Domingo, 7 de Setembro de 2008

comunicar

 

 

Meus Senhores, Minhas Senhoras, Meninos e Meninas. Leitores.

 

Amigos e Amigas.

 

Família.

 

Hera.


É aqui, exactamente aqui, que comunico que estou  desmotivada. Doença súbita e não infecto-contagiosa. Microrganismo desconhecido no corpo humano. Se mais disserem de mim é mentira. Deturpações conjecturais. Propaganda política. E eu estou a falar de resultados. E tudo vai ser feito de acordo com os prazos que estão estipulados. Do modo que está definido. Talvez pior, não? Só é preciso cultura profissional. E é com tranquilidade que os professores fazem o seu trabalho. Não os desviem da sua missão principal.

 

Nada mais tenho a comunicar. Agradeço a vossa atenção.

 

Boa-tarde a todos.

 

 

  © Antero Valério

 

 Nota - Não há tempo para as habituais perguntas dos Senhores Jornalistas. É domingo!

 

 

Fotografia da Internet


Sábado, 6 de Setembro de 2008

nomear

Ideiafixa - nome impróprio para cães

 

Os verbos constituem uma classe de palavras. Talvez a mais desinquieta. Porque desempenho. Vocábulos mandões. Déspotas das vontades cada vez mais encurtadas. Afectuosos nos prazeres que se vão inventando. Raramente. E aparecem com os tempos todos. O que só dá confusão. Ontem comunicaram que sim. Hoje logo se vê. Amanhã é outro dia. Anacrónicas irresoluções. E quando não têm que fazer, inventam. Se eu fosse um animal seria uma girafa. Mas não sou. Nem tenho pernas para correr. E a hipótese é uma certeza. E já fartos de tanto danar, unem-se para semear a ordem. E mandam. Muito. E às vezes não se percebem as ordenanças. Dizem-se imperadores de domínios já extintos. E mandam. E volta o reino dos novos imperadores. E Júlio César, que não era aparvoado, usou a força em seu favor. A queda não demorou. Diz-se que por falta de escravos para uso de mão-de-obra em todo o império. Se não fosse o imperativo nada disto teria acontecido. Nem teríamos Astérix e Obélix.  E pior do que tudo, Idéfix. E numa cilada bem ajeitada, os verbos aliam-se aos pronomes. Os pessoais. Eu decreto. Tu fazes.  E nós? Também não somos gente? Eles dizem que sim. Mas que isso não tem importância nenhuma. Que já era assim no tempo dos imperadores. E há-de continuar a ser. Afirmações convictas de quem pode. E refilam alguns que assim não pode ser. Era só o que faltava. Em vez de agir, só se reage. O melhor é mesmo obedecer, alertam outros. E que se Júlio César criou o ano bissexto é porque precisava de mais um dia para despachar.

 

E neste sábado cinzento de final de Verão, o Inverno ensombra o céu. As nuvens ganham contornos indecifráveis. Os rumores amplificam-se. A multidão carrega medos e desconsolos. Por isso, não vê que  a Primavera chega a seguir. Mesmo que veja, não crê. Corrompe-se o sonho. Como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso. E espero. Mesmo que tudo acinzentem.

 

Porque comer é um verbo, comi o arroz-doce do sábado. Na Dona Perpétua que não percebe nada de verbos, nem de tempos verbais. E não tem cão. Mas se tivesse, ela mandava e ele obedecia. Com toda a certeza!

 

E se eu tiver que chamar Asterisco e Obelisco, chamarei. Nada direi, apesar de  convicta que o respeito pela verdade já tem outra avaliação. E reafirmarei que Astérix e Obélix é que está bem. Baixinho. Para ninguém ouvir. 

 

 


Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

mandar

 eu não mando

 

Aqui, no meu ponto de admiração, digo verdades. Digo mentiras. Ambas ficciono. Invento e reinvento. Aqui finjo ambas. E é nesta incerteza que gosto de estar. Porque eu conheço-as! Entre a verdade-máscara e a mentira-verdadeira. Um jogo duplo. Que as palavras me deixam jogar. Ou não. Admiro-me com o sim e com o não.

