Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Jacinta XIV

Os pássaros atravessam a estrada num passadiço aéreo
 
 
 
Estou louca! Louca! Rumorejava, despenhando-se no sofá. O persa dourado enroscou-se sobre o tapete vermelho. De quando em vez, abria os olhos para ter a certeza que ela estava ali. Descansaram numa compassada amálgama de concertos. Há muito que Jacinta adormecia encostada à almofada vermelha… Por vezes, dava-se ao trabalho de rastejar até ao quarto. Depressa concluíra que a arrumação não lhe garantia mais, nem melhor, sono.
 
Uma radiosa tranquilidade atravessava frouxamente a vidraça, clareando a sala. Doces murmúrios de vento beijavam-lhe o rosto ensonado. Num gesto de comovente entrega, Jacinta abraçou-os e abrigaram-se da aragem da manhã. Ela estremeceu na perturbação e deixou-se levar pelo sopro ameno. O gato não se importou, permanecendo na quente quietude do tapete vermelho. Se a espreitava, fazia-o para se assegurar que a sua amada dona sonhava que estava flutuando num imenso céu de azul-paixão.
 
Abriu os olhos e estremeceu. O seu corpo parecia-lhe percorrido por um calafrio ameaçado por sombras que não via. Por sonhos que já vivera. Sentada no sofá, as pernas abandonadamente cruzadas davam-lhe a certeza de ter duas, procurava a razão para que os sonhos que sonhou não fossem verdade. E engasgava-se nas respostas que não compareciam. Porquê eu… porquê a mim… E os pardais, que saltaricavam no telhado, chilreavam impressionados com a espessura da tristeza. Ali permaneceu, com a decisão nas mãos. Nos olhos, Jacinta carregava os destroços da batalha que travara até de madrugada, enquanto pelo rosto lhe escorriam hesitações ensanguentadas. Horas a observar o chão da contenda inundado em sangue, sem antever solução…
 
Tomou um duche arrebatado, vestiu-se numa elegância delicadamente fresca e fugiu para a rua. Assim, sem destino. Sem ninguém. Ela, o céu e a estrada… Assim, no silêncio dos carros, na ausência das luzes, no nada de varandas e prédios. E procurou as flores que se aninhavam ao colo da sombra das árvores… Com a agilidade plagiada por tantas vezes que o persa amarelado saltou para o parapeito da janela… No silêncio de brandas miadelas que ecoavam no empedrado, tropeçou na reflexão. Jacinta nunca entendera as palavras que o gato dirigia à Lua. Mas compreendera o motivo de tanto miar sempre que a via a brilhar.
 
Os passos levavam-na por ali. E ia, caminhava, corria sem saber exactamente o lugar. Não lhe importava o destino, porque já o conhecia. A estrada estendia-se em linha alinhada, numa ou outra curva mal desenhada. Subia e descia em movimentos tão discretos que ela não se importava. E corria sem conhecer o lugar. Apenas desejava uma estrada… longa… sem fim… para andar. Acontecer com o mesmo à vontade com que o fumo se alheia da labareda. Desbastando-se na confusão das formas.
 
Para trás estavam alguns minutos de passadas decididas. Agora havia a estrada… Jacinta fugia dos seus pensamentos, da mesma forma que o fazia dos raros motores que aceleravam por ali. Sem os passeios, ela seguia pela beira do alcatrão. O Sol já começava a pesar-lhe no corpo e ameaçava-lhe os pés empoleirados nuns saltos imprudentemente altos. Ao inferno escaldante que a esmagava, juntava-se o Sol que a começava a torturar. Inebriava-lhe a meditação. Aquecia-lhe as dores… e ela desorientava-se na assimetria do espaço. Amotinava-lhe a memória real e ela contemplava, no alcatrão, fotografias que a cegavam. E via as brechas que provocava no chão. Fendas e censuras que lhe esburacavam o alento.
 
Embrulhada em paisagens que não estavam ali, Jacinta passava. Insípida pela resolução que tomara, mas com a verdade que não poderia ter sido outra. Porque, considerava, tudo tinha um fim. E, para acautelar, a decomposição, deu-lhe uma morte adequada… mas doía-lhe tanto! Talvez já fossem duas horas. Talvez… Habitualmente, não usava relógio. Detestava que o tempo lhe estrangulasse o pulso e lhe atraiçoasse o tempo que era o seu.
 
De repente, num sereno voo tombado, um melro atravessou a estrada. Da negrura das penas, avançava um bico alaranjado. Do susto ao encantamento, foi um instante. Jacinta correu atrás dele e viu-o poisar num sobreiro preguiçoso do outro lado da barreira que acompanhava o asfalto. De um lado e outro, os montículos de terra livre coloriam-se com as cores das papoilas. As margaridas estendiam-se na indecisão entre ser brancas ou amarelas. Os cardos davam-se em alegres flores roxas no meio de multidões de azedas. As oliveiras e os sobreiros arranjavam-se do outro lado do declive. Um tapete perfumado estendia-se na irregularidade dos aromas. Ali, à beira da estrada. O melro. Depois uma poupa listrada. Um voo cortante. Apenas os insectos permaneciam no bailado arquitectado, sugando o néctar. E as cores. Jacinta deliciava-se com a exuberância da paisagem e pintava outras. Escutava trinados esvoaçantes…vozes que as aves não tinham.
 
Na desvairada perseguição, Jacinta atravessou a estrada…correu e perdeu-se no tempo que já não sabia de cor. Não viu, não ouviu o autocarro que circulava com destino e com hora marcada. Uma travagem traçada no alcatrão. As rodas dianteiras espezinhavam as papoilas… as outras desorientavam-se na valeta que há muito não recebia a visita do cantoneiro. O homem queixava-se que tinha por sua conta uma enormidade de quilómetros de estrada. Manter aquilo em bom estado parecia-lhe improvável. Um tipo não chegava para tudo. Talvez fosse por isso que se contentava com amanhos insignificantes. Sobretudo em alturas de fiscalização. Queria lá saber da erva daninha. Sozinho nunca conseguiria.
 
Abriu os olhos e ouviu o medo das vozes que se agitavam dentro da camioneta. O insulto e o pânico. O enxovalho e a dor. Jacinta, sentada na estrada, jazia agarrada ao aro do farol esquerdo do estupor que surgiu do outro lado da via. Sem se ter apercebido que os pássaros atravessam por cima. Sem reacção. Apavorada. Sem entender a razão pela qual as suas pernas estavam debaixo daquilo… e os sapatos lhe tinham desamparado os pés. Nem o motivo da ira do motorista que acabara de saltar lá de dentro. Esgazeado e a soletrar palavras que ela não entendia, por mais que arregalasse os olhos…
 
Ergueu-se num pinote alucinado. Atravessou a estrada, saltou a valeta e trepou a barreira. No outro lado, humilhou-se no meio do mar amarelo da tremocilha, virgulado por tranquilas línguas arroxeados de rosmaninho. Ignorou o cheiro a terra alvoraçada, a flores desabrochadas e a poeira levemente assustada pelo seu passar. Os sentidos murcharam tanto que desfaleceu. Foram os caules da desnectarada forrageira que se fizeram de cama.
 
- Senhora… senhora… senhora… está bem? Vou levá-la ao hospital… Senhora… Menina...
 
 
[imagem da internet]
 
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Escrito por Paola às 00:02
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