Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

esconder [na tona da vã calmaria]

Ericeira

O mar olha-me e sorri… e fala, fala… na repetição do seu cálido marulhar. Fundeio, no refúgio de sargaços escarlate, palavras à tona, frases que não flutuam. E ouço um grande ponto de incerteza no fundo da pontuação.

 

Em terra, os meus dedos são braços de polvo na faina das redes, enquanto no mar, está tudo tão sereno na película da superfície …

 

 


Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

insultar [na teimosa valentia de saber a verdade]

 

Ericeira, Paola

 

 

 

Num inusitado desacerto mundano, eles puseram-se a conversar. Um jurava que a Lua estava a brilhar. O outro, no mais benevolente insulto, logo detectou o erro. Garantiu que o Sol é que se notabilizava assim. Que uma coisa era o luar e outra a luz solar. Tão desiguais, como o dia era da noite. E que não percebia o equívoco. Ele ouviu a admoestação. Que não estavam a ver o mesmo. Aí estava o engano. Era a noite que ele via. Nem entendia os fundamentos para importunar a noite. Se o outro o dia sentia, problema o dele. Enrolaram-se pela parede esquinada para disfarçar o embaraço. Na esquina do dia, procuravam a resposta. E discutiam, discutiam. Tanto, que se reencontraram no outro lado da rua. À esquina. A enviesada conversa continuou na afabilidade do desacordo, desatando a discorrer qual seria. Qual seria. Não se entenderam, os rapazes, na tamanha desarmonia. Nenhum prescindiu da sua razão, esgotados os argumentos.

 

Ele desceu a ladeira, porque tinha a certeza que aquele era o seu caminho. E desceu. No umbral da porta, virou-se para baixo e viu o Sol. Chorou. Soube naquele instante que o seu fulgor intenso lesões graves.

 

Ele subiu a loutra adeira, porque estava certo que aquela casa era a sua. E subiu. Na ombreira da porta, olhou para o alto e viu a Lua. Sorriu. Sabia, agora, o que é um erro de perspectiva.

 

 

 


Terça-feira, 30 de Junho de 2009

fluir [como o tempo que se engasga com as lágrimas na voz]

 

Ericeira, Paola

 

O rio está na obliqualidade da paciência da paisagem. E cuido que aquilo que contemplo não é certamente o que sucede. E penso que o rio, que aponto, existe para alcançar o mar. Que a água corre veloz. Como o tempo que se engasga nos seixos do leito deste rio. Eu é que não sei fluir naturalmente, na continuidade do meu caudal. Por desconhecer onde posso desembocar. Não me sei na sintaxe do açude que sossega a água na obediência das regras. No desconhecimento da nascente sôfrega do rio. No desagradecimento das areias receosas do mar.

 

E é na incapacidade de entender o rio que os olhos espargem lágrimas de noites alarmadas pelo silêncio do mar. Na contaminação das águas doces e salgadas. No plácido e celeste rio que irriga a perplexidade do meu olhar.

 

 

 


Sábado, 27 de Junho de 2009

comer [migalhas que desabaram no chão]

 

Cascais

 

Desamparada, a mesa saboreia restos de tudo. Sorve, em inquietos copos do nada, sobras de vinhos espumantes. Deleita-se nos corpos distantes, remotamente saciados. Farta-se com os arautos de migalhas que se viram para o chão.

 

Satisfaz-se nas sobras de nós. No dia em que não chegámos.

 

 


Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

contar [no resto das sombras]

 
 
- Somos nós três. Na rota do Sol…
- Dois. Eu não conto…
- Eu vejo três. Um… dois… três!
- Não vês!! Mas crês?
- Sim! Um… dois… três…

- Conta outra vez. Apenas o que vês.

- Já o fiz. A conta está certa. Três!

- Amigos, a sombra não conta…
- Sou eu!      
- Não! Não! Descortês!
- Amigo, a sombra não amedronta…
- A do medo sim…
- Vocês?
- Da periferia do mundo.
- Da ausência da luz.

- Eu estou aqui. Dentro de mim. O exterior não conta!


 
 

 


Terça-feira, 23 de Junho de 2009

ver [para lá do caminho que há no mar]

 

 

Quando me sento nesta pedra, começo a olhar. E é assim que vejo que já é manhã. Mas, ao longe, não vejo tudo…

 

 

 


Sábado, 20 de Junho de 2009

jardinar [na saudade do carinho dela]

 

Setúbal

 

 

 

O jardim da minha mãe sabe a abraços. Caules enlaçados pelos dedos floridos da sua perseverança. Cheira a terra regada com o zelo matutino que a arranca da cama. Bem cedo, não vá o calor chegar. Teimosa, a minha mãe! Jura a pés juntos que as flores, que rega pela calada do Sol, falam. Que conversam muito. Tanto. Às vezes, dissertam sobre a problemática dos jardins suspensos na saudade. Os brincos-de-princesa aprumam-se nas orelhas do carinho. E escutam a voz quente dos pés enfiados nas chinelas de transbordar afagos madrugadores. Antes do Sol. Garantem as sardinheiras, que abundam em latas desalojadas, no entusiasmo do vermelho. No viço da singeleza de serem. Indeferem a fidalguia que desconhecem. Erguem-se na beleza de florirem à janela.