Com o pôr-do-sol. E o perfume das flores. A emoção chega com as gargalhadas puras e sonoras dos meninos. Com o Sol a acariciar o mar. E só com o mar. Admiro-me com todos os sentidos. Por isso, choro com as desgraças que por aí há. Praguejo com as que me inventam. Porque a vida é assim. Abraça-me umas vezes, chicoteia-me outras. E eu, às vezes, não a percebo. E chego à conclusão que ela me plagia. Que mente e diz certezas. Que fantasia. Provavelmente, terá um blogue com o mesmo título que o meu. Um dia, hei-de encontrar o endereço. Só que sabe mais palavras do que eu. Para dizer os sentimentos todos. Eu nem sempre sei.

 

Hoje, somem-se as palavras que eu demando. Esgota-se a intenção de jogar e fingir que estou a mentir. Ou não. Não me apetece redigir invenções de mim. Não sei palavras que me exprimam. E creio que estou a maltratar o não. Um triste advérbio de dizer não. Porque não quero. Mas eu não decreto, que fique claro.

 

Estou desgostosa. Não sei sinónimos. Não sei definições. Nem decisões. Mas estou. Pronto! Já disse. Por causa das pessoas. Que pensam que dividir é o mesmo que somar. Precipitações apressadas. Sim, talvez, NÃO!

 

 


Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

ver

de Paola (Vilna Nova de Milfontes)

 

escrever é substituir o lápis pela voz

 

A imaginação é coisa danada. Enrodilha-se em nós. Seduz-nos e depois abala. Não se deixa aprisionar, a safada. E quando lhe perguntamos o nome, desata a correr. E ri, ri e põe a língua de fora. Não me apanhas! Não me apanhas! Lá, Lá, Lá…E eu, que já não tenho idade para correrias, deixo-a ir. Tenho lá capacidade mental para representar a coisa. Usa os sentidos, exorta. E eu olho boquiaberta para o semáforo. Aquele, no cruzamento, à esquerda. Vermelho! Estou feita. Sempre que aqui chego, é isto. E ela passou, que eu vi. Foi-se sem travões. Que não é mulher para obedecer a luzes castradoras. E circula arrebatada. Estouvada! Extravagâncias de madame. Imagination, ma chérie. Imagination! Presumida! E deixo-a ir. Desisto, pronto. Volta! Nada. E lá ao fundo, no jardim, vejo-a a admirar um bem-me-quer. Aposto, que um dia destes, me vem com fantasias. E explica que é criatividade artística. Como se tivesse perfumado as flores e dado voz aos pássaros. Devaneios de artista! E eu tenho para mim que imaginar é ver. E quando o lápis substitui a voz é escrever.

 

Se alguém encontrar a imaginação por aí, não se admire. Por favor, digam-lhe para vir aqui. Sim?

 


Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

retornar

  "Pequenos contos numa prosa feita poesia e simplicidade. Páginas em que os gatos se passeiam a partilhar encantos e mistérios, só para apreciadores."

 

pegadas do retorno

 

 

- 09 horas e 50 minutos

 

Café. Sempre admirável. Mais dois dedos de conversa. Da treta, claro. Mas atenua males maiores. Deformação profissional. Antigamente, regressava-se descansado e feliz. Hoje, é notícia de televisão, uma nova praga doentia: depressão pós-férias. O retorno preenche-se com ansiedade, distúrbios de sono, fraqueza física e moral, hipersecreção das glândulas sebáceas e mal-estar generalizado.Ai que novidade!

 

- 10 horas e 10  minutos

 

Cemitério. Funeral. Mais um abraço de solidariedade. Uma lágrima de cumplicidade. Tudo por causa de um pai que partiu. O meu foi-se embora em Janeiro. E eu acho que os pais deviam estar quietos.

 

- 11 horas e 30 minutos

 

Escola. Beijos bronzeados com sabor a Agosto. Beijoroquei esta e aquela. E eles. Apesar de escassos. Poupei alguns beijinhos. Os que ficaram na terra das cruzes.

 

Retorno. 10 cêntimos. E um papel minúsculo. Escrevi o meu nome completo. Porque não sabiam como chamar-me, certamente. Agora que sabem, tudo será mais acolhedor. E o nome da escola. Parece-me bem. Tantas vezes a baptizaram que devem andar desorientados. Fiz o que podia. E a data. Para que servirão os calendários? Um  em cada secretária! De seguida, deparei-me com mais uma linha para preencher. Motivo? Motivo de quê? Perguntei, não fosse o meu contributo importar. Do retorno! Explicaram. E não é óbvio? É de lei, não? Pois! Escreva só "férias". Férias??!! Eu escrevi, mas juro que não entendi. Então a razão de eu ir trabalhar são as férias? Pronto. Que seja! Há férias assim. Garanto que prefiro as de ir.

