Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

matar

de Paola (Gincho, Cascais)

 

não é preciso

 

Mato moscas. As que penetram sem autorização. E mato mosquitos. Todinhos, que são bicho ruim. E mato a sede. Sempre que posso. Normalmente com água que é coisa boa. Mesmo que a inodora, insípida e incolor seja uma miragem. Mas gosto tanto das garrafinhas com tampas multicores. Comprei-as por reconhecer que até ficam bem no frigorífico. Amarelas e com formas. E falam comigo. Dizem… É segredo. Não explico, não vá alguém querer também. E mato os aranhiços. Só que fico cheia de hesitações. Mato? Não mato? Mato! Mas dizem que é dinheiro… E tanta falta que ele me faz. Em vez do pobre aranhão, devia era matar o bicho. O outro. O da manhã. Não tenho tempo!! O tempo? Todos os dias. E por mim matava-o todo. Talvez assim vivesse mais uns dias. Só que o danado não deixa. E foge. Voa. Não que se enlate em fluidos que facultam asas. Pelo que sei, nem bebe. Ou bebe? Se calhar eu é que não sei. E enfia-se nos relógios que tenho. É por estas, e por outras evidentemente, que deixei de dar corda ao relógio da sala. Calculo que o matei. Paciência! Não era vida para mim. Sempre a badalar. Porque era hora. Por fim metade só. Azucrinava-me os ouvidos com o quarto dela. Agora que o calei, sinto saudade. Pobrezinho! Aquilo não se faz. Só o matei, nada mais. E mato a fome, com certeza. E quem não mata? Antes ela do que eu. Todos os dias. Não tenho é tempo. Devo dar corda ao relógio? Não dou! Não preciso dele para comer. Já me basta a barriga a dar horas. Ufa! Matar, matar… Só mato a saudade. Desato acorrer e vou lá. Pronto! Já está. O pior mesmo é os que já morreram . Lembro-me deles. Afago-os com minha memória e peço-lhes que não esperem por mim. Às vezes choro. Outras mato-me a chorar. E lá vou eu trabalhar. Outra morte certa. Há quem se mate a actuar. Eu só fico moribunda. Que sensata que eu sou! Mentira! Há dias que morro, só que ressuscito. Ele não ressuscitou? Então eu também posso. Atenção, que também já morri de amor. Mas isso foi muito bom. Agora só gosto. Muito! Deles. E é admirável. E mato-me a rir. Só quando a deliberação esguicha cá de dentro. De fora não dá. Choro e tudo. Atitude sem sentido, aquilo nem é um funeral. Juro que não estrangulei o casamento. Ele é que morreu. Estava lá e vi. Outro dia, torturei não sei quantos, pedaços de mim. Irritei-me. Guerra de eus. Empertigados e ruins. Todos com opinião. A querer decisão. Já chega o outro, que se desdisse em pessoa. Ele foi capaz. Matar o desgraçado do vício é premente. Só que há uns que não mato. Nem que morra por causa deles. Outros, deixo-os definhar. Não me importo. Nunca matei uma galinha. Coitadinha, degoladinha! E mais não matei. Ou já me esqueci? Ou não quero dizer? Não me lembro.

 

Com tanta coisa para matar, há que esganar o cão do vizinho? Ou o vizinho. Ou a vida. Não concordo! Não! Mas não é por isso que me vou matar. Pode-se sempre dar cabo do stress. É palavra estranha e não deita pinga de sangue!

