Sábado, 17 de Janeiro de 2009

tramar

 imagem da internet

 

Sei de um saquinho. Linhas combinadas em movimentos ritmados e decididos. Calmos à tarde. Ao serão é que não. Novelos de sonhos que se desenlaçavam sorrindo. Enredos de artista desenhados por uma agulha adequada. E naquele dedilhar forjavam-se paisagens abertas. Futuras e presentes. Passados perfeitos e imperfeitos num templo de profetas. Condicionais muito hipotéticos. E tantos conjuntivos acarinhados! Sei de um saquinho de renda branca que antes de ser saco era apenas novelos de linha número doze. Agora geme na trama que é.  Hoje, quando digo saco, vejo uma paisagem que se amplia sem começo, nem fim. Sobre um fundo branco, avisto uma multidão compacta de palavras. Amontoam-se numa ordem esbanjada, hesitando entre a subordinação a regras impostas e o bulício que contêm. Quase todas me são estranhas. Às minhas, estendo a mão. Abraço-as com gratidão e elas emaranham-se em mim.  

 
Sei de um saquinho de renda branca tecida com dedos de deusa em laços de seda. Apinhado de amálgamas ponteadas de carinho. Com aglutinações de ternura e justaposições de amor-perfeito. Sem abreviaturas apertadas de nomes que a língua tem. Juncado por vocábulos animados numa parassíntese celestial. Antes e depois, infelizmente. E de todas as palavras primitivas que o saco encerra, são as mãos que teceram o saquinho de renda branca que eu peço. Mas eu sou acréscimo simultâneo de prefixos e sufixos. Sou recorte na união de dois radicais. Sou composição justaposta no guarda-chuva que na segunda-feira me abrigou da perturbação. Sou sigla num saco que desmaia nas letras que pronuncia. Sou acrónimo atormentado por arcaísmos determinados.
 
Sei de um saquinho de renda branca que se fecha sempre que uma justaposição de ideias imagina fugir. Arroz-doce… arroz-doce… arroz-doce… na mais perfeita composição. Com a mais primitiva canela. Sei de um saquinho de renda branca que esconde paisagens da floresta dos medos.
 

19 comentários:
De jabeiteslp a 17 de Janeiro de 2009 às 17:14

saquinho bonito
de paisagens escondidas
tem florestas de medos
esconde enredos
e penso tambem
feito por tais dedos
será adorador do mais completo
e perfeita composição
o arroz doce
porque não ?

e agora ?
eu
de arroz doce adorador
com uma monumental gritaria em mim
em desejos de tal sabor

só tu , para me pores assim...

bjocas da Covilhã
sempre em grande a tua forma de expressão
mas esse arroz doce... buáááááá´´a´´´´
tamem queo..




De Paola a 17 de Janeiro de 2009 às 17:23
O saquinho está na gaveta... A tacinha de arroz-doce já foi.E que bom estava! Depois um café bem quentinho e tanta, mas tanta conversa que foi um regalo!

Beijinhos


De jabeiteslp a 17 de Janeiro de 2009 às 18:00

no bom de te ver
um bom fim de semana

jocas


De Paola a 17 de Janeiro de 2009 às 18:27
Um bom fim-de-semana. Ajuizado, também.

Beijinhos


De jabeiteslp a 17 de Janeiro de 2009 às 18:31

vamos ver

beijinho


De Paola a 17 de Janeiro de 2009 às 22:40
Que seja!



De umbreveolhar a 17 de Janeiro de 2009 às 19:18
Olá minha amiga,
Li com com muita atenção este texto, e o que se me oferece dizer é que além de muito bem escrito tem um sentido muito importante aquele saquinho... Bonito - Os meus parabéns!
Cumprimentos e bom fim de semana,
CAB


De Paola a 17 de Janeiro de 2009 às 19:30
É, de facto, um saquinho especial. A minha mãe passava os serões a "crochetar"... E esse saquinho, que guardo, está cheio de memórias e afectos. Tu percebes... São essas recordações que ficam, que perduram e nos alimentam...

Bom fim-de-semana

Beijinho


De Jorge Soares a 17 de Janeiro de 2009 às 22:30
Curioso.... nunca tinha pensado no verdadeiro sentido deste verbo.... que de tanto tramar,..se converte em saquinho.

Bem tramadas as tuas palavrs, que nos enlevam e nos levam ... ao conhecimento.

Continuação de bom fim de semana
Beijinho
Jorge


De Paola a 17 de Janeiro de 2009 às 22:39
É um verbo tramado! Anda meio mundo a tramar o outro meio. Ninguém se preocupa com a trama que é um fio... e quem se trama somos nós!

Beijinhos


De Jorge Soares a 17 de Janeiro de 2009 às 22:45
Agora fiquei na duvida.... é legitimo utilizarmos o tramado quando estamos a querer dizer lixados?.... ...

Senhora professora, pode-me tirar esta duvida? o Tramar de entramar e o tramar de lixar... são iguais e diferentes? ou só a trama da linha é que é válida?

Desde já o meu obrigado.
Jorge


De Paola a 17 de Janeiro de 2009 às 23:01
Senhor Engenheiro,

É tudo uma questão de registo de língua... pode sempre tramar quem bem entender. A verdade é tudo por analogia com a trama de fios e linhas que dão pontos e nós bem complicados... entre numa e veja se não fica tramado... A nossa língua é tão altruísta, não é?
Beijinhos


De GMV a 18 de Janeiro de 2009 às 18:25
Já vi que andaste a cerzir palavras aos melhor estilo!

A trama é também teia por preencher, como tão bem fizeste.

Um dia quero ir comer esse arroz. Que não gosto. Mas que é pretexto para uma boa conversa.

Beijos meus e até terça???


De Paola a 18 de Janeiro de 2009 às 18:34
E desde quando é que precisamos de pretexto?

Beijos meus e até terça!!!!!!


De Paola a 18 de Janeiro de 2009 às 20:20
Pela verdade... Não andei a "cerzir", não senhora. Nunca fui dada a costuras... Croché, minha linda, croché que ela fazia como ninguém, com agulha de barbela...

Beijos


De GMV a 18 de Janeiro de 2009 às 23:43
A minha bem tentou ensinar-me, mas... nunca fui dada a agulhas.


De Paola a 18 de Janeiro de 2009 às 23:50
Para elas...

Beijo



De sininho a 18 de Janeiro de 2009 às 20:35
Adoro arroz doce..e ao ler as tuas palavras..fiquei com imenso desejo de arroz doce..estou a ver que ainda tenho de ir para cozinha e colocar as mãos nas panelas:) jinhos


De Paola a 18 de Janeiro de 2009 às 20:39
Vai, vai... mas deixa um pratinho para mim.

Beijinhos.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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