Segunda-feira, 9 de Março de 2009

espelhar

 alma lavada
 
 
 
 

A manhã espreguiça-se abraçada ao Sol, escutando aves melodiosas que solfejam trinados felizes. Loas primaveris espalham-se pela rua abaixo. Num quintal, um papagaio berra, desafinado, poleiros que não quer. As pessoas passam, como se os caminhos as ofendessem e as outras pessoas carregassem a culpa da pressa que têm. Algumas atrevessem-se a parar e sentar-se na esplanada para o café matinal, na ânsia de suicidar o vício acumulado ao longo dos anos.

 

Lá em baixo, o rio alonga-se no comprimento do meu olhar, languidamente. Sem alvoroços. Numa cinzenta moleza desconcertante. O rio não anda… não corre… Está exactamente no mesmo local onde ontem o deixei. Eu estranho que assim seja, porque um rio foi feito para correr. Agarre-se às margens, mas cumpra-se na missão de viagem imperfeita! Rompa pedras, imponha-se e nasça outra vez. E sonhe que um dia será grande. Maior que as pedras que o encolhem. Mostre-se ao mundo e ferva na força que esconde.

 

Lá em baixo, não é um rio que corre no cumprimento do meu sonhar. Eu  é que sou reflexo no espelho que é o rio… Volto para casa, na certeza de me ter destapado naquele plágio desfocado… com a alma molhada. Por tanto lhe implorar que seja o meu espelho. Quando me amarram os pés, eu só me quero ver no rio. Ou naquilo que corre como ele...

 

[imagem da internet]

 

 


Escrito por Paola às 01:20
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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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