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ponto de admiração

ponto de admiração

11
Dez08

bruxulear

Paola

 

 

menino sem Natal

 

(imagem da Internet)

 
 
Deitou-se, pouco depois do jantar, sem que o sono tivesse chegado. Nem a menor advertência. As pálpebras não tiritavam ao ritmo de reflexos sonolentos e as suas grandíssimas pestanas negras calavam enleios enamorados. Arrumou-se na horizontal no cumprimento de disposições paternas.
 
A noite aconteceu muito cedo. É sempre assim no Inverno. Sobre a mesa-de-cabeceira, o candeeiro a petróleo atrevia-se a ser luz. A torcida subia e descia disposta a cooperar. A chaminé enfarruscada queixava-se de não ter sido limpa com o jornal, mesmo assim cumpria a sua condição. Devagarinho, emanava um bruxuleio amarelo-turvado. O quarto era pequeno porque a casa era pequena. A cama era mais pequena ainda. O frio de Dezembro corria friíssimo de parede a parede. Do chão ao tecto. E ele, por tanto tremer, refugiou-se no calor de dois cobertores às riscas. Largas, castanhas, amarelas, verdes e vermelhas. Em lã churra de ovelha. Pesadas e quentes como o Sol que, na sua cíclica obediência, se deitava mais cedo. Mas era aquela a luz que lhe permitia penetrar na pele das coisas. Por isso, descia o pavio e extinguia a chama.
 
E via a noite de estrelas cintilantes. Meninas e franzinas abraçadas à escuridão. Adivinhava-lhe intenções. Pedia-lhes mais esplendor. Exigia-lhes que denegrissem o cristal. Que não plagiassem o candeeiro que bruxuleava sempre antes de morrer. De entre todas, uma tinha mais esplendor. Subiu até ela e foi ver o Natal. Que não cabia numa casa tão pequena. E empoleirado na Cygni aproximou-se do Sol. Viajaram os dois, com o céu na ponta dos dedos. Ali! Acolá! Não, mais para aqui… Vamos! E foram… Descobriu brilhos ilusórios. Delírios refulgentes de luzinhas que tremeluziam na cidade. Correrias desvairadas alindadas com laços de metal. Encontrou gestos repetidos em juramentos de fé cumpridos no dia. Maltratados antes. Crucificados depois. Destapou hipocrisias que bruxuleavam rumores resolvidos a cumprir a tradição. Estranhou o brilho excessivo de luzeiros a iluminar. E boquiaberto pensava que tinha aterrado num céu a brincar. Mas depressa percebeu que se tinha enganado. Que no céu não há publicidade, nem centros comerciais.
 
E por tanto ver, acabou por adormecer. E sonhou que as estrelas do céu é que são autênticas. Bruxulear reside na circunstância de libertarem energia na tranquilidade do seu ser. Mas lamentou a cobiça do Sol que, por inveja, lhes perturba o brilho. Durante o dia, porque a noite há outro brilhar.
 
Enquanto dormia, segredava à estrelinha, que espreitava à janela, que era um menino afortunado. Tinha um candeeiro a petróleo humilde no seu cintilar. O pai e a mãe dormiam tranquilamente no quarto muito pequenino. De manhã, tomariam o pequeno-almoço juntos. Depois, brincaria com o papagaio de papel que o pai lhe fizera com um fio do tamanho dali até às estrelas. 
 
 
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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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