Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

clarear

o negro da noite dissipou nuvens assustadas

 

Mesmo que o preto não seja uma cor. Mesmo que carregue cicatrizes imperecíveis. Mesmo que faça na minha noite desenhos a carvão, eu quero-o. 
 
Por isso, desfechei todas as janelas. Quebrei os ferrolhos, rasguei os cortinados, estilhacei os vidros martelados de aflições… E de tanto as escancarar, a minha casa já só tinha janelas…
 
E da janela, que é a minha casa, o preto foi a cor que lá estava. Esplendorosa na delicadeza das estrelas. Feminina no rendilhado das feições … Contornos soberbos… Com grandes curvas, bem definidas e numa bênção celestial, descobriu os seios tão definidos… agora nus de uma folgada blusa preta com florinhas deslumbrantes.
 
E pela janela, que é a minha casa, eu vi aquele negrume tão belo… e num gesto irreflectido entreguei-me na condição da inteira ausência da dor… na certeza que o preto é tão-somente uma cor. Ali, naquele mesmo instante, na alegria da noite, o preto tornou-se numa das cores mais claras que já vi...
 
(imagem da internet)
 

Escrito por Paola às 23:47
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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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