Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

esgaravatar

de Paola, galinheiro

 

Esgravatar é um verbo necessário. Se não o fosse, nem existiria. Essa coisa de se pensar que não fica bem e tal, não se justifica. Que esgaravatar é próprio das galinhas, não me convence. Os pobres galináceos têm objectivos individuais a perseguir. Por isso, a passam o dia a esgravatar e a comer tudo o que encontram. Quer se trate de minhocas, sementes e frutos e migalhas. Não me parece nada bem é que se contentem com migalhas. Paciência, isso é com elas. Até o galo esgravata. E é um senhor! Canta é muito melhor, logo pela manhã.

 

Esgaravatei para nascer, e que trabalhão dei à minha rica mãezinha, continuei pela vida fora, que já vai longa, e continuo a fazê-lo. Mas não sou galinha. Apesar de cacarejar de vez em quando.

 

Esgravato para remexer a terra. E que perfume ela tem! Para atiçar o lume. Com tenaz, que não me quero queimar. Às vezes queimo. Esgaravato nas gavetas. Só quando não me lembro onde enfiei as meias pretas. As outras sei, porque nem as comprei.

 

Esgaravato o fundo do tacho. Sabe tão bem! E esgaravato perguntas e respostas para mim. Também para eles. E gosto tanto! E esgaravatar confunde-se com saber e aprender. Pesquisar e perguntar. Solucionar e responder. Pensar e relacionar. Ai, que prazer! Esgaravatar nos livros. Bicar as palavras. Debicar as frases e transportá-las no bico para mais tarde saborear. E esgaravatar soluções. Esgaravato porque não sei. Porque vivo e canto incertezas.

 

Esgravatar soa a arcaísmo. A estrangeirismo. Ai, o que é isso, professora. Que palavra tão ruim. Deixe lá! Já ninguém fala assim. Eu continuei a esgravatar naquelas cabecitas nuas de vocabulário. Despidas de empenho linguístico. Se as galinhas é que esgaravatam, a metáfora e a conotação são de nula importância. E concluem que a denotação é que sim. O dicionário faz a decifração. Sem bem entender que o problema não está no verbo, porém na acção.

 

É minha convicção que, cada vez mais, se esgaravata menos. Ou já se compra feito e empacotado, de preferência numa lata com abertura fácil, ou não resulta. É que esgaravatar dá mesmo trabalho. Outro verbo que eles não gostam de praticar. Nem, como as galinhas, esgaravatam para comer. Apenas porque não têm fome de saber. 

No que me diz respeito, vou continuar a esgaravatar ou esgravatar que dá no mesmo. Sobretudo por mim. Só porque gosto de lhes dizer que decorar não é sinónimo de esgaravatar. E que se deve esgravatar todos os dias.

 


Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

ensacar

azeitoninhas

 

                          Paola

 

 

O léxico mostra-se nas palavras. Todas as que a nossa língua tem. E tem tantas que não caberiam num saco. E dessas, muitas são as minhas e as tuas também. Vocabulário rico ou pobre. Diversificado ou repetitivo. Parco, brada a Andreia. Gostou da palavra, que não constava do seu magro vocabulário, mas que descobriu num texto lido na aula.

 

Um saco enorme, dizia eu. Mas roto, afiançava o Miguel. O rapaz lá explicava que a bolsa do léxico necessitava de ter a boca aberta e as asas arredadas uma da outra. A surpresa instalou-se nos olhos de quem defendia a tese do saco fechado. Assim como os sacos para lixo em rolo, em alta e baixa densidade, resistentes e estanques. Práticos e fáceis de abrir. Impenetrável! Garantiam. O Miguel escutou. E afirmou ter a certeza que o saco lexical tem portas e janelas. Umas vezes fechadas outras entreabertas. Às vezes, mas raramente, fechadas. E o pobre do rapaz ia perdendo o fôlego com tanta oposição. Teimoso na sua certeza, enfrentou a multidão e perguntou se entrava alguma coisa para um saco atado. Não! Responderam de imediato. Aí está, concluía o pequeno, então o saco tem que estar aberto para que novas palavras possam entrar. Ah!!! Pois é. Entram os neologismos, os estrangeirismos… Ai, professora, tantos ismos. Atenção que os arcaísmos não saem. Ficam por lá… abandonados. E há quem troce deles, o que é coisa ruim.

