Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

escutar

 
 

 

Cheguei a casa cansada. Tirei os sapatos que me aperreavam os pés.  A sensação de alívio inundou-me o corpo que arremessei para o sofá. Embrulhei-me no silêncio da música que pus a tocar num volume moderado… À janela escancarada assomavam  murmúrios de vento. Da rua, chegavam-me alaridos vagabundos e descontinuados. Conversas nubladas. Percebi que esconjuravam o vento. Não queriam que  ele ralhasse com o céu.

 

O alvoroço, que parecia surgir do prédio em frente, levantou-me. Quatro ou cinco homens clamavam arrebatamentos na hipótese golo que não tinha sido. Demorei-me à janela, enquanto os meus olhos seguiam um cão que olhava vagarosamente. Sem se amedrontar com barulho do vento, nem com a música, o bicho vagueava, pela rua, alheio a todos os rumores. Desinteressado por todas as pessoas. Nem a algazarra do café, acabado o jogo de futebol que a televisão transmitira, lhe desencaminharam a intenção. Tudo parecia caber harmoniosamente na sua noção de normalidade. Não, não estranhou nada. Eu é que estranhei a independência do animal. Ali estava eu, observando-lhe os gestos. Tentando entender-lhe as passadas quase caladas. Encostou-se à parede, mesmo por baixo da minha janela, e esculpiu-se no passeio. A senhora, que mora no prédio, cruzou-se com ele. Disse-lhe não sei o quê. Apenas entendi vontades de o expulsar dali. Ele ignorou os insultos que ouviu no olhar da vizinha do número 14. Deve ter-lhe adivinhado o cansaço e desculpou-lhe a descortesia, pensei. Deitou-se enroscado na cauda. Arrumou a cabeça no cimo do amontoado de pêlo dourado e abraçou as patas.

 

O vento acalmara… Naquele momento, o único barulho audível era a música que continuava a tocar generosamente. E eu flutuei ao ritmo de coloridas sensações. Intraduzíveis. Quando voltei, o cão estava exactamente na mesma posição em que o tinha deixado. De vez em quando abria os olhos. O CD chegava ao fim… Eu invejava-lhe a tranquilidade. Ele olhou para a janela, desenrodilhou-se, desceu as orelhas e partiu. Assim como tinha chegado, silenciosamente.

 

Fechei a janela, corri os cortinados e sentei-me no sofá. Sorri. No dia seguinte voltaria, à mesma hora, a ouvir a mesma música... 

 

 

Hera

fotografia de Paola

 

 


15 comentários:
De Jorge Soares a 24 de Fevereiro de 2009 às 21:05
Um cão com bom gosto :-)

Belo texto
Beijinho amiga


Jorge


De Paola a 24 de Fevereiro de 2009 às 21:34
Há cães assim, amigo. Com gosto, amigos, doces...

Beijinhos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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