 

Tarefas. Não as vi. Pareceu-me que ainda andam enroladas na areia. No placar jazem papéis fora do prazo. Não faço planos. Que pena!

 

Regresso. Amanhã, talvez. Para quê? Logo se vê. Admirável. E como eu não vi nada, não sei quando volto. Amanhã, talvez.

 

- 11 horas e 59 minutos

 

Estação dos comboios. Veio um e eu fui com ele. O T faz anos e fui almoçar com pequeno. O resto não conto. Coisas pessoais. De família. Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim?

 

Compras. Um livro. Isto posso revelar.  Amados Gatos de José Jorge Letria. É que há sempre um gato por detrás de um grande nome. E eu ainda estou para aqui a matutar na história do meu retorno... e ali, não haverá gato?

 

E tudo isto é o fado cá da terra. E um enorme ponto de admiração!

 

 


re-nascer

parabéns!

 

Hoje, cumprem-se dois anos da tua vida. Naquele dia, já à noitinha, as flores pintaram-se de cores admiráveis. Os pássaros entoaram cantigas de embalar. Ainda mais harmoniosas. Também mais inolvidáveis. Magníficos acordes. Excelsas consonâncias. O sol brilhou com nova pujança. E nessa noite, as estrelas sorriram. Choraram lágrimas de rir. E silenciaram-se porque as palavras emudeceram no sublime momento em que te vi. Nenhuma fazia sentido. A comoção espalhou-se pelo meu corpo com a certeza de te ter ali.

 

Sabes, Vénus é a deusa do Amor e da Beleza. E que importância tem, se tu és vida e corpo que eu posso beijar? O seu nome tem epítetos forjados no mito. Nada comparável com o teu, mesmo que ignorado por Camões. O teu canta a aglutinação de santo e lago. Pressagia que suplantarás os escolhos da existência. O teu nome tem orgulhos e audácias. Arrojado. E com ele cumprirás êxitos e paixões. E o teu epíteto já é adorado. O templo, em que vives, não tem a mesma grandiosidade que o da deusa-mulher. Não faz mal. O mito foi publicado no papel. Alegórico e simbólico. Moldou o sagrado de devoções que já não existem. Tu és. O olhar de Vénus é vago e perdido na tela. Os seus olhos, quase estrábicos, foram um ideal de beleza. Os teus têm mar. E céu. E o deslumbramento que o admirável proporciona. E entre o Renascimento e o Nascimento, eu escolho-te a ti. Na epopeia camoniana, é deusa-madrinha dos heróis. lusos. Um ornato secundário. Mitológico. Porém, o maravilhoso és tu.

A pele de Vénus é da cor do marfim, com confusão do branco, amarelado e rósea. É excessivamente perfeita. A tua tem brilho natural. Sem amálgama de tintas. O cabelo de Vénus alarga-se e ondula pelo corpo, aprisionando-se na tela de Botticelli. O teu é Sol e luz e brilho. Naturalmente, vida.
O rosto mostra-se eternamente jovem. Que importância tem, se mentir é feio? A boca perdurará fechada. E tu choras e ris e dizes palavras ainda incompreensíveis. Olhos claros? Ela que olhe para ti. Ostenta uma fisionomia de melífera melancolia. A brandura da feição insinua uma benignidade moral que purifica a deusa pagã. Não te importes, meu menino. Às vezes, tu és assim. Mas muito mais. Ela não ri, nem chora. Coitada! Nem há notícia de ter gargalhado. A atitude é de estátua envelhecida. Nada que se compare com a frescura das correrias que fazes no jardim. E também tu representas a natureza plural do amor. Quanto às qualidades espirituais e humanas? Estimo-as superiores. Sim?

 

- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, vó!

- Amo-te!

- Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, vó!

 


Domingo, 31 de Agosto de 2008

apregoar

  © Antero Valério

 

Agora que Agosto faz as malas e a Costa de Caparica está em obras, vejo as sombras do Verão. Oiço ondas de nostalgia e vejo marés de alcatrão.