Professora, conduto é um arcaísmo? Não! É aquilo que se come habitualmente com o pão... Eu sei, profesora! Mas é um arcaísmo ou não? É que a minha avó está sempre a falar no conduto, professora. Apenas para algumas pessoas... para outras não. Vamos falar de regionalismos, vamos? Mais um ismo!!!! Lá por mor disso falemos de popular!

 

E falámos. Só que não lhes contei das saudades que tenho de comer pão alentejano, do verdadeiro comprado na venda, sem conduto. Facto que punha a minha avó materna em alvoroço. Então, a rapariga não quer toicinho com o pão? Nem água-mel?
Ainda, hoje, me recordo como um naco de pão alentejano me fazia entoar lindas canções, garanto que Deus não me deu voz para cantar, e como o conduto não tinha importância nenhuma. Nem a minha avó se ralava com regionalismos ou popularismos linguísticos. O que ela queria era que eu fosse feliz. Que comesse muito. E que engordasse também.

 

Mas o que eu gosto mesmo é de pão com azeitonas. Que era o conduto preferido da minha avó materna. Tudo em alentejano. E lamento que os meninos de agora já não saibam o que é conduto. Falam em mortadela, fiambre, creme de chocolate, compotas, sem saber que  pão com manteiga não é uma opção saudável. 

 

Professora, então o saco das palavras tem que estar sempre aberto, não é?

 

 

 


Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

pensar

de Paola (Guincho, Cascais)

 

O que é pensar. Como fazê-lo? E procurei razões que suportassem o acto. Avaliei os custos, já que, nos tempos que correm, é questão determinante. Pagam-me para pensar? Eu sei a resposta, mas enfim… Interroguei-me sobre a indispensabilidade do gesto. É mesmo preciso atormentar o cérebro com reflexões sofisticadas? Tentei perceber os tempos e os espaços. Quando? Devo pensar todos os dias? Há dias consagrados à razão? Não creio ser essencial pensar em todo o lado. Nem correcto. Só traria aborrecimentos. As pessoas a conversar disto e daquilo e eu a pensar. Não resultaria. Posteriormente, encetei outro tipo de raciocínio. E a dúvida instalou-se. Pensar sozinha não me levará a lado nenhum. É muito aborrecido. Mas pensar não é, como nascer e morrer, um acto individual? Não, não estou a pensar bem. Até são dois momentos da vida muito partilhados. Um para rir outro para chorar. No colectivo. Pensar acompanhada envolve alguma promiscuidade. Usurpa intimidade. Nem tudo o que passa pela cabeça é dizível. Antes uno e intransmissível. Penso eu! E como actuar? Em voz alta? No mais clandestino silêncio? Digo ou não digo o que estou a pensar? E o que estou a pensar será mesmo pensar? E acredito que o que estou a pensar  não interesse a ninguém.

 

Pensar humano é. É? Então, pensamos todos. Sim! E ele, como é que pensa? Olha para o poema. E depois? Finge-se escritor ou contenta-se em ser autor? Talvez não e apenas seja um pensador… que pensou em voz alta. Ou o outro. Fernando Pessoa cogitou. Tanto que se multiplicou. Facto que em nada me ajudou. Continuo sem saber o que é pensar. Vou experimentar pensar por conta própria. Talvez resulte. Não dá! Preciso de alguém. De alguma coisa. Dos pensamentos dos outros. E não é honesto. É? Só que não tenho alternativa.

 

Pensar é conhecer. Julgar e raciocinar. E também comparar, compreender e saber. E não é evoluir, engendrar, sentir, criar, construir e destruir? Se assim for, exige esforço. Tanto trabalho é excessivo. Nem sei se sou capaz. Às vezes não sou. Mas não desisto de pensar que um aluno, que tenha as soluções preparadas e definitivas, não será capaz de resolver problemas do dia-a-dia. Nem tomar decisões importantes. Tão pouco pensar. Sozinho ou acompanhado. Mas pensar cansa, por isso não gosta. Não está treinado para pular e saltar. Sem parar. Não está disposto a dar uma oportunidade à solução.

 

Talvez seja por tudo isto, ou exactamente por nada disto, que o Simão estendeu os olhos pela sala. Depois olhou para mim.

 

- Professora, desista… Não é melhor dar já a resposta?

 

Já estava cansado. E eu também. Porque pensar dá trabalho. Então, eu dei!

 

 


Domingo, 14 de Setembro de 2008

esperançar

Admirarmo-nos é bom. Melhor, se sentimentos contentes. Alegres e bem-dispostos. Mesmo que estranhezas. Há sempre as boas e as más, já se sabe. E quando a compreensão acaba, porque objectiva, surge a dmiração! Todavia, a boca abre-se espantada perante factos que não nos escapam à razão. E não é admiração. Não!

