas ao tempo que lhe sobra. Do comboio que se queixa das partidas marcadas. Das chegadas desorientadas. Do outro lado, chegam-lhe vozes agarradas à calçada. Que esventram a terra em gestos cansativamente repetidos. Ouve algazarras de meninos que derramam alaridos pela estrada. Vontades esfomeadas que passam à janela. Apavora-se com acelerações inúteis e olha o Sol.
 
De todos os estrondos, distingue a melodia de uma canção. Um poema com rimas perfeitas. Prodigamente ricas em pequenos nadas. Sou o menino da montra que vive na afronta... sou a alegria que me faz lamber a rua... sou o menino que te reencontra... mas que se amedronta por não ter a Lua.

Às vezes ele chora. Eu já o ouvi a soluçar… por escutar a multidão a passar. Que olha, mas não vê. Que quer, todavia não crê. Que tece tristezas, no entanto sorri. Ele é a voz da rua. A voz da gente que desconfia de um gato que não pode miar.
 
Disse-lhe que não se perdesse em quezílias estéreis… que gato pisado não gosta de arroz…
 

 


5 comentários:
De jabeiteslp a 6 de Dezembro de 2008 às 22:20


gato pisado não gosta de arroz...
até do da D.Perprtua ?


De Paola a 6 de Dezembro de 2008 às 22:32
Desse gosto eu...

Beijo


De jabeiteslp a 6 de Dezembro de 2008 às 22:37

e deve ser bem bom

bom domingo


De GMV a 6 de Dezembro de 2008 às 22:35
Até quando escreves aos gatos, a tua escrita é assim como_____________________ o doce do arroz!

beijos meus


De Paola a 6 de Dezembro de 2008 às 22:51
Um gato que ouve a tua fome quando passas na calçada...

Muitos jinhos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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