Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Jacinta XIII

O Sol caía no olival, depois do barracão, à esquerda. Queimado pelo tempo com que se recreou a brilhar. Erguera-se cedo com o intento de iluminar a abóbada celestial. Mas por ser tão grande, logo minguou perante a  missão. Talvez fosse esse o motivo pelo qual descia, pelo monte, em prantos dourados. Jacinta habituara-se a escutar-lhe o arquear ofegante. Ela sabia que ali ocorria a volúpia do instante. No exacto lugar onde o dia sucumbe aos pés da noite. Numa posição inversa à luminosidade que transportam. E cobriam-se com sedosos brocados matizados de negrume e claridade. No crepúsculo do deleite. Jacinta ouvia-lhes promessas de amor infinito. Depois do barracão que via da sua janela. E emocionava-se sempre que a noite, agrilhoada à efemeridade do tempo, encaminhava o dia:

 
- Farta os teus olhos de Sol! Inunda-os de luz e as trevas ficarão para trás. Nesse momento, os dias não serão que claridade. Na ausência das noites, o Sol esquecer-se-á que o ocaso é para cumprir.
 
Jacinta imaginava os dias e as noites, montados em doces cavalos alados, a errar por rudes e desapontados atalhos. Na vã tentativa  de eternizar passados corroídos pela preguiça do tempo. Com a alegria de quem rumava na direcção do mais comível banquete, apesar do sabor do impedimento. E o anoitecer tornava-se castelo alindado. Um local sagrado. Talvez o último reduto para os amantes. Abrigo de anjos açoitados nas asas. Como aqueles que Jacinta acolhe em cima da cómoda, no quarto.
 
Um frio tremor fê-la acordar. Saltou do sofá sem destrinçar onde residia o real. Tropeçou no tapete vermelho. O livro dobrava-se na página marcada. O gato, que caiu de pé, somente eriçou os olhos por não entender o súbito alvoroço. Jacinta aproximou-se da janela e já não viu o Sol. Estou aqui! Os seus olhos assustados viram-se nos dele.  Olhos de gato a espreitar nos meus! Declamou num pensamento estonteante.
 
Jacinta, minha ama adorada, eu sei-te tão bem. Aprendi a sentir o que sentes… a ver o que vês… aprendi a perceber que o dia a e noite se encontram no grito contido na dor dilacerante do desencontro. Não me vês, embora me olhes com o mesmo desmazelo com que dormes no sofá. Amo-te na beleza da tua voz, na ternura das tuas mãos… Gosto do modo desleixado com que me agasalhas.
 
Jacinta desorientou-se no olhar do felino… Estou louca! Louca! Concluía, na mais vertiginosa desordem de se desobrigar do bicho. Nunca, até então, ousara pensar… Era a sua companhia delineada numa fidelidade excessiva. Entendiam-se… Naquele dia os olhos do gato tinham um intenso sabor a jade. Estupidamente contentes.
 
Jacinta, minha adorada, eu sei-te tão bem. Não me vês… Olha como a minha cauda risca palavras no tapete vermelho da sala… como rasga o jornal que te aborrece. Repara como te escrevinho poemas que abalam pela janela e que tu não lês. No outro dia, lembras-te? Presenteei-te com um ramo de flores irreais… para que tivesses todas as cores e distinguisses a mais bela. Sabes, é sempre tempo de flores imaginárias. Em cada uma escrevi o teu nome… depois, amansei a minha boca nos teus olhos magoados. Olhei-te com a mesma apoquentação com que embaço o futuro. Eu sou, amiga, a tua voz no silêncio desta casa. A voz que te chama quando te ensarilhas na espera do toque do telefone. A tua dor é minha também. Por isso, eu salto pela janela e adormeço debaixo do chorão. Ali, junto ao rio…Gosto, porque gosto, desse lenço vermelho que te adorna o pescoço… lamento que não tenha sido eu…
 
Estou louca! Louca! Rumorejou, ao mesmo tempo que se reprimia no sofá. Ali, mendigou silenciosamente um tempo nutrido de horas cheias de suores apolíneos. O persa dourado enroscou-se sobre o tapete vermelho. De quando em vez, abria os olhos para ter a certeza que ela sossegara. Ancoraram na mais harmoniosa amálgama de cheiros.
 
 
 Fotografia de Jorge Soares
 
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7 comentários:
De GMV a 26 de Janeiro de 2009 às 23:35
Ah! A Jacinta! Merece leitura calma e com tempo.

Volto amanhã!

beijos meus


De Paola a 26 de Janeiro de 2009 às 23:42
Continuará por cá... como eu. Esperamos por ti.

Jinhos


De jabeiteslp a 26 de Janeiro de 2009 às 23:52


somos assim
e por isso nos torná-mos
gente de sentido e sofrimento
e muito sentimento...

xinho da Covilhã
uma boa semana mas nada de
nostalgias...


De Paola a 27 de Janeiro de 2009 às 00:13
É bom ser..

Boa semana para ti.

Beijinhos.



De jabeiteslp a 27 de Janeiro de 2009 às 00:20





De GMV a 27 de Janeiro de 2009 às 22:53
Agora já li com calma... aagitação da Jacinta. Os olhos cor de jade... trarão mais memórias??? ou encontros inesperados???

Vou esperar, calmamente, pela volta, na volta das tuas palavras.

Beijos meus


De Paola a 27 de Janeiro de 2009 às 23:01
A Jacinta é mulher da cor da vida... tudo lhe pode acontecer. Um dia, será capaz de viver outro dia, mesmo que o jade seja pedra rija... e verde.

Beijos abraçados


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