 

Admirado com o que há para aí, o anterozóide desenha e diz. E ri.

 

© Antero Valério

 

 

E eu encontro motivos para continuar, ainda, mais admirada. Mas tenho esperança!

 

 

 


Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

motivar

de Paola (Vila Nona de Milfontes)

 

motivação extrínseca

 

No domingo, confessei a minha desmotivação. Aqui, em público. E só isso. Referia-me à intrínseca. Aquele tipo de vontade que nasce de dentro e nos inunda o corpo e a alma. Um estado interior que acicata, conduz e mantém a intenção de funcionar. Uma tendência natural comum a quem gosta, e sempre gostou, de fazer o que faz. Que foi escolha sua. Hoje, confirmo tudo o que disse. Detesto ter sempre razão. Ou quase...

 

Resta-me a outra. Que jeito me dá. A extrínseca. Consta que exterior. Entusiasmos inventados, alicerçados, sabe-se lá em quê. Mesmo assim, sempre é motivação. Melhor que nada. A indiferença não. Que corrói e dói. Até serve uma tentativa de evitar punições. Que seja! Encorajamentos não há. Ou até por causa do clima. Não o climatérico, que está bem assim. Controlar o stress que é coisa ruim A minha expectativa é que também contribua para reduzir os nefastos triglicéridos. É esta que vou querer para mim. Hei-de encontrar fundamentos. Não nas pessoas grandes que não querem dar o braço a torcer. Falam palavras que eu não entendo. Ou não quero reproduzir. E muito menos traduzir. Antes nos pequenos. Jogam jogos de jogar e não de estragar. Para eles irá toda a minha motivação.

 

Tenho para mim que, no ensino, ambas as motivações são importantes. Por isso, escolhi uma. Sem fantasias estatísticas. Sem desejos assanhados de ascender ao céu. É que, por causa da minha fobia, não gosto de alturas.

 

 

 


Domingo, 7 de Setembro de 2008

comunicar

 

 

Meus Senhores, Minhas Senhoras, Meninos e Meninas. Leitores.

 

Amigos e Amigas.

 

Família.

 

Hera.


É aqui, exactamente aqui, que comunico que estou  desmotivada. Doença súbita e não infecto-contagiosa. Microrganismo desconhecido no corpo humano. Se mais disserem de mim é mentira. Deturpações conjecturais. Propaganda política. E eu estou a falar de resultados. E tudo vai ser feito de acordo com os prazos que estão estipulados. Do modo que está definido. Talvez pior, não? Só é preciso cultura profissional. E é com tranquilidade que os professores fazem o seu trabalho. Não os desviem da sua missão principal.

 

Nada mais tenho a comunicar. Agradeço a vossa atenção.

 

Boa-tarde a todos.

 

 

  © Antero Valério

 

 Nota - Não há tempo para as habituais perguntas dos Senhores Jornalistas. É domingo!

 

 

Fotografia da Internet


Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

retornar

  "Pequenos contos numa prosa feita poesia e simplicidade. Páginas em que os gatos se passeiam a partilhar encantos e mistérios, só para apreciadores."

 

pegadas do retorno

 

 

- 09 horas e 50 minutos

 

Café. Sempre admirável. Mais dois dedos de conversa. Da treta, claro. Mas atenua males maiores. Deformação profissional. Antigamente, regressava-se descansado e feliz. Hoje, é notícia de televisão, uma nova praga doentia: depressão pós-férias. O retorno preenche-se com ansiedade, distúrbios de sono, fraqueza física e moral, hipersecreção das glândulas sebáceas e mal-estar generalizado.Ai que novidade!

 

- 10 horas e 10  minutos

 

Cemitério. Funeral. Mais um abraço de solidariedade. Uma lágrima de cumplicidade. Tudo por causa de um pai que partiu. O meu foi-se embora em Janeiro. E eu acho que os pais deviam estar quietos.

 

- 11 horas e 30 minutos

 

Escola. Beijos bronzeados com sabor a Agosto. Beijoroquei esta e aquela. E eles. Apesar de escassos. Poupei alguns beijinhos. Os que ficaram na terra das cruzes.

