Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Jacinta - VI

   Jacinta adormecera. Tinha o corpo esgotado por desejos anulados. Por resoluções suspensas. E muitas incertezas. Ela ama aquele homem com um amor que nunca dera a ninguém.  É um amor renunciado. Um amor que sai do coração e toma-lhe corpo todo. Jacinta jogou o jogo. E gostou das garras que ele lhe desvendou. Sem saber que não haveria amor para sobrar daquela relação.

 

Cumprimentaram-se com o distanciamento de quem mal se conhece. Um aceno liberto de afectos, mas com o peso da situação. Afinal, moravam na mesma rua. Já se tinham cruzado algumas vezes. De manhã. Sempre pela manhã. Tomavam café no mesmo lugar. Um estabelecimento de bairro. Onde toda a gente de cumprimenta e conhece a vida uns dos outros. Um local que À tarde bebe cervejas e grita golos de futebol. Toma o pequeno-almoço entre as oito e as dez horas. Pelo meio toma café. Na mesa, junto à janela, as mulheres alimentam os diálogos com a vida das outras. Das que não estão presentes. Efabulam narrativas de encantar. Quase sempre com narrador não participante. Ali, servem-se chávenas com palavras de escárnio e maldizer. Outras vezes não, porque elas também têm vida própria.

 

Jacinta viu-o ao balcão. Alto e um corpo redondo. Ela nunca apreciara magrezas inúteis. Moreno luminoso. Os cabelos brancos davam-lhe um charme inexplicável. Apenas se sentia. Os olhos verdes. Deveriam ter sido verdes, os olhos do primeiro homem que viveu no Paraíso. Jovem, talvez trinta anos, pensou. Ela era um pouco mais velha. Um facto que não a preocupava. Ela estava decidida a jogar. A apostar. E não queria perder. Devolveu o cumprimento embrulhado num ardiloso sorriso. Baixou os olhos. Como uma donzela. Só que não ruborizou. Mas inventou pudor. E voltou a olhá-lo. Quando ele baixava a cabeça e engolia o desassossegado café. E conversava com o corpo todo. E ria. Estava perturbado, calculei. Movimentos pensados e medidos. Acautelados. Uma vez. Duas vezes. Até que os olhos de ambos se tocaram. Por instantes, percorreram o caminho do desejo. E ele delineou um sorriso brilhante. Irresistível. Jacinta não ousou levantar-se. As suas mãos pegavam na chávena como se acariciassem o corpo que havia saído. E assustou-se. Percebeu que ele estava interessado em jogar o mesmo jogo que ela.

 

Jacinta divorciara-se há meia dúzia de anos. Par trás deixara um casamento engendrado pela candura dos seus vinte anos. Consumido por peias que nunca quis. Casou assim como quem sai para ir às compras. E foi e voltou casada. Com um homem de quem gostava. Mais tarde, descobriu que nunca o amou. Um divórcio civilizado. Nunca mais voltaria a casar, decidiu no dia em que a juíza decretou o fim da relação matrimonial. Ali se dissolveram cerca de quinze anos de vida em comum. Ou quase. Há muito que se sentia sozinha.

 

Jacinta estava decidida a não ceder. Júlio também queria. Ela percebera desejo no seu olhar. Depois daquele encontro seria a vez dele. Estava convencida que ele gostaria de tomar a iniciativa. Afirmar a sua masculinidade. Tolice, mas era assim o jogo. E ela levá-lo-ia a acreditar E decidiu esperar.

 

E o telemóvel continua em cima da cama. No visor a indicação de uma chamada não atendida. Que decidiu não atender. Todavia, desejava-o tanto. Por isso, chora a decisão de negar o amor que tanto amou. E pela janela, o vento carrega um frio nauseabundo. As raízes putrificam afundadas no lamaçal que se instalou junto ao barracão. Jacinta não vê, porém sabe que o Sol nunca mais acordará ao clarear da manhã . Nem com o mesmo à vontade com que rasgava as cortinas que ela deixava sempre abertas. Porque ele vinha acordá-la e colori-la de desejos amarelos. Jacinta nunca se esquecia de acordar.