 

- olha à boola de Berlim… a boooooooola!

- Senhor! Senhor...

 

E a cesta levantava um paninho branco que escondia delícias dali. Ouvi dizer que já não é a mesma coisa. Vem aí a ASAE. Ainda bem que a praia não tem portas. Ou tem? Taipais, tem? E muro? Não tem. Ou tem?

 

- Olha os bolos, olha a bola-de-berlim!

 

Controle-se a higiene. Pelos padrões todos. Mas não tirem um daqueles prazeres que, há muito, transporto no meu imaginário afectivo.

Não sei se há registo, todavia tenho curiosidade. Quantos casos de intoxicação com as fantásticas bolas compradas na areia da praia? Mais incidentes existirão com intoxicação política. Ou não? Há? Não, não há. E por favor, não enfiem as bolas em saquinhos deprimentes. É que perdem o sabor... Bolas!!

 

 


Sábado, 30 de Agosto de 2008

adormecer

  regresso à escola ou

 

 vidas, pecados e saltos mortais

 

É sábado, eu sei. Amarelo e estreito. E depois? Um dia a seguir ao outro. E o outro é sexta-feira. E depois? Se a contagem é decrescente. E o ano tem nome. Não é Juliano, não. Nem sequer Gregoriano. Tem nome que não digo. Há muito que a maravilha é a Lua. Também o Sol. Ainda mais o encadeado dos dias e das noites. E a Lua tem fases. E a minha não é boa. Mirra-lhe o brilho que já teve. Definharam as vontades. Adormeceram as intenções. O tempo é insuficiente para recitar o ciclo das estações. E agora é Inverno. Neva no beco sem ali. O Sol desfez as lendas, abriu fendas. Está frio. Tenho frio!

É sábado. A semana tem sete dias. E o sete é um número de mistérios. Significados e simbologias. E sete são os dias da semana. E depois? Se o sétimo dia é sábado. E sete são os pecados mortais. Inveja, Gula, Soberba, Vaidade… perece o último sábado de Agosto. Eu sei. É sábado. E depois?

O sete é símbolo da perfeição. E que importa se é uma ilusão? Se o mês acaba aqui. Amanhã é Setembro e eu já nem me lembro de um dia assim. Desconsolado e pardacento. E como o gato tem sete vidas, quando só de uma necessita, duas serão para mim. Fico com três. Exactamente a conta que Deus fez. Para morrer e ressuscitar a seguir e voltar a morrer quando calhar a minha vez. É sábado, eu sei. E depois? Se é o último e as inquietações chegarão mais do que sete. Por isso, não comi, como de costume, o admirável arroz-doce da dona Perpétua. Porque segunda-feira não é dia gulodices. E a gula é um dos sete pecados mortais. 

Segunda-feira é a introdução. O ponto de partida da história e a apresentação das personagens. O desenvolvimento vem a seguir. A intriga e muitas peripécias. E o clímax chega de mansinho. A conclusão? Só quando tudo estiver bem resolvido. O desenlace? Narrativa aberta. Com algumas fendas. Prometo não invocar o santo nome de Deus em vão. Sempre que possível e se o engenho e a arte me coadjuvarem. E santificarei os domingos, certamente. Os sábados  que os antecedem. E todas feriados e dias santos. Todos!

Porém, não me obriguem a guardar castidade nos pensamentos e desejos. Desacordos e insatisfações. Não posso! Nem serei capaz. Mas vou pedir que me contem uma história de pensar. Com os Sete Anões. A Branca de  Neve mais o Príncipe. E o beijo. Mas sem a madrasta rainha. Para não ter que fugir a sete pés. Não posso. E a minha intimidade como os laboriosos pequenotes conta-se no livro que recebi num Natal, em Dezembro.

