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ponto de admiração

ponto de admiração

16
Mai09

travar

Paola

[prefiro o silêncio à simulação do falar]

 

 

A avenida estendia-se na horizontal. Ondulava aqui e ali. Traições desnecessárias para quem anda sempre no passeio. No lado de cá.

 

Uma aceleração. Outro passado alargado à medida da pressa que não se via. Um grito de criança a reclamar o tempo. Horas que não lhe foram dadas para suicidar o sono que lhe atravancava a vontade. Travagens aflitas nas passadeiras movediças que conduziam para o lado de lá. Uma eufórica buzinadela cumprimentava caminheiros despreocupados. Acenos de fim-de-semana. Desejos expressos no empedrado. Uns subiam, outros desciam. Na ânsia de inventar um domingo que fosse outro dia. Talvez domingo.

 

Nos sacos, viajavam propícias pescarias. Restos de abates carniceiros. Pedaços de hortas e pomares despojados dos frutos. Raízes que tudo fariam para crescer no chão. Penduradas na terra. Trapos e farrapos roubados ao pregão. Carteiras gordas de tempo. E de mês. Bolorentas de esperança. Filas de alívios e dores. À porta da farmácia. A meio da avenida. Do lado de cá.

 

As bocas repetiam-se na mesma fome. Os corpos rezavam as mesmas pisadelas. As crianças brincavam, desinteressadas das nuvens que pressentiam a chuva que não acontecia. Ali, na avenida. Olhavam para cima, sempre que passava um avião. E ensaiavam a partida. Encetavam a fuga pelo ar. Na terra, a avenida prolongava-se no limite do interrogatório. Os carros chiavam travagens exaltadas. E as crianças insistiam em crescer na avenida. Tanto! O assunto da conversa não era outro. Aquele. De ontem a hoje.

 

No congestionamento da conversa, a dor alastrou. O corpo piorou. E o silêncio intentou a caminhada. De cá para lá. Pela avenida. Destravou!

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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