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ponto de admiração

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18
Nov09

Acender [nas tonalidades do inocente verde dos olhos de Beatriz]

Paola

Jorge Soares

 

 

 

 

Agora, para não confundir o dia com a noite, chega olhar. É tão evidente! Erguem-se os olhos famintos de carinhos. Se o azul sobressair, é dia. Se preto, é de noite. Cinzento, não sei. Fico-me na indefinição do tempo. Apago-me na beleza do momento. Contemplo. Se uma bola de fogo arder no horizonte, encolhe-se o olhar. Tolda-se a visão. Engrandece a incerteza. Mas se tantos pontos luminosos se atearem no alto, a crença da noite cresce. Às vezes, não sei. Não posso saber quantas estrelas há no céu. Pesa-me a cabeça. Dói-me o instante. Não os vejo. Na rua, as janelas omitem o brilho que outrora arremessavam para a calçada. As portas fecham-se no cansaço. E as cortinas encobrem a nudez dos corpos. Não há luz. Não vejo as horas.

 

Na pressa que se alonga na calçada, oiço gritos. São sustos. Peles arrepiadas que olham o cinzento do dia. De vez em quando, um afago. São alegrias. Meninos que descobrem o azul, naquela tarde imperfeita. Há dias, em que o Sol é tão infantil! Caminho num passo pensativo. Distante. Outro grito. Não ouvi. Um automóvel afadiga-se em gestos dados. Uma gargalhada canta. Na alegria de um abraço. No aconchego do colo.

 

No outro lado da rua, um pinheiro manso. Agasalha o corpo redondo no bico pardais. Chilreios de tempos frios. Saudosos do Sol que não há. E no cantarolar das aves, perdi-me no trinado de uns olhos esverdeados. E adiei uma lágrima que se calou no silêncio da mágoa que me escorria pelo rosto. Sem me dar conta que pardais não dizem assim.

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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