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ponto de admiração

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25
Out09

correr [no serenar do rio]

Paola

 

fotografia de Jorge Soares

 

 

 

Lá em baixo, o rio corre na frustração de um cuidado. Um afecto pilhado nas margens desbainhadas. Mutilado. Desapertado num gesto que exige quatro braços. De tantos que ele tem. Não tem. Todos correm na esquina do vulto. Envolto nas luzes mortiças da cidade, o rio acontece. Num passo lento. No silêncio da noite que começa a ficar. Tão quieto na ira insurreição das águas. Tão longe daqui. Vai na inclinação de mim. Rente às claridades macilentas do lugar.

Há peixes no rio. Eu sei-os de cor sem lhes saber o nome. São peixes. Os pescadores estão a dormir. Porventura. Cansados de fainas inglórias. E que querias que houvesse no rio? A água está parada. Há sombras empoladas na minha pele. É tão tarde, já. E eu não sei o nome dos peixes. Nem dos pescadores. Uma ponte. Mais longe ainda. Brilha mais que o rio. No profissionalismo da sua competência, abraça as margens. Adama-se num beijo aguado. Os carros vão apressados. Não contemplam o rio. Esquecem as margens na fome da chegada. Apenas vão. E vêm. Na partilha de camadas de carregos.

Lá em baixo, está o rio. Uma ponte mais longe ainda. E há peixes que pastam restos do dia. Que se esgota no fogo que queima o horizonte. Eu olho a ponte no prolongamento do rio. Num abraço profundo entre o céu e a terra. 
Quando me ponho contemplar, vejo para além do rio... Os ecos que ele me entrega, sustentam a sede que alaga as margens que vejo daqui. Sempre que olho o rio, intervém uma distância chorada. Por isso, arrumo o horizonte no meu colo.
 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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