Domingo, 19 de Abril de 2009

re-editar

o meu livro é da cor do azul-rio
 
 
Um dia, alguém me escreveu. Páginas e páginas de letras delineadas com emoção. Muitas ilustrações preparadas com mãos de sabedorias de bem-querer! Tantas paisagens em que eu me reinventava. Outras desenhadas só para mim. Predominava o azul do meu céu que vai do lado de cá até lá… E eu não sei em qual das margens o azul é mais estendido… o sol, esse brilha mais do lado de além… Onde os poemas conversavam pacatamente com a alegria da concertina… Onde a melancia se desventrava no deleite encarnado da abundância… Onde a batata era doce e se desfazia em cuidados ao calor do lume que crepitava na chaminé… e o café pululava na cafeteira de esmalte azul… A minha paisagem tem os sabores do lado de lá…
 
No sábado, reescrevi um capítulo do livro… de ruas e vielas. Aperfeiçoei algumas imagens já amareladas por tanto tempo sem ver… Unicamente eu as vi, porque só eu as posso ver. As que estão, não são as que eu desenhei… Ali mesmo, na praça pública, escrevi mais poemas… memorizei-os todos… para que os possa dizer de cor… ou não. Vou guardá-los no meu olhar…
 
Não! Não os vou parafrasear. Estou deslumbrada com as palavras que inventei... Oponho-me a dissecar poemas. Afasto a hipótese de humilhá-los com um esgravatar feito interrogatório de motivos, consequências e deduções… Não lhes quero engendrar vontades que já esqueci e que nem sei se desfrutei. Recuso intenções que ignoro, embora minhas, neste tempo que não é mais o outro… Se leio um poema, perco-me no sentir… e gosto. Quando não gosto viro a página… E neste livro comum, a que chamo vida minha, a poesia não quer leitor… até eu me confesso incompetente no meu analfabetismo funcional… Foi escrita sem motivo e não quer entendimento...
 
 
O livro, que me escreveu, pereceu às pegadas do tempo… e eu mais não sou do que um rascunho mal acabado… Regressei a casa, onde, na calada da noite, o vou re-editar... 
 

11 comentários:
De Rosa Maria a 20 de Abril de 2009 às 21:35
Deixaste os meus sentidos todos a pulular!


De Paola a 20 de Abril de 2009 às 21:46
... e isso é bom... Para que os queres?

Boa semana

Beijinhos


De jabeiteslp a 20 de Abril de 2009 às 23:03
e eu tambem fiquei assim
pulular
neste teu soberbo vaguear
mas
mas rascunho não
original sim e soberbo no coração

não me digas que não...

beijinhos
uma noite feliz


De Paola a 20 de Abril de 2009 às 23:17
Eu é que andei a matar saudades do meu rio e tu é que ficas a pulular?

Beijinhos
Boa semana


De jabeiteslp a 20 de Abril de 2009 às 23:32

estava na outra margem...

jocase


De Paola a 21 de Abril de 2009 às 12:25
E viste-me?

Bjo


De jabeiteslp a 21 de Abril de 2009 às 14:27

em pensamento
e no momento
que sempre que ao ler
se transformam em imagens de ver...

beijinhos


De GMV a 21 de Abril de 2009 às 00:31
Re-editar é sempre bom... sinónimo de que afinal havia mais "leitores" do que se esperava na primeira edição...

re-escrever... re-viver... re-ser... o continuar persistente, porque rascunho não!! [ e eu re-leio!]

Beijo meu, querida amiga sadina :)


De Paola a 21 de Abril de 2009 às 10:42
Sempre que lá vou, re-edito o meu viver... num re-ser continuado... re-escrevo-me afastada dos autores primeiros, receosa de os adulterar... o que foi já não é mais... mas o rio corre na sua sublime verdade...

Beijo abraçado



De Jorge Soares a 21 de Abril de 2009 às 11:08
A vida é um livro com muitas páginas.... por vezes é bom reler, por vezes até, re-editar... e porque não? reviver

Olhar para trás e refazer os passos perdidos não é reviver... mas recordar é viver... afinal, somos o que já vivemos.

Beijinho
Jorge




De Paola a 21 de Abril de 2009 às 11:26
... um livro que vamos desfolhando... lendo... relendo... rasgando páginas... acrescentando outras... umas saltamos porque não entendemos... com outras choramos de alegria... e lemos sempre... até ao fim. Olhar para trás e reviver... é viver... Eu vivi momentos lindos ao ouvir os meus passos de criança... a saída da escola... o caminho para casa... o bolo que comprava na padaria da esquina... Ouvi as conversas cúmplices que se teciam na infantilidade do percurso... e vi o outro lado... e vieram-me sabores que só eu sei... porque os tive... aí!

Beijinhos


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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