 

Retorno. 10 cêntimos. E um papel minúsculo. Escrevi o meu nome completo. Porque não sabiam como chamar-me, certamente. Agora que sabem, tudo será mais acolhedor. E o nome da escola. Parece-me bem. Tantas vezes a baptizaram que devem andar desorientados. Fiz o que podia. E a data. Para que servirão os calendários? Um  em cada secretária! De seguida, deparei-me com mais uma linha para preencher. Motivo? Motivo de quê? Perguntei, não fosse o meu contributo importar. Do retorno! Explicaram. E não é óbvio? É de lei, não? Pois! Escreva só "férias". Férias??!! Eu escrevi, mas juro que não entendi. Então a razão de eu ir trabalhar são as férias? Pronto. Que seja! Há férias assim. Garanto que prefiro as de ir.

 

Tarefas. Não as vi. Pareceu-me que ainda andam enroladas na areia. No placar jazem papéis fora do prazo. Não faço planos. Que pena!

 

Regresso. Amanhã, talvez. Para quê? Logo se vê. Admirável. E como eu não vi nada, não sei quando volto. Amanhã, talvez.

 

- 11 horas e 59 minutos

 

Estação dos comboios. Veio um e eu fui com ele. O T faz anos e fui almoçar com pequeno. O resto não conto. Coisas pessoais. De família. Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim?

 

Compras. Um livro. Isto posso revelar.  Amados Gatos de José Jorge Letria. É que há sempre um gato por detrás de um grande nome. E eu ainda estou para aqui a matutar na história do meu retorno... e ali, não haverá gato?

 

E tudo isto é o fado cá da terra. E um enorme ponto de admiração!

 

 


Sábado, 30 de Agosto de 2008

adormecer

  regresso à escola ou

 

 vidas, pecados e saltos mortais

 

É sábado, eu sei. Amarelo e estreito. E depois? Um dia a seguir ao outro. E o outro é sexta-feira. E depois? Se a contagem é decrescente. E o ano tem nome. Não é Juliano, não. Nem sequer Gregoriano. Tem nome que não digo. Há muito que a maravilha é a Lua. Também o Sol. Ainda mais o encadeado dos dias e das noites. E a Lua tem fases. E a minha não é boa. Mirra-lhe o brilho que já teve. Definharam as vontades. Adormeceram as intenções. O tempo é insuficiente para recitar o ciclo das estações. E agora é Inverno. Neva no beco sem ali. O Sol desfez as lendas, abriu fendas. Está frio. Tenho frio!

É sábado. A semana tem sete dias. E o sete é um número de mistérios. Significados e simbologias. E sete são os dias da semana. E depois? Se o sétimo dia é sábado. E sete são os pecados mortais. Inveja, Gula, Soberba, Vaidade… perece o último sábado de Agosto. Eu sei. É sábado. E depois?

O sete é símbolo da perfeição. E que importa se é uma ilusão? Se o mês acaba aqui. Amanhã é Setembro e eu já nem me lembro de um dia assim. Desconsolado e pardacento. E como o gato tem sete vidas, quando só de uma necessita, duas serão para mim. Fico com três. Exactamente a conta que Deus fez. Para morrer e ressuscitar a seguir e voltar a morrer quando calhar a minha vez. É sábado, eu sei. E depois? Se é o último e as inquietações chegarão mais do que sete. Por isso, não comi, como de costume, o admirável arroz-doce da dona Perpétua. Porque segunda-feira não é dia gulodices. E a gula é um dos sete pecados mortais. 

Segunda-feira é a introdução. O ponto de partida da história e a apresentação das personagens. O desenvolvimento vem a seguir. A intriga e muitas peripécias. E o clímax chega de mansinho. A conclusão? Só quando tudo estiver bem resolvido. O desenlace? Narrativa aberta. Com algumas fendas. Prometo não invocar o santo nome de Deus em vão. Sempre que possível e se o engenho e a arte me coadjuvarem. E santificarei os domingos, certamente. Os sábados  que os antecedem. E todas feriados e dias santos. Todos!

Porém, não me obriguem a guardar castidade nos pensamentos e desejos. Desacordos e insatisfações. Não posso! Nem serei capaz. Mas vou pedir que me contem uma história de pensar. Com os Sete Anões. A Branca de  Neve mais o Príncipe. E o beijo. Mas sem a madrasta rainha. Para não ter que fugir a sete pés. Não posso. E a minha intimidade como os laboriosos pequenotes conta-se no livro que recebi num Natal, em Dezembro.

 

 

[imagem da Internet]

 


Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

desatinar

 e quando a fuga não resulta?