 


Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

calar

Salvador Dalí  A persistência da Memória

 

atropelos sem memória

 

Shiu! Da minha boca jorram descansos hesitantes. Usurpados e clandestinos. Dos meus lábios não escorrem palavras azedas e desconfiadas. Shiu! Oiço uivos de gente assustada. Melopeias atrapalhadas na toada dos caminhos. Andamentos vertiginosos. Shiu! E lá ao fundo, um pássaro executa primorosamente o adágio da manhã. Engulo a tentação de respirar. E do pátio regressam vozes aflautadas. Euforias guinchadas. Abraços perplexos. Bocas escancaradas vertem pedaços de mar e de sol. De ócios enérgicos. E olhos suspensos colam-se às janelas. Shiu! Escuto portas aferrolhadas que se desfecham.  Chaves que tilintam cuidados de última hora. Sorvo ânsias de falar. Segredo salvações, no intervalo, empoleiradas ao portão. Shiu! As vozes passeiam felinas no corredor. Atropelos cinzentos, mesclados de cores do Verão. Desenham-se escoltas no parapeito da janela. Shiuuuuuuu! Estou oculta. Ninguém sabe que estou acantonada, ali! Não quero ser tela surrealista. Representação irracional, longe do mundo real. Shiu! Vejo e escuto. Obsessões humanas donde escorre a passagem do tempo e da memória. Da memória que se esgota. Do tempo que tem olhos. Não sei se vê. Shiu! Estou refém de mim. Aqui! Com recordações. Sem elas, não há expectativas. Porém, o tempo desvirtua-se. E cala-se, também. Flacidamente. Como os relógios. Shiu! Estou sentada. Shiu!

 

Fotografia da Internet

 


Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

avelhar

de Paola (Guincho, Cascais)

 

palavras com rugas e artrite reumatóide

 

A televisão está ligada desde cedo. As notícias divulgam-se ao ritmo das teclas do comando. A publicidade seduz pelo brilho e pela cor. As músicas são tão bonitas, comenta frequentemente. Não sabe nenhuma. Nem sequer é capaz de dar conta das novidades do país. Muito menos do estrangeiro. Não lhe interessam. Só quer a televisão ligada. Por causa do programa das receitas. Todos os dias uma. Que imaginação! Mas ela há muito que não cozinhava. As senhoras do Lar cuidavam do assunto. Por causa da companhia. E o aparelho cumpria a sua função. Falava. Cantava. Dançava. Representava. E até batia palmas. Só que ela não via. Bastava-lhe ouvir… Por vezes, adormecia no sofá. Todas as tardes dormita um pouco. No intervalo do sono que não chega de uma vez só.

 

Sentados no sofá falam palavras que não se olham nos olhos. Frases a granel. Vocábulos cansados por tantas vezes repetidos. Com pertinência. Sem nexo. Também sem necessidade. Sobretudo sem vontade. Nem sempre entendidos. E que interessava isso, se o importante é falar? Ambos desejam aquela sala povoada por vozes que falem palavras. Mesmo que as não percebem. Preferem o televisor. Porque fala e não os aborrece. Não têm que lhe responder. E não entendem que esteja sempre a falar de idosos deprimidos. Eles sabem que o envelhecimento corresponde aos danos da passagem do tempo. No entanto, recusam depressões caladas. Pelo menos, enquanto se amparam um ao outro. E é naquele canto da sala, em frente do ecrã, que emitem palavras ocas e vãs. Uma espécie de feira falante sobre temas mundanos. Com rifas que nenhum compra, não vá sair-lhe um termo que não quer ouvir. Não se queixam da solidão. Porém, gostam de se ouvir, apesar de já não se entenderem. Dos 55 anos de vida em comum, sobra-lhes a condescendência. A partilha do mesmo espaço. Há muito que não se agastam com disputas estéreis. Nem com outras. Decidiram não se cansar e amealhar o tempo que lhes resta. E as palavras. Proferem as indispensáveis. Silenciam desejos escondidos. Intenções ocultas. Amansam decisões que as senhoras do Lar não validam. Nem a neta que não está para os aturar. A Ritinha é uma menina. Eternamente menina. A deles. É neta, é para ser cuidada, amada e saboreada. E para estragar com mimos. Terreno arável onde semeiam amor, afecto, meiguice. Apenas coisas boas.

 

- Avóóóóóóóóó?

- Entra, querida!

- ya!

- Conta lá, como foi o teu dia na escola?

- Fixe! Tasse bem. Tenho muitos amigos. E conversamos muito. Assim tipo falar mesmo, sabes?

- Ai, filha!?