 

 

[imagem da Internet]

 


Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

tourear

a vaca não tem culpa

 

 

Não entra mais uma alma. A praça está atulhada de gente sôfrega. As bancadas da praça pintam-se da cor do Verão. Da exaltação e da impaciência. Na arena, há pedaços de pânico. Verónicas de medo. Capotazos de arrojo. Nas bancadas, os olhos estão incrédulos. No redondel, capotes a rigor misturam-se com lágrimas do suor que escorre assustado. A multidão acena palmas e olés. O cartel garante-lhes um espectáculo assombroso. Inolvidável. Único. As palavras chegam às tábuas vestidas de espantos. Imperceptíveis. Cá de baixo, os rostos não têm feições. O bruaá antecede as cortesias. O cornetim anuncia a hora. O pavor assalta e mistura-se com a vaidade. As mãos tremem intimidadas com a pega de caras. E advertem que não sabem nada daquilo. Que a valentia não está ali. Mas  o apoio escorrega das bancadas. Desistir seria a vergonha. As pessoas pagaram bilhete. E a diversão tinha que continuar. A inquietação  voa de olhar em olhar. A cumplicidade também. E medo não é fraqueza, porém o risco é verdade. Ali, na areia ocre não há treino nem perícias. Apenas descaradas afoitezas. Imprudências juvenis. E ao som do cornetim começam a entrar os artistas. Que fazem do sobressalto graça. E a mole humana ecoa júbilos colectivos.

 

- Touro! Ó touro lindo! Chama com passos amedrontados.

- Touro! Insiste com o capote tremulando advertências.

 

A assistência enlouquecida pede mais. Mais arrojo. E as pernas flutuam a cada movimento do bicho. Pela cor negra da pelagem. Pelos cornos em pontas que estavam embolados. Ninguém via. A multidão não cala a êxtase. O boi investe. Ninguém via. E o toureiro cai no chão.

 

- OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOh!!!

 

A humilhação pública acontece na arena da praça de touros. A saída em ombros jaz na terra castanha e arrependida da arena. O toureiro permanece estendido. Entram os forcados. E os cavaleiros. E mais toureiros. O público levanta-se. As palavras calam-se em silêncios suspensos. O homem é levado em ombros. A multidão ovaciona. Esgotam-se os aplausos. Gritam-se olés e hurras muito arrebatados. Emocionados. Dá a volta. Não consegue perceber que é figura  do espectáculo que sucumbiu à primeira faena. No rosto rasga esgares de dor. De derrota. O sucesso de uma cornada memorável. E recolhe à enfermaria.

 

E volta convencido que é figura de primeiro plano. Recebeu duas orelhas na mesma tarde. Por isso, é carregado nos ombros e transportado para fora da arena até o portão principal. Ali, mereceu o galardão máximo para um toureiro. Sem saber que a ambulância imprime arte à lide de tourear o percurso para o hospital. E pergunta como pode explicar a gratuidade da aventura. E se o touro o matou. Não! No Minho, bem à tardinha, Apolo recolhe a manada. Atravessa uma nuvem aqui e outra acolá. E as pachorrentas vaquinhas dormem na corte. Sem culpa que a neblina negra do medo lhes adultere a condição. É o cheiro que avisa que elas estão ali. Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” Platão lá sabia porquê. É preciso ver!

 

 

[Fotografia de GMV]

 


Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

caminhar

 pegadas de amizade

 

 oito alegres pés

 

 

 

Afeiçoados na vontade de caminhar, num dia de morno de Agosto, seis pés rumam ao Sul. Levam a vontade de abraçar o mês que vai acabar. E querem beijar o mar. E todos seis correm para o Sol. E andam, andam até lá chegar. Envolvem-se no amarelo e admiram-se com o azul. Surpreendem-se com o verde. E comentam que arrulhar rima com marulhar. E o mar espreguiça-se. E lá ao fundo, a cadência é marcada pela vastidão azul-mar. E correm atraídos pelos cânticos sem olhar para trás. Ouves? É o mar a desenhar poemas na areia. Pois é. O mar é um poeta, disseram dois. Um escultor, opinam os outros dois, olhando as obras cinzeladas ao longo de tempos de Inverno. E comentam que ali habita Orfeu. O mais prodigioso músico que já existiu. Poeta também. Por isso, as gaivotas poisam para o escutar.

 

Oito contentes pés foram espreitar o mar. Mais dois se juntaram. E todos os oito pés na areia dançaram. E Orfeu males sana cantando e tocando a sua lira de ouro. Músicas de espuma. Canções de areia. Ritmos do mar. E dois dos oito pés vão continuar a cantar. Porque nesta sinfonia da vida, oito são mais do que dois.

 

 [fotografia de Paola]

 


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Pois é...
Sabes uma coisa "pequenina"? Continuas a escrever ...
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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
Bela e feliz noite de Natal Bonita
Pena que um piropo teu...não seja um bom diaaqui ...