Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

regar

 afectos no canal
 
 
 
Na mais total frondosa elevação , respondia pelo nome de feto sem se importar com o rigor do baptismo científico. Verde-feto, de cor, espreguiçava-se na verticalidade do deleite. Escrevia palavras de amor puro, à janela. E todos lhe pediam mais, tal era a sua aptidão para poetar. Por isso, as suas folhas se diziam pínulas e muito recortadas para poemas declamar.
 
Na sua memória, havia fetos correndo pela beira do canal. De verde-feto mais intenso, feitores de versos que poucos se atreviam a ler. Ela olhava-os enlevada e descobria-lhes a paixão. Envolvidos nos pinheiros, eram troncos alucinados pela excitação. Havia quem assegurasse ser obra de qualquer deus enamorado. Acusavam um ser alado de rosto ameninado. Mas nunca ninguém o viu. Nem foi notícia de jornal. E, ainda hoje, eles desabrocham no mais tocante conúbio de corpo e alma. As suas amantes folhas ressumam seivas purificadas com o seu próprio sabor, na ânsia de propagar a chama.
 
Ela trouxe pedaços dessa paixão e plantou-os num vaso. À janela. Para que todos vissem que o amor se dizia na capacidade de apagar os erros que lia nos poemas. E ela amava-os também. Todos os dias, os regava com afecto. Eles diziam-lhe bom-dia no entusiasmo de um idílico cuidado e cresciam, cresciam… sempre muito verdes. Da cor do verde-afecto que acontecia, no outro lado da vida, à beira do canal.
 
Olho e pressinto o canal murcho pela míngua de água. Receio que os fetos tenham sucumbido à emboscada do tempo… Que agonizem com a lentidão com que alcanço o horizonte. Onde a terra sabe a mel e os fetos se dão no a-mar. Daqui, não os avisto… Nem a janela. E se não vejo a janela, não descortino o vaso onde os fetos fingiam viver na concordância da beira do canal… Ela também cedeu à cilada do tempo. Já não os pode regar. E os fetos provaram o sabor da ausência do beijo pela manhã. Eu demoro-me neste murchado olhar. Para todo o sempre!
 
 
Fotografia da Internet
 

16 comentários:
De jabeiteslp a 3 de Fevereiro de 2009 às 18:35

mas fica-nos na memoria
murche até o olhar
esse quê de magia no saber
esse quê de silencio só nosso
nosso por entender
mas tambem
"de que nada se perde
só se transforma..."

beijinho da Covilhã
resto de boa semana
bela nostalgia...


De Paola a 3 de Fevereiro de 2009 às 19:18
Esse silêncio, que é meu, lembra-me para que eu nunca esqueça...

Beijinhos


De jabeiteslp a 3 de Fevereiro de 2009 às 19:45

depreendo que foram bons momentos...

beijinho


De Paola a 3 de Fevereiro de 2009 às 19:58
São sempre bons os momentos que vivemos. Porque se está vivo! Depois quando alguém "parte" fica a saudade... neste caso para sempre!



De jabeiteslp a 3 de Fevereiro de 2009 às 20:35

o teu pai, manobrador como eu ...


De Paola a 3 de Fevereiro de 2009 às 20:37
Ao lado! Quem regava os fetos era ela... Quem era da terra do canal ladeado por fetos era ela...

Beijo


De jabeiteslp a 3 de Fevereiro de 2009 às 20:50


não vou lá...



De Paola a 3 de Fevereiro de 2009 às 20:54
Simples...a minha mãe!



De jabeiteslp a 3 de Fevereiro de 2009 às 21:11


queres falar nela ?
foi há muito tempo ?
deveria ser especial...

beijo


De jabeiteslp a 3 de Fevereiro de 2009 às 21:53

agora compreendi

beijinho


De Professorinha a 3 de Fevereiro de 2009 às 19:48
Deixa-me só comentar a foto... É uma levada na Madeira, certo?...

Beijos

Et j'aime beaucoup la musique :)


De Paola a 3 de Fevereiro de 2009 às 19:54
Quanto à foto não sei... Escolhia-a pela semelhança com os fetos da minha infância...

Esta canção é, para mim, divinal!!!!! Não conhecia.

Beijinhos


De Jorge Soares a 3 de Fevereiro de 2009 às 21:04
Ao contrario da vida, os fetos voltam sempre, cada primavera eles voltam... e de novo verdes, regados pela água da chuva, até que esta falte..... e o verde se torne amarelo seco... mas eles voltam.... a vida não.

Beijinho amiga
Jorge


De Paola a 3 de Fevereiro de 2009 às 21:09
Tens razão. Os fetos cumprem o ciclo... mas nunca são os mesmos. Nem sei se ainda existem na beira do canal... se sucumbiram à ira da construção. Os da janela, sei que não. Nem a janela... nem ela. Restam os afectos na minha memória.

Beijinhos


De GMV a 4 de Fevereiro de 2009 às 00:27
Hoje, também me bateu uma saudade imensa!!! Da minha Deusa. Que sintonia de memórias... a nossa.

Beijo imenso, querida Paola!


De Paola a 4 de Fevereiro de 2009 às 14:33
Porque tivemos... temos... e teremos na certeza que este futuro é presente enquanto podermos...

Beijo abraçado


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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