Terça-feira, 31 de Março de 2009

cruzar

credo!

 

 

Hoje é o último dia de Março. Já decidi. Vou colocar-lhe uma cruz em cima. Sem me ater à perfeição do traço. Imperialmente, sem consentir que se afoite a cruzar a displicência das pernas. Ou das linhas que se passam na intersecção egocêntrica do movimento. Apetecem-me cruzes… Dispor em cruz caminhos pedregosos. Atravessar encruzilhadas de Deus e do Diabo, percorrer sentidos agrestes. Gemer silenciosas intercepções. Desenhar cruzes imperfeitas, efémeras. Preservar-me na parede mais próxima e dispor-me em forma de cruz, sem permitir cegas crucificações.

 

Ainda que seja o último dia de Março, data estrategicamente cruzada, calo a minha cruz. Quando a pronuncio, ela sabe-me a suplício, tortura, aflição, mortificação, sacrifício, tormento… Não gosto! Se a inscrevo numa insignificante casinha quadrada, chega-me um sabor indisposto, analfabeto. Por vezes, de tanto a ouvir, canso-me. E, como que por feitiçaria, desenha-se na minha folha em branco um vil instrumento de suplício. Tal e qual! Dois lenhos fixados perpendicularmente. Vejo os condenados que se agitam de braços abertos. Então fujo com a cruz na mão e coloco-a no último dia de Março. Cruzes! Há coisas que não lembram ao Diabo.

 

Mesmo que as cruzes se multipliquem, para imediatamente se arruinarem na incógnita incompreensão. Mesmo que as cruzes se juntem na mais estranha matemática… e até na volúpia da deusa. Mesmo que ela perca a cabeça... e só porque não gosto de desacautelados martírios, eu saio. Na filantropia da rua, acasalo amizades e intersecciono afagos tranquilos.

 

[Fotografia da Internet]

 


10 comentários:
De jabeiteslp a 31 de Março de 2009 às 21:24

eu já tinha notado esse teu lado
aquele MAÇÓNICO de descunjurado
lutador de trevas e ousadias tão dos nossos dias
aquele verbo por existir
que decerto em silencios e olhares vamos conseguir
ou vou riscando as pedras
roubaram-me a alma
mas do feitiço de alem trazido
imunizo-me no tempo
o meu melhor amigo...
por solidão...

poes-me os neuróneos a tilintar

beijinho da Covilhã
ááá, quando me adicionas ?


De Paola a 31 de Março de 2009 às 21:32
Nada disso... Mesmo nada. Apenas brinco com a "cena" que testemunhei no preenchimento de documentos... já ninguém se entendia se devia ou não colocar a cruz... Não sou dada a essas coisas, sou pela ciência!

Beijo


De jabeiteslp a 31 de Março de 2009 às 22:33
e a tilintar
http://rstriste.blogs.sapo.pt
não sei como actuar...
dás uma olhadela ?



De Jorge Soares a 31 de Março de 2009 às 23:28
Olá

Ando avessoa comentários.... as palavras teimam em não fazer sentido... uma cruz é o que é, eu que gosto tanto de dizer.... os pensamentos cruzam-se, as ideias riscam-se e no fim... palavras ocas...vazio....

Tudo isto para dizer... lá está... que gosto como cruzas as letras...

Beijinho
Jorge


De Paola a 31 de Março de 2009 às 23:34
Ai, amigo, que cruz carrego... hoje toda a gente passou o dia a colocar cruzinhas... Eu penso que as ideias não se deveriam riscar, antes cruzar... mas é isso que querem fazer... que fiquemos sem ideias... Mesmo "avesso" aos comentários até me entendeste...

Beijo de boa noite.


De GMV a 31 de Março de 2009 às 23:41
Só tu me farias rir, a esta hora, acabada de chegar de tantas cruzes mal colocadas e outras tantas que nem deviam existir!!!

Só tu o dirias de forma tão extraordinária. Fiquem os afagos, fiquem as boas conversas...

Beijo meu, querida Paola... [a cruz maior nasce amanhã às 8 :)]



De Paola a 1 de Abril de 2009 às 11:59
Imaginava que te ririas... chega a ser risível as cruzes que pomos e tiramos e voltamos a colocar, para depois se estranhar o efeito... Hoje, mais logo, vou voltar ao drama das cruzes... Coisas de deusa!

Beijo abraçado


De Anónimo reticências a 2 de Abril de 2009 às 20:53
Cruzes Canhoto! Também eu sou crucificada!


De Paola a 2 de Abril de 2009 às 21:31
Cruzes canhoto, digo eu que não sei quem me visitou... Mesmo asim, sejamuito bem-vindo!


De Paola a 6 de Abril de 2009 às 13:37
Agora que sei que és tu,"cruxificada" ainda é pouco... a deusa não sabe o que fazer a tanta cruz...

Beijos


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