 

Correr. Fugir. Apressar o passo. Fugir. E de nada querer saber. Fugir. Quem ficar que fique. Não me afecta. Ou então que corra também. Mas o trajecto é uma encruzilhada. Os quatros caminhos desapertam-se sob os meus pés. Obstinados. Um para cada lado e eu sem saber para onde ir. Porém, quero. E atordoado com o meu desejo desenfreado maldizem comigo. Segue em frente. Não sou capaz… Continua. Agora vira à esquerda. Não é por aí. Força. Tu és capaz. Vira agora à direita. Nem penses. Não quero, já disse. Então decide-te! Se eu pudesse. Contorna a rotunda. Para quê? A circular ando eu e não saio daqui. E eles também. Que nunca estão quietos. Nem tu! Mas eu quero abalar. Olha a rotunda. Contorna-a! Outra vez!? Uma recta, não há? Um caminho amplo e arejado. Aberto. Com luz. Sem curvas por causa dos acidentes... Quero andar, andar até alcançar o horizonte. Nunca ninguém agarrou o Sol, mas o horizonte senhores! Anda-se devagarinho para não tropeçar. E os sonhos estão mesmo ali. Só assim acredito que a estrada tenha fim. Eu quero errar por aí. Porque aqui já não me deixam. E os carros gritam estupidamente descontentamentos que a vida lhes dá. Na encruzilhada dos quatro caminhos. Cruzes canhoto! E eu não sou supersticiosa. Não fujas à regra. Elas existem também para ti. E há circulares. Vai em frente. Desce as escadas. Mais uma sugestão desatinada. Meu Deus! Eu tenho vertigens. Eu ajudo… Tu és um traidor. Não confio em ti. Desiludiste-me. Queres que eu caia? Olha que eu vou… Eu sou capaz. Eu desço, mas depois subo e volto para trás.

 

fotografia de Paola


Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

desligar

o paradoxo de quem manda

 ou isto ou aquilo

 

 

Admiráveis e difíceis, as escolhas. Ou isto ou aquilo. Talvez o outro. Não sei. Escolhas… E a conjunção separa e desliga. Quero lá saber se a coordenação implica método e ordem. E se a relação não é hierárquica. A subordinação impõe domínios. Instala obediências subalternas. Não importa se a relação é gramatical quando a disjunção se impõe. Pedidos e opções. Optar implica preterir. Obriga a escolher e às vezes não se quer. Ou não se pode. E as alternativas são escassas. Como escolher entre um gato preto e outro branco se não quero nenhum? O preto dá azar e o branco é sorte que não tenho. E os gatos felinos são. Prefiro um cão.Todavia, decidir nem sempre é fácil. Nã pode se há pessoas. Se existem humanidades. E as pessoas não são chinelos de enfiar no dedo. As decisões tomam-se de manhã. Depois do pequeno-almoço. Antes não, que a opção de acordar cedo nem sempre é bem aceite. O corpo que não teve tempo para dormir o que tinha direito. Escolhas da vida. Sem opção, a maioria delas.

 

Por vezes, faço contas e jogo na antecipação. E ponho-me à janela a adivinhar o que vem para aí. Nem sempre consigo. Não vejo nada por causa do nevoeiro. Mas tento. O que não me agrada mesmo é que escolham por mim. Que me atribuam vontades que não tenho. Não sei, sinto-o como um insulto.

 

O pedido é fácil. Pedir só aceita duas possibilidades que se dizem nos minúsculos advérbios de negação e afirmação. Não e sim. Talvez aqui não serve. Que instaura a possibilidade. A dúvida é terrível. Prefiro contornos bem definidos. Já basta a metódica, mas isso é assunto que  aduba o conhecimento. Pedir é solicitar alguma coisa a alguém. Ou dá ou não dá. E a conversa que fique por ali. Não há outra hipótese. Por vezes até nos pedem para pedir. Insistem muito. E por escrito é melhor. Registe-se a pretensão. Depois não abençoam a coisa. E tecem comentários jocosos. Talvez insultuosos. E é nesse instante que a minha capacidade de entendimento se consome e falece. A minha vontade também. E tudo é tão fácil. Basta dizer que não. Ou então, não terem pedido para pedir… Por que me pedem para pedir se não querem que o faça? Ou não querem dar. E decidir o que eu quero?Assim como assim, não tenho escolha possível. Quem manda pode sempre. Só não gosto que decidam por mim, já disse. Mas podem mandar. Eu obedeço.

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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