 

O jardim da minha mãe sabe a beijos nocturnos. Esvaídos em cuidados orgulhosos. Verde. Da cor dos fetos que correm a passos largos pela beira do canal. Resplendoroso. Da cor da presença puxada pela manhã. Eternamente na ilusão do verde.

 

A minha mãe não tem um jardim. Se tivesse, saberia à cor com que ela se pintou até desbotar. Ela não chegou a saber que o feto morreu. À janela…

 

 

 


Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Pairar [no negro espanto das andorinhas]

 

aguarela de jeroomady

 

 

 

 

Olho e vejo as andorinhas transtornadas. Vieram na ânsia da chegada. Largaram frios abafos e procuram abrigos quentes. O pão e um ninho de afectos.

 

Chegaram. Pelo bico largavam o espanto da sua voz deliciosa. As asas pranteavam o luto. O ardil das penas. E voavam insurreições cambaleadas. Círculos espavoridos.

 

As andorinhas vieram pela estrada do tempo. Pela calçada. E não  se conformam que lhes tenham devastado os ninhos.

 


Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

estranhar [na passagem das nuvens augadas]

da internet
 
 
 

Ele estava ali. Na verdade, estranhei. Calado e amargurado. Bravio na agressividade que amansava com os dedos irritados pela insatisfação. De vez em quando, espreitava por cima dos exasperados pardais enxovalhados nos beirais dos telhados.

 

Ali, estava ele. Estupidamente sombrio. As nuvens. Uma a uma, ele as contava. E descontava-lhes as figuras depravadas que mostravam. Descobria-lhes assíncronas vontades. Nos olhos, destapei-lhe as arritmias lascivas que teimavam em ripostar.

 

Naquela tarde, eu tinha que o deixar descarregar nas nuvens. Permitir que as atingisse na loucura que ousavam. Nas indecências que escreviam. Assim, num bilhete ardente de cinzentos imprudentes. Comprazer-se na indecência de as esmurrar. Pela leviandade dos baixos vícios. Pela grosseria das fagulhas que troavam gemidos espavoridos. Tinha! Mesmo que, na extemporânea trovoada da perversão, as nuvens ficassem.

 

Naquela tarde, não deixei! As nuvens não tinham culpa de carregar projécteis impacientes por outros ventos. De não saber cair inteiras. E ele sangrou. Para não se magoar. E chegou lá com os pés no chão. Então, reparou nos pedacinhos de azul que esperavam um poema favorável. E sorriu. Com gentileza.

 

 


Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

cantar [o sabor das asas no telhado]

 

fotografia de  Gabriel Gonzalez

 

 

 

 

Em cima do telhado, restolhavam trinados amarelos. A manhã trauteava réstias de Sol, com uns brincos de oiro pendurados nas orelhas. Os rubis refulgiam vermelhos incendiados. E ele esvoaçava de uma telha para a outra. Pulando como quem expulsa medos. Para, abundantemente, conservar a paixão. E cantava. O pássaro desafiava regozijos alegres. De uma telha para a outra. Sem ousar saltar para o outro lado da estrada. E olhava. De seguida, cantava. Ornatos musicais. Andamentos em sol maior.
 
Por baixo do telhado, um som. Música tónica e robusta. Martelo ritmado no aconchego das tábuas. Uma serra serrava. Ia e vinha, num vaivém semeado. E voltava ao princípio. Corrigindo imperfeições. Ouvia-se o gesto que martelava descontentamentos. Queixumes de satisafeitas canseiras. Da boca escorriam suores admirados. E as mãos amaciavam obras liquefeitas. Pressentia-se o ardor dos dedos que lavravam a madeira, na recusa da cola. Bebia-se o consolo de evitar os pregos. O carpinteiro sabia. E não queria rachaduras que fragilizassem a construção. Persistia. Na roda da água. Que bebia por baixo do telhado. No silêncio que brilhava quando o carrossel girava. E o pássaro gorjeava que o homem parara. Simplesmente contemplava.
 
Do outro lado da rua, um pássaro voava... Edificou um ninho no beiral inclinado da confiança e adormeceu a ler o poema. Então, cantou.
 
 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

pontos recentes

Eu moro aqui [na cave do ...

mudança das horas [persis...

vender [necrologia do ard...

rebuçado para a tosse [di...

Jacinta XV [no baile de e...

subir [o caminho inclinad...

fechar [na gaiola da vida...

estender [a esperança na ...

ceifar [a vida daninha na...

tecer [amor ao ritmo do p...

esconder [na tona da vã c...

insultar [na teimosa vale...

fluir [como o tempo que s...

comer [migalhas que desab...

contar [no resto das somb...

RSS

outros pontos

Admiro-me... só por olhar!

Pesquisar neste blog

 

Abril 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SAPO Blogs

últimos comentários

A "fonte" é dada a narrativas extraordinárias...
Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
Por vezes, é assim...
Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...