- Prontos, tão bem? A gente estamos. A cota deu-me uns trocos. Vou morfar cuns amigos.

- Ai, filha!?

- Xelente! Tão tão giros! Tão fixes! Tou tão contente. Vó, tou mesmo super, mega fixe.

- Ai, filha!

- Prontos! Só vim dar um kiss. Agora vou bazar.

- Ai, filha!

- Tchau. Jinhos. Amanhã volto.

 

Olham um para o outro, com a cumplicidade que os olhos contêm. Ele pergunta o que a neta tinha dito. Quando voltaria. E quis saber se a rapariga estava bem. Ela não respondeu. Não sabia. Mas que estava muito feliz com a visita. Afinal, a moça sempre tinha falado e aquela casa necessitava de palavras. E, outra vez, tal e qual como nas outras vezes, o silêncio interpõe-se entre ambos. Porque as palavras estão gastas. Raladas pela vida. Olham para a televisão. Mas não vêem que está a passar o programa das receitas.

 

Ele pensa. E ela percebe. Que as palavras têm vida. Que fazem um percurso e têm um curso como as pessoas. Que nascem e morrem. Que imitam e são imitadas. Que crescem. E até ressuscitam. E o vocabulário deles é muito parco. Sem neologismos. Nem tão pouco estrangeirismos. Nem percebem nada de registos de língua. Mas já tinham ouvido falar… na televisão. E a avó acaricia a neta. Que é nova. Que agora fala-se assim. O avô assume-se velho e lamenta que as suas palavras tenham envelhecido com ele. Que tenham rugas e sofram de artrite reumatóide. Que algumas até morram. O homem levanta-se e informa que vai dormir. Que repousasse bem e não se inquietasse, deseja a esposa dedicada. É que todos os dias nascem palavras jovens. Para contrabalançar, acrescentou. Já ele tinha fechado a porta do quarto.

 


Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

nascer

de Paola (Ericeira)

Nasceu ele e tu mais eu. E mais os outros. E nascemos todos os dias. Para renascer no dia seguinte. E depois no outro que não há tempo para perder. E se o houver é intrujice. Porque alguém ousou atrasar o relógio que geme na parede rebocada da sala. Sangrando ao sabor de negras horas. Celebrando porque há instantes ditosos. Desumano, todo aquele que se afoita a apressar os ponteiros. As horas correm aceleradas. Para a frente e para trás. Excessivas. E a saudade surge limpando os rostos, sempre que o passado e o futuro se amotinam no presente.

 

- E quem se atreveu a controlar um tempo que sou eu?

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Fala! Só quero um nome. Depressa não há tempo para desbaratar!

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Como ousas desafiar-me? Diz-me quem te moveu!

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Teimoso! Não vês que os ponteiros nem precisos são?

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Burro! Confundes tudo. O relógio não é o tempo. Tu não nasceste assim. Evoluis, mas não mudas. Eu sou. Eles crêem que me controlam através de ti. Que nascer é o mesmo que viver.

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Eu sou o tempo, não percebeste? Eu vivo em cima das árvores que me escondem e protegem. Há gente ruim que persegue o meu final. Tu és um adorno, eu sou o princípio e o fim.

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Desgraçado! Cego e manipulado! Eu perduro para além de ti. Tu vendes-te por aí. Eu vivo ao sabor do Sol e das marés. Tu és um tic-tac constante que eu silencio. Tu emperras na ausência de mim. Marcas lembranças e utopias. Invenções. Desejos que se agasalham no vão das horas. Compromissos impostos com hora de entrada e de saída. Com hora de almoço medida e contada.

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

- Imbecil enfeite! Tu mostras o que eu quero que digas. Tu és a minha boca. O meu corpo. Eu sou eu. Tu és acessório figurante. Eu sou essencial. Nasci primeiro. Eu sou assim!

- Não sei! Não digo! E o tempo não é teu!

