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ponto de admiração

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17
Out09

Singrar [na quilha dos amores naufragados]

Paola

 

Jorge Soares

 

 

Permite que me afogue no silêncio das vozes que escuto. De cores desbotadamente esgotadas nos passeios que dou ao domingo. O nevoeiro escondia o rio. Numa amálgama de beijos cobertos de desejo. Desejado, aquele momento. Os barcos sossegavam no rio. Na irritação das súbitas trevas. Escondiam-se os caminhos. Eu ainda não te amava. No amor doido que o rio acarinhou, quando à tardinha nos tocávamos nas dunas. E a areia fugia debaixo dos nossos corpos. E troçávamos. Dos rostos ajuizados estendidos em toalhas turcas. De padrões excessivos. Com brilhos duvidosos. E a Inês perguntava a razão. Porque nos mutilávamos num amor tão profundo. As nossas gargalhadas espalhavam a perenidade dos gestos. As ondas tranquilas do rio riam connosco. E rebolavam na areia.

 

O nevoeiro aferrolhava a outra margem. Pelas ruas, ouviam-se bafos de frio. O cinzento alastrava. Ouviam-se lamentos gelados. A manhã acordara assim. Apenas as árvores choravam a míngua do Sol. Tinha os pés de menina apavorados com o frio. Vamos. E eu ia. Havia que cumprir hábitos prescritos na lei dos pais. Não! Esgotei-me na negação que podia. Não! As lágrimas chegariam depois. Só em caso de necessidade. Ele cedia sempre. Saí da sapataria com uns sapatos novos. Tão frios como os que me trouxeram até ali. Castanhos. De verniz.

 

Na margem do rio, um barco. Barca, corrigiam. Azul. Levou-me para lá. Galgou chuvas e ventos. Trovões que se atravessaram no caminho. Entre o céu e o rio. O motor roncava forças que lhe pareciam falhar. Os homens vociferavam palavras negras. Não os entendia. Olhava os sapatos de oiro escuro. E orgulhava-me com a fivela que os ornava. O rio estendia-se num desatino cinzento-escuro. O céu desacertava-se na cor. Somente o barco singrava na senda do azul.

 

Ontem, meu amor, quando tornámos os dois, o azul era também do rio. E do céu. E, ainda hoje, me lembro do verde dos teus olhos. Sempre que me agasalho na abundância daquelas águas.

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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