 

 

 (Fotografia da Internet)

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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Jacinta - V

 Jacinta chora. Constrange-se com a dor que lhe assola um corpo carregado de lembranças e afeições. O corpo de Jacinta tem paixões. Umas passaram por ela sem que ficassem vestígios. Esfumaram-se com o tempo. À medida que o seu corpo florescia. Enrolaram-se na areia dos desertos que percorreu. Da praia que descobriu. E as gaivotas gritaram restos que lhe povoam o ser.

 

O primeiro beijo… Puro e inocente. Infantil. Foi à tardinha, já o Sol se escondia no horizonte, nas traseiras da casa que habitava com os pais e a avó paterna. O João beijou-lhe o rosto. Ela corou e ele também. Um beijo espantado. Desprevenido. Disseram-se palavras que nenhum escutou. Porque em redor das suas cabeças, as emoções gaguejavam promessas de amor eterno. Os lábios do João rebolaram mansamente nos dela. E foi assim, que a partir daquele instante, passou a ter um namorado. Todas as meninas da sua idade tinham. Clandestino. Sem que ela tivesse concorrido para o facto. Aconteceu e pronto. Jacinta e João viveram o segredo com a intensidade de quem descobre um ninho no laranjal. Lembra-se vagamente do rosto do rapaz. Acredita que se tenha feito homem. Eventualmente bonito. Provavelmente feliz.

 

Jacinta amou mais vezes. Talvez não. Acredita que a amaram. Permitiu que a amassem. Se amar é sofrer, então apenas uma vez amou de verdade. Amar é só olhar. Apenas uma vez olhou. E sorriu. Ser bonita dá-lhe firmeza e inunda-lhe a alma de ousadias. Mas apetece-lhe ser menos apetecível. Tantas vezes que pediu para ser feia. Mesmo que a subjectividade a deixasse na dúvida. Beleza é uma percepção individual. Agrada aos sentidos. Não se explica. Depende do contexto e do universo de quem a observa. Saboreava o prazer com que os olhos azuis do seu pai lhe repetiam a vaidade. O orgulho. E a sua mãe que a alindava com vestidos de estrear ao domingo. Porque afectos incorruptíveis. Legítimos e sãos.

 

Todavia gostava da perturbação com que os homens olhavam para si. E os namoros calhavam, na sua vida, naturalmente. Depois caíam no chão. Como as laranjas no laranjal. Por causa da seca. Diferenciavam-se pelo sabor. Umas doces, outras tão amargas que nem para o amor serviam. Por vezes, desconfiava. E incomodava-se. Considerava-se um troféu. Uma variedade rara que fora apanhada. E enjaulada. Patenteada. Jacinta suspeitava dos homens. E não sabia se o amor lhes germinava no coração ou nos olhos. Predadores obstinados. Não podem ver um rabo de saias, troçava com acidez.

 

Numa manhã fresca de Outono, e tantas já passaram, abalançou-se no desvario. Foi ela que deu o primeiro sinal. Só porque lhe apeteceu. Queria jogar um jogo que ainda não havia jogado. Agitar-se. Ainda era uma mulher muito bonita. E ele disse-lhe que sim.

 

Está calor. Jacinta, ainda nua e prostrada na cama, chora convulsivamente. A sua mão direita aperta com lágrimas um telemóvel com uma chamada não atendida. Jacinta chora as tábuas partidas de um amor que desistiu de consertar. E navega ao sabor da maré e do vento da sua paixão.

 


 

Foto da Internet

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Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Jacinta - IV

m   - Bom dia! Bom dia!

 

Nada tinha importância. O que ela queria era que todos tivessem um dia com sabor a exultação. Não lhe interessavam as horas. Se pudesse, atrasaria o relógio. O dela e das pessoas que percorrem a crua. De um lado para o outro. Uma vez, duas, três… Sempre pela calçada, sem perscrutarem o tempo. Num movimento pendular: repetitivo, monótono. Queixam-se, de quando em vez, que lhes sobeja tempo. Não sabem que fazer com ele. Como era escasso o que têm para viver. Contam os dias e os anos sentados no banco que está no outro lado da rua. Debaixo da árvore de copa redonda. E quantas vezes decidiram parar os relógios que trazem no pulso! Desistem de tamanha ousadia. Escasseia-lhes as forças. De nada serviria se no torreão da igreja as horas do tempo sucedem-se com o aprumo de um general. Eles sabem que, um dia, ficarão silenciados numa hora qualquer. Os ponteiros são pérfidos. O seu percurso está corrompido. É para lá que olham e fazem figas e imaginam que ninguém dá corda ao relógio. Às vezes, os sonhos voam  e não deixam ver as horas. O tempo que ainda têm corre mais apressado que os ponteiros enferrujados pela sucessão de anos, dias, horas e momentos que envolve cada um deles. Desvairado, desafia-os para um jogo de corrida de sacos. Como se eles tivessem pernas par mais uma prova de resistência. A vida já tinha proposto o mesmo entretenimento. E eles jogaram sempre. Agora estão gastos. Só isso.