 

E o tempo, farto de tanta teimosia repetida, abalou. E pensou em D. Quixote. E naquela mulher que, um dia destes, encontrou no autocarro. Que se queixava de não ter tempo para nada. Que jurava que o relógio andava sempre adiantado. Que as 24 horas estavam falsificadas. Que trabalhava que se fartava. E era duro o trabalho que fazia. Mas, rematava ela que “quem nasce lagartixa não chega a jacaré". Pois não. Às vezes chega. Se tiver tempo. E é exactamente por essa razão que um relógio nunca chegará a tempo.

 

Já na rua, sorri. E gargalhei. Ao mesmo tempo que as minhas mãos retorciam a corda do relógio. Com entusiasmo. Com impiedade. E fui-me embora convencida que havia roubado o tempo…

 

 


Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

segredar

de João Palmela (Arrábida, Setúbal)

 

Se eu pudesse, descobria um caminho só para mim. Um trilho para a ilha deserta que há ali. A ninguém diria o caminho. Depois, construiria um castelo para ouvir o mar. Era um segredo que de todos calaria, porque o silêncio é escasso por aqui. Apenas para mim e muito belo.

À sua volta estariam plantas, flores e árvores com ninhos de alegria. A ninguém diria. Acessos sinuosos, ruas labirínticas, carreiros muito estreitos, silêncios canoros bastantes para os amantes. E nós faríamos amor todas as manhãs. Como o mar e a areia. E o Sol. Vendava-te os olhos, enrolava-te na minha paixão, dava-te a mão... O caminho? Não to diria, não!

E os outros, se assim entendessem,  apregoariam a minha morte. O meu naufrágio. E eu, ávida e esfomeada, viveria a êxtase da  beleza. De uma terra que é minha. De uma serra que é mãe.

 


Domingo, 14 de Setembro de 2008

esperançar

Admirarmo-nos é bom. Melhor, se sentimentos contentes. Alegres e bem-dispostos. Mesmo que estranhezas. Há sempre as boas e as más, já se sabe. E quando a compreensão acaba, porque objectiva, surge a dmiração! Todavia, a boca abre-se espantada perante factos que não nos escapam à razão. E não é admiração. Não!

 

Admirado com o que há para aí, o anterozóide desenha e diz. E ri.

 

© Antero Valério

 

 

E eu encontro motivos para continuar, ainda, mais admirada. Mas tenho esperança!

 

 

 


Sábado, 13 de Setembro de 2008

arranhar

olhos que observam segredos do tempo

fotografia de JS

 

Empoleirado no parapeito da varanda, ele olha. Olhos arregalados de ver. Melífluos e condescendentes. Confusos e incrédulos. Mas doces e expectantes, os olhos. Olhos com as cores da avelã, serenos e tranquilos à espera do Sol que nasce todas as manhã...  - Janelas minhas, para onde estão a olhar? Ver é melhor! Não se distraiam que o descuido é traidor e acarreta a dor. Ver para crer é querer ir mais além e dizer - dói ver - adeus, acabou! Olhos que vêem, ponte aberta entre mim e o resto. E se o resto carrega segredos do tempo?

 

Empoleirado no parapeito da varanda, ele olha. Passos apressados e vergados ao medo. Incursões por atalhos vedados. Sem cautela, sem cuidado. Mãos desajeitadas a escrever o que as bocas não sabem dizer. E dizem. Ele ouve desacertos que circulam no passeio. E escuta empurrões e atropelamentos no caminho. – Janelas minhas, para onde estão a olhar? Ver é melhor! Não se iludam que o deserto tem miragens. E o oásis é traiçoeiro. Ver para crer e saber – dói saber – adeus, findou! Olhos que vêm, janela aberta entre mim e o resto. E se o resto amontoa passados lembrados?

 

Empoleirado no parapeito da varanda, ele olha. - Apenas olho...Mas nada vejo. Não quero ver. E que me interessa se há males que eu não entendo? E se as arranhadelas não são as minhas?

