Segunda-feira, 9 de Março de 2009

espelhar

 alma lavada
 
 
 
 

A manhã espreguiça-se abraçada ao Sol, escutando aves melodiosas que solfejam trinados felizes. Loas primaveris espalham-se pela rua abaixo. Num quintal, um papagaio berra, desafinado, poleiros que não quer. As pessoas passam, como se os caminhos as ofendessem e as outras pessoas carregassem a culpa da pressa que têm. Algumas atrevessem-se a parar e sentar-se na esplanada para o café matinal, na ânsia de suicidar o vício acumulado ao longo dos anos.

 

Lá em baixo, o rio alonga-se no comprimento do meu olhar, languidamente. Sem alvoroços. Numa cinzenta moleza desconcertante. O rio não anda… não corre… Está exactamente no mesmo local onde ontem o deixei. Eu estranho que assim seja, porque um rio foi feito para correr. Agarre-se às margens, mas cumpra-se na missão de viagem imperfeita! Rompa pedras, imponha-se e nasça outra vez. E sonhe que um dia será grande. Maior que as pedras que o encolhem. Mostre-se ao mundo e ferva na força que esconde.

 

Lá em baixo, não é um rio que corre no cumprimento do meu sonhar. Eu  é que sou reflexo no espelho que é o rio… Volto para casa, na certeza de me ter destapado naquele plágio desfocado… com a alma molhada. Por tanto lhe implorar que seja o meu espelho. Quando me amarram os pés, eu só me quero ver no rio. Ou naquilo que corre como ele...

 

[imagem da internet]

 

 


4 comentários:
De Jorge Soares a 10 de Março de 2009 às 21:49
Os rios são assim amiga...preguiçosos.... diz o povo que eles correm... é mentira... passa o tempo e nem se mexeram.... ao contrario de nós.. que a vida não pára.

Beijinho
Jorge


De Paola a 10 de Março de 2009 às 21:57
Preguiçosos, sim! Só que às vezes irritam-se, levantam-se do leito e é um alvoroço... Outros são vida calada... Hoje, o rio que vejo aqui estava quietinho... cinzentão... Nem sei se não estava a preparar alguma...

Beijinho.


De GMV a 11 de Março de 2009 às 22:05
Querida Paola,

Conheço esse rio que te corre nas veias... respeito a tua vontade... e lembro-me, só porque as conversas são como as cerejas, das palavras do Outro:

"Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes."

[mas é tão difícil]

Beijos meus, hoje muitos, por tudo


De Paola a 11 de Março de 2009 às 22:29
E tanto, minha amiga, que eu queria passar silenciosamente... tanto!! Assim, como vi o rio lá em baixo... quieto e mudo... apenas espelhava vontades peadas...

Beijo abraçado.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagaos inocentes da decadencia.


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