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ponto de admiração

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21
Dez08

andar

Paola

- Mãe, mãe vem aí o Natal… Vem ver, mãe! Vem!
 
Ela não foi. Se fosse não o veria. Natal não anda, garantia ela, ao mesmo tempo que reclamava do garoto mais tento na língua. Mais empenho e responsabilidade. E nada de criatividade. Os dias corriam enxovalhados e a mulher entrelaçava sonhos de menina enquanto descascava as batatas. Vem! Insistia o petiz, afiançando que o Natal andava e que a mãe é que não o queria ver. E explicava ao filho que não era uma questão de querer, porém de poder. Ela não podia. Ainda não recebera o ordenado do mês. A Senhora, era assim que evocava a patroa, tinha partido numa viagem precipitada. Nada programada. Não tivera tempo de lhe pagar.
 
Ó mãe, vem ver o Natal! Gritava o petiz extasiado à janela. E ela foi. Por incompetência. Por não tornar claro o que para ela era evidente. Não recebera e o Natal precisava de dinheiro para andar. O miúdo era pequeno… por mais que se esforçasse, ele nunca compreenderia. O melhor era esquecer a cisma do filho. Os dias aconteciam maltratados e a mulher sentia a dor da bolada no peito. No corpo todo e nas prateleiras também. Fora uma tacada violenta. A bola saíra com violência do taco, a Senhora dizia putter e ela não entendia de que falava, e correra por caminhos desacertados. Atingiu-lhe a dignidade. Um golpe que, numa fracção de segundos, a impediu de ver o Natal. Por não poder, pensou ensimesmada.
 
Vês, mãe, o Natal a andar? E ela via multidões embrulhadas nos sacos que carregavam nas mãos. Observou luzimentos animados. Viu estrelas a bruxulear na porta da mercearia. Viu o fumo no ar. No passeio, na esquina da rua, adivinhou o carrinho do homem das castanhas que atraía quem passava. No assador de barro, estalavam mínguas retalhadas. Viu entradas e saídas. Correrias aceleradas, todas muito bem decoradas. Mãe? E ela voltou… Ali, mãe… olha o Natal a andar! Aqui, mãe. Olha como ele anda!
 
O homem aproximou-se da janela. Envolveu o garoto com gestos afeiçoados e presenteou-o com um balão amarelo. Depois olhou para a mulher e abraçou-a com um conivente sorriso. E de repente, sorriram tanto que todos foram um. Já acreditas que o Natal anda, mãe? As lágrimas impediram-na de responder. Via multidões embrulhadas nos sacos que carregavam nas mãos, ao mesmo tempo que rasgava a pele da última batata.  
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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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