Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

descalçar

 geração descalça
 
 
 
Naquele tempo, o céu envergonhava-se orgulhosamente só. Por isso, da perenidade das nuvens escorriam coibidas lágrimas de mínguas.
 
Pelas estradas do reino, homens, mulheres e crianças erravam na busca do Sol. Poeirentas encruzilhadas. Escassos, os que confessaram habilidade para achar o caminho. Tantos os que distinguiam os atalhos. No entanto, desconheciam os trilhos… Tantos que bradavam silêncios indignados.
 
Pelas estradas do reino, os soldados imperiais circulavam de noite. Sem olhar os astros. Nas mãos, conduziam medrosas lanternas que camuflavam, na escuridão, uma luz ainda mais assombrada.
 
Cambaleando de esperança, um menino anunciava:
 
- Hoje faço anos. Sete!
- Tantos, menino?
- Sim… mais anos, mais a escola, mais a primeira comunhão, mais a primeira fotografia…
- Hum!
- Já sou grande!
- Pois és. E mais?
- Mais não tenho, mas tenho menos.
- Hum?
- Estreei uns sapatos, feitinhos só para mim…
- E isso é menos ou é mais?
- Menos!
- Hum??
 
E os pés do menino choraram prantos doídos porque não estavam habituados a viver encarcerados. O menino soluçou com eles.
 
Pelas estradas daquele reino, o menino vagueava com os pés algemados. Com os joelhos segredava uma oração. Depois, juntava as mãos na fé de que continuar era melhor do que ficar a rezar. E já cansado, pedia a bênção e ia-se deitar. Ao alvorecer, hasteou os olhos e desfraldou uma canção. Ao mesmo tempo que os pés cresciam nos sapatos.
 
Hoje, o menino pé descalço celebra o dedo-topada que um dia foi embrulho num sapato.
 
 
sapatos atados
fotografia da Internet

Escrito por Paola às 10:10
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