 

E porque hoje é sábado, saio muito de mansinho, não vá o bichano notar. Depois, corro e abalo. E lá em baixo, como arroz-doce. Admirável. Branco-deleite e amarelo-enfeitado. À mesa, servem-se palavras, afectos e arranhões. E mimos. Depois, vi o mar. Admiravelmente mar. Azul-pouco se comparado com os olhos que sorriram para mim pela manhã. Zangado e sedutor. De olhar e ver. Mais além do que os olhos podem avistar. Empoleirados no desconsolo de ver que o gato esgatanha os tapetes. Defeca pela casa. E eriça o pêlo. Comportamentos arrebatados de quem gasta tanto tempo à janela.

 


Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

desengonçar

de Jorge Soares

 

ela que se desenrasque

 

Falar é, sem dúvida, um acto admirável. As palavras extasiam-se. E crescem e morrem. Gargalham e choram. Dizem que sim. Às vezes que não. E tudo é mais complicado quando a dúvida se instala. Por palavras ditas. Outras escritas. Numa balbúrdia algaraviada E o instante é apenas um momento em que o silêncio se impõe. Numa frívola circunstância de conferir estrondo aos vocábulos. Na estéril falsificação do linguajar de Babel. A algazarra resulta de vozes acrescentadas na ânsia de dizer mais. De ser mais. Como se a exuberância da elocução fosse o mesmo que comunicar. E falar mais alto auxiliasse a leitura na biblioteca. As palavras caiem dos livros e escrevem poemas. E histórias de amor. Sem recear que a Torre não suporte o alarido. E a multiplicação das línguas é um castigo merecido. Ao céu chega-se na solidariedade plurilingue. No desvelo das línguas todas. Com a individualidade do vocabulário quotidiano. Com o léxico da língua que é mãe. A unicidade linguística conduz a despotismos anacrónicos. A excentricidades babilónicas. A sintaxes hiperbólicas. E as palavras dizem mais quando se calam e escutam.

A mulher opinava, no autocarro. Falava das comodidades de tempos que ela não compreendia bem. Que no dela não era assim. E a apologia de passados enterrados arquitectava-se na vaidade de os ter vivido. Hoje, não há dificuldades. Está tudo à mão. Não há esforço, sabe? Pergunta de quem carrega nas mãos vestígios da dureza da escalada. E que não custava nada ir a pé. Que agora só querem andar de carro. E afiançava que as vezes que foi escola, fê-lo a pé. Horas para cá e para lá. E que sabia escrever o nome. E agora, que quer esta gente nova? Luxo! E empregava as palavras que sabia. Mesmo que excessivamente populares. Registos de língua com elevada falta de assiduidade. Numa sintaxe liberta de peias gramaticais impostas por normas codificadas. No entanto, magnificamente mesclados com toadas alentejanas. E naqueles termos soantes, eu vi compassos e ritmos entoados. Melodias com sombra. Harmonias simples dos cantares alentejanos. Vi corpos balançados em cadências langorosas, porém ouvidos em espaços abertos e largos. Em montes pintados de azul e amarelo. E  de branco abundante.

 

- A escola fechou. Já viu? As despesas… os transportes… Que maçada!

- Ora, agora há transportes com fartura. Eu ia a pé. Se eu não fosse, o meu pai chegava-me a roupa ao pêlo…

- Isso era dantes. Hoje, felizmente, as coisas já não são assim!

- Olhe, sabe o que lhe digo? Ela que se desengonce. Eu cá desengoncei-me.

 

E desengonçar chegou-me estranho. Mas gostei e saboreei a paragoge. Ai, tantos is! Admirável língua que se desengonça na dissemelhança genuína dos seus falantes. Para se dizer uma.

 

 

 


Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

nascer

meninos para o futebol

Sempre tive para mim que nascer é um verbo admirável. Só nascer. Às vezes renascer. Mas poucas, porque não acredito nessas coisas. Entre o nascer e o morrer está a vida. Que é um percurso. Curto, sempre. Quando longo é insuficiente, porque a morte chega sempre adiantada.

