Segunda-feira, 23 de Março de 2009

des-formar

http://i192.photobucket.com/albums/z259/lightmylife/voar-1.jpgo acto de alterar 

de filha a mãe e ao contrário

 

 

 A Maria era uma menina. Um daqueles seres que transportava o mar nos olhos e a paz no coração. O corpo servia-lhe para saltar de pedrinha em pedrinha, depois de mergulhar nas águas do ribeiro da sua infância.

 

Naquele dia, Maria acordara cedo. A manhã acontecera no chilreio dos pardais que, sorrateiramente, se desagalhavam  dos beirais. Há tanto que a menina a esperava nas suas redacções primaveris! Apesar da ortografia, a Primavera chegou na alvura da manhã.

 

Maria levantou-se apressadamente. Tomou o pequeno-almoço despachadamente. E preparou-se para sair sorrateiramente… Não queria acordar os pais. Não por eles, mas por ela. Mal levantou os olhos da mesa, gritou. Tanta foi a perturbação que se ouviu no rio. À sua frente duas crianças disputavam o lugar à janela... empurravam-se… batiam-se… mordiam palavras encarniçadas… Maria ordenou-lhes que se calassem. Mostrou-lhes a imbecilidade do comportamento. Ameaçou-as com o chinelo. Com o quarto sem televisão. E estranhou-se… mais se desconheceu no exacto instante em que as desassossegadas criaturas lhe obedeceram… No vidro da cristaleira, viu-se mulher. Por isso, tornou a bradar. Uivou uma alcateia desvairada, na melhor imitação que alguém já conhecera. Embasbacada. Estarrecida. Aturdida. Beliscou-se, flagelou-se, lavou a cara, esfregou os olhos, saltou, pisou-se, engasgou-se com palavras do recreio da escola...Tinha-se, de facto, transfigurado numa mãe-mulher. Com dois filhos para cuidar, exactamente aqueles que a amamentaram. E não sabia a explicar a transformação!

 

Maria entristeceu repentinamente. Acabara de prometer a si própria que seria eternamente criança…  abraçar a vida com linhas rectas de abraços.Tudo mudara. E agora? Maria não encontrava respostas, até porque as deixou de procurar. Não fosse a morte encontrar, por tanto a desejar…

 

Maria estava aterrorizada e tão triste, a triste. Adulta? Assim, de um momento para o outro? Como foi possível? Não ouviu a resposta. Morreu de desilusão. Houve quem garantisse que não. E falava-se  numa enorme perda de ilusão.

   

 

[imagem da internet]


4 comentários:
De GMV a 24 de Março de 2009 às 01:13
Prometer que se é criança para sempre... [mas é tão difícil cumprir!]

E des.formar é sempre uma desilusão.

Beijo meu


De Paola a 24 de Março de 2009 às 01:24
Depende, minha amiga, da perspectiva. Somos crianças, sim. Sempre! Nos sonhos, nas crenças, nas gulodices... A Maria transformou-se, por necessidade. Assumiu o papel que era dos pais... agora crianças... Ele há coisas!!!

Des-formar, não é sempre desilusão... é apenas a forma que se altera... ou a f(ô)rma...

Beijo abraçado. Boa-noite...


De Nilson Barcelli a 24 de Março de 2009 às 18:43
Gostei do teu texto, mas não percebi como é que uma mãe pode ser amamentada pelos filhos...
Talvez eu esteja mesmo cansado...
Beijo.


De Paola a 24 de Março de 2009 às 19:31
Então é assim... por um fenómeno que não sei explicar, a mãe voltou a ser criança e a criança...mãe. Uma inversão de "estatuto" que, às vezes sabe bem. Com calculas a criança-adulta só podia morrer de desilusão... É que há adultos...

Boa semana, amigo
Beijo


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