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ponto de admiração

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26
Dez08

Jacinta XI

Paola

de João Palmela
 Setúbal
 
Depois saíram da loja envolvidas na mesma gargalhada com que tinham entrado. Jacinta apenas queria um telemóvel cujo número nem ela própria soubesse. Para não o poder dizer a ninguém. Assim, aceitou de imediato a sugestão de Beatriz. Que seja, amiga. E foi.
 
- Giro! Vais poder tirar fotografias…
- Telefone, queres tu dizer!
- Bolas, Jacinta. Ri-te, vá lá.
- Sentamo-nos? Ali…
- Claro! Queres que eu te configure o brinquedo, não é?
 
Sentaram-se sem que ela tivesse ouvido a pergunta. Numa praça descaradamente pública. Era ali que tudo acontecia. Ou então, onde tudo se sabia. E todos, que nem eram muitos, falavam do calor, ao mesmo tempo que lamentavam a sonolência da vida. Compreendiam a aridez do mundo e, simultaneamente, negavam o eclipse da Lua.
 
Ali, na praça, bebiam café, excessivamente adoçado, servido em chávenas abrasadas e muito brancas. Os empregados serviam os clientes ao ritmo da lentidão. Certos que o tempo não se esgotava numa tarde quente de Verão. Que depois do pôr-do-sol as tardes se repetiam. Todos os dias. Bastava dizer até amanhã. Volte sempre.
 
Ali, na praça, Jacinta sentou-se como quem descansa a fadiga de anos. Alongou-se na cadeira de alumínio como se fosse uma escada. Trepou os degraus dois a dois e chegou ao Céu. Que era ele. Jamais se libertaria da transparência daqueles olhos verdes. Irra! Nunca beijara um rosto tão belo. E sempre que os seus lábios se desfaziam em amor, ela perdia-se naquele mar apaixonadamente agitado. Às vezes, distinguia barcos que partiam, que chegavam. Outras eram as gaivotas que calavam movimentos esfomeados e esbugalhavam os olhos espantados, não disfarçando gritos de ciúme. Mas, quase sempre, via chorões debruçados sobre o rio… Amo-te! Amo-te! Não feches os olhos, amo-te! E sempre que ele os não fechava, os chorões perdiam-se nas águas à espera do milagre da flor. E o amor era tanto, tanto que a pele vertia arrepios com sabor a mel.
 
- Jacinta!
- Hum… Hã?
- Já está…
 
Jacinta alongou o olhar até à igreja que branquejava no outro lado da praça. E lembrou-se que há muito não se aproximava do altar. Nem da porta. Que a continuar assim, Deus não lhe perdoaria…
 
- Jacinta!!
 
 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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