Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

silenciar

da internet
 
dans la cour de récréation
 

 

 
Tantas os vocábulos que pululam em mim! Os que rasgam e machucam como se tivessem mãos. Outros que acarinham e beijam. Os que não se importam, nem eu me importo com eles. Os que passam… os que se demoram numa teimosia pleonástica. Ai, os sorridentes com os quais, numa algaraviada descontrolada, choro a rir à gargalhada. E erramos sem destino bêbedos de harmonia. Tantos sobressaltos com palavras daninhas! Então, choro. De nenhuma sou distante. Nem tão-pouco das que ignoro… apenas estranho que hajam palavras assim… A todas embalo e estremeço com elas. Sentadas no meu regaço, sou eu que parto com elas. Às vezes, zango-me com as excessivamente rigorosas. Só por causa das áreas e dos casos notáveis da multiplicação. É visível a desigualdade e a fracção. Agora convencê-las que a incógnita não é um xis, que a soma não é universal e a subtracção termina perniciosamente em dedução! E perante a impossibilidade de diálogo, as palavras narram o milagre da multiplicação. Depois, o de Santo António aos peixes. E quando desejo que se algemem, iniciam relatos de remédios e curas, de mestres e profetas. E no meio de tantas palavras, há uma que se diz perplexa perante a evidente interrupção das leis da natureza. E até elucida que o fenómeno se explica pela intervenção do poder divino.
 
Numa amálgama de cores, as palavras, são telas. Ali, onde a luz favorece a descrição, o fundo foi um deserto. Numa miragem distraída, a vida  morreu à míngua de humidade. Legítima ilusão! As palavras áridas revelaram-se representações pictóricas de certas vontades. E eu vi roedores e pragas de insectos. Adivinhei outras espécies que, apenas à noite, saem das tocas para beber. Mais abaixo, descortinei os que podem passar a vida inteira sem beber água, extraindo-a do alimento que ingerem.
 
Ontem, a palavra deserto arrastou-me para o deserto, com sabor a deserto… um local inóspito e desprotegido. O frio foi tanto, mas tanto, que culpei um deus baralhado a fazer o milagre. Por isso, olhei tão cuidadosamente para o quadro que depressa descobri o equívoco. Faltava um raiozinho de Sol… mesmo no deserto. Forçosamente no deserto.
 
As palavras exibem quadros com distintas tonalidades. Pontualmente, surgem a preto-e-branco. Falta-lhes a cor. Talvez apareça se eu fingir que ela existe. Quem sabe! Porém, sempre que chove no pátio do recreio, eu declamo a palavra chuva…
 
 

 

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Escrito por Paola às 00:13
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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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