Sábado, 20 de Junho de 2009

jardinar [na saudade do carinho dela]

 

Setúbal

 

 

 

O jardim da minha mãe sabe a abraços. Caules enlaçados pelos dedos floridos da sua perseverança. Cheira a terra regada com o zelo matutino que a arranca da cama. Bem cedo, não vá o calor chegar. Teimosa, a minha mãe! Jura a pés juntos que as flores, que rega pela calada do Sol, falam. Que conversam muito. Tanto. Às vezes, dissertam sobre a problemática dos jardins suspensos na saudade. Os brincos-de-princesa aprumam-se nas orelhas do carinho. E escutam a voz quente dos pés enfiados nas chinelas de transbordar afagos madrugadores. Antes do Sol. Garantem as sardinheiras, que abundam em latas desalojadas, no entusiasmo do vermelho. No viço da singeleza de serem. Indeferem a fidalguia que desconhecem. Erguem-se na beleza de florirem à janela.

 

O jardim da minha mãe sabe a beijos nocturnos. Esvaídos em cuidados orgulhosos. Verde. Da cor dos fetos que correm a passos largos pela beira do canal. Resplendoroso. Da cor da presença puxada pela manhã. Eternamente na ilusão do verde.

 

A minha mãe não tem um jardim. Se tivesse, saberia à cor com que ela se pintou até desbotar. Ela não chegou a saber que o feto morreu. À janela…

 

 

 


10 comentários:
De Nilson Barcelli a 22 de Junho de 2009 às 20:06
A minha mãe também tinha um jardim parecido...
Mas ela nunca soube que eu disse que as flores são ignorantes.
O teu texto, para além da boa prosa (é magnífica), tocou-me.
Boa semana, beijo.


De Paola a 22 de Junho de 2009 às 22:59
Todas as mães têm um jardim de afectos [as outras não são mães]... é nesse jardim, hoje deserto, que me inebrio com o perfume de uma Flor...

Ai, a história das "flores ignorantes"... mesmo ignorando a razão do adjectivo, gostei... elas ignoram a efemeridade da sua beleza... ela não sabem o cheiro do seu perfume... elas desconhecem que quem as idolatra, pode ser quem lhes corta o caule... elas não sabem, nem sonham que são adorno.... Amigo, se não sabem, são ignorantes, não?

Beijo com carinho.


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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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