Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

desassossegar

solidão com palavras
 
 
Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavras. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem.
 
E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
 
Livro do Dessassossego, Fernando Pessoa(Bernardo Soares )
 
E as palavras bruxuleiam desassossegos em mim, tu sabes. Não o vejo, mas sinto-o... Pressinto-o na correria desenfreada das palavras que fogem daqui. Adivinho-o nas vozes que ouço nos corpos que eu queria aqui. Perscruto-o nas pegadas abandonadas por passos que não sei. Vislumbro-o nas mesas vazias de café.
 
O café sabe-me sempre a desassossego. É a cafeína que conversa comigo até de madrugada sem sono de dormir. Se não converso com ela, entorna arrufos desagradados. Por isso, desço as escadas. Um café, por favor. Pensei, na inabilidade de pronunciar palavra. E uma chávena branca poisa comigo. Provocadoramente fumegante. Insinua-se em aromas libidinosos… e eu dou-me a uma tranquila paixão. E ali, reparto circunstâncias. Desassossegos da rua. Tudo à mesa do café… Ali, onde nunca estamos sós, porque fruímos o ruído dos outros.
 
Subi as escadas com o mesmo desassossego com que desci. Pressinto-o na correria desenfreada das palavras que fogem de mim...
 

Escrito por Paola às 00:02
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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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