 

Nasce o Sol. Nasci eu. Nascem as papoilas no campo. E na pernada do sobreiro há um ninho. Estou a ouvir os passarinhos. Nascem palavras das discussões. E são demais. Dizem o que querem. Arrependem-se depois. E nascem romances grandiosos. E poemas. Por vezes, nascem amizades sublimes. Para a vida. Também na morte. E de estremecimentos transpirados. De indecisões contidas nascem viçosas cartas de afectos declarados. Quem sabe se também nasce o amor. E dos casulos nascem as borboletas. Bichos-da-seda que só pensam em comer e comer. Nas amoreiras as folhas nascem verdes e as amoras negras. E da rota da seda nascem histórias e lendas. Verdades e mentiras. E riquezas. E se tudo acontece deste modo, está bem assim. Certo é, certo está. Nascem desejos no corpo e arrependimentos nas mãos. Na boca nascem palavras de emoção. No canteiro do jardim, nascem rosas amarelas. E alfazemas disfarçadas de alecrim. Um ribeirinho nasceu ali. Tão pequenino. E corre, corre, corre. E já muito extenuado enlaçou-se no rio e, os dois, correram até lá chegar. E, deste modo, nasceu o mar.

 

Nascem homens e mulheres. Nasce a esperança. E há muitos anos nasceu o Menino Jesus. Fez-se homem. E nasceu a crença. E nasceram atritos. E injustiças e guerras. Eu nasci tranquilamente no convento. Que nasceu hospital. Numa terra que nasceu azul. Por causa do rio que se despejou no mar. Depois saí. E nasci assim.

 

A natalidade é desgosto tremendo. As aves perdem as árvores. Queimadas. Coibidas no jardim. As flores não olham para os montes e vales. A paisagem é urbana. Naturalmente! E os meninos e meninas não têm espaço para aparecer. E o país lamenta o que tem. Que em vez de nascer, envelhecem e morrem a seguir.

 

E fiquei a saber o verdadeiro drama da carência. Disse na televisão que é fonte credível. Com imagem e som. A cores. Garantia a senhora que isto agora é uma maçada. Que já não se fazem meninos como antigamente. Que as consequências são avassaladoras, acrescentava. Muito versada no assunto. É que sem meninos, os jogadores de futebol acabam.

 

E percebi que o meu clube não pode fazer milgares. E é forçado a procurar jogadores no lado de lá. E acolá. E viva la Espanha! A senhora fez a sua parte? Eu fiz a minha. Dois rapazes. Apenas errei nos nomes. Ninguém nasce perfeito!

 

Fotografia de João Palmela

 


Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

motivar

de Paola (Vila Nona de Milfontes)

 

motivação extrínseca

 

No domingo, confessei a minha desmotivação. Aqui, em público. E só isso. Referia-me à intrínseca. Aquele tipo de vontade que nasce de dentro e nos inunda o corpo e a alma. Um estado interior que acicata, conduz e mantém a intenção de funcionar. Uma tendência natural comum a quem gosta, e sempre gostou, de fazer o que faz. Que foi escolha sua. Hoje, confirmo tudo o que disse. Detesto ter sempre razão. Ou quase...

 

Resta-me a outra. Que jeito me dá. A extrínseca. Consta que exterior. Entusiasmos inventados, alicerçados, sabe-se lá em quê. Mesmo assim, sempre é motivação. Melhor que nada. A indiferença não. Que corrói e dói. Até serve uma tentativa de evitar punições. Que seja! Encorajamentos não há. Ou até por causa do clima. Não o climatérico, que está bem assim. Controlar o stress que é coisa ruim A minha expectativa é que também contribua para reduzir os nefastos triglicéridos. É esta que vou querer para mim. Hei-de encontrar fundamentos. Não nas pessoas grandes que não querem dar o braço a torcer. Falam palavras que eu não entendo. Ou não quero reproduzir. E muito menos traduzir. Antes nos pequenos. Jogam jogos de jogar e não de estragar. Para eles irá toda a minha motivação.

 

Tenho para mim que, no ensino, ambas as motivações são importantes. Por isso, escolhi uma. Sem fantasias estatísticas. Sem desejos assanhados de ascender ao céu. É que, por causa da minha fobia, não gosto de alturas.

 

 

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...