 

Jacinta sorri. Acena aos poucos transeuntes que se atrevem a sair de casa. Ainda está calor. O Sol permanece desperto. Pronto a incandescer as caras descontraídas da gente da terra. Olha para si e vê que germinou dentro de um corpo extraordinário. Aperfeiçoado pelo tempo e abençoado pelo Sol. Sem dúvida, a única ocupante de um corpo complexo. Sensível. Dona de um cérebro complicado e apinhado de devaneios. Sonhos que nutre do mesmo modo que cuida de si. E ajuíza as possibilidades. Está viva. Viva como a roseira que cresce junto ao barracão. Mas mais apetecível. Ela sabe que é mais do que uma planta. As flores não lêem revistas. Nem vão de férias. Não se comovem. Não se interessam pelo Sol, nem sabem de que cor é o céu. Na rua, os olhos masculinos brilham com intensidade e despem-na mesmo no passeio. Sem pudor. Sem respeito. Na rua ela sente a ganância dos apetites varonis e isso fá-la ficar irritada, apesar do seu ego se entusiasmar. Afinal, Jacinta é uma mulher bonita. O seu rosto transporta tempestades, mas o seu corpo impele o Sol. Ela brilha de forma magnânima.

 

O telefone toca. Sobressalta-se. Corre para o quarto. Deixara o telemóvel em cima da cama. O sinal de um sono tranquilo é evidente. O lençol repousa aos pés do leito tal como ela o dobrara. Por causa do calor. Atende. Do outro lado não estava ninguém. Chegara tarde. Apenas um número no visor. Uma chamada não atendida.

 

Senta-se numa cadeira de madeira estofada em couro branco, Jacinta tem as mãos aturdidas. O corpo implora o que a cabeça impede. E lamenta ter estado tanto tempo à janela. A perplexidade impede-a de tomar uma resolução. O orgulho também. Um sentimento que engrandece a sua dignidade pessoal. E o Sol...

 

Jacinta arremessa o corpo, ainda nu, para cima da cama e agarra-se às mágoas que tem no coração. E chora.

 

  

(Fotografia da Internet)


 

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Jacinta - III

  O Sol já vai alto. Uma luz branca anuncia todas as cores do arco-íris. Mas está quente. Muito quente. O Sol é traiçoeiro. Gera, cria e destrói tudo. A terra não. É mãe. Uma incubadora universal. É ninho, é fertilidade. É amor. Por isso gira muito devagarinho, não vá a vida acordar.

 

Poucas pessoas circulam na rua. Apressadamente sobre calçadas escaldantes. Com as cabeças desprotegidas. O Sol provoca-lhes pensamentos vertiginosos. Impulsos que não conseguem controlar. Fogem para casa com medo de ímpetos maliciosos. Com vontades ignóbeis. Não prestam atenção. São pessoas confusas, desorientadas e incapazes de pensar com clareza. Deliram. Não têm culpa. É o Sol que as empurra. A vida é um delírio e às vezes o aroma sabe a morte.

 

O Sol vai alto. Não está ninguém na rua. Percebe-se a hora. Cumpre-se o ritual da tarde. Três, quatro horas? Possivelmente… Há silêncios que deixam entrar os ruídos. Estrondos de desânimos amontoados. Bofetões de palavras que contundem. O Sol. Os vermes. A existência. Interpõem-se as distâncias. Choros de meninos. Vultos e sombras de ontem. Restos que sobraram. E os restos são desprezáveis. Olhares que se fingem noite. Mas o silêncio é um deserto. E depois há o mar. E os gemidos e os cheiros das gaivotas. De barcos fundeados a fingir que vão para o mar. Sobra-lhes a vontade.

 

Lá ao fundo, o Sol já cai nos olivais, depois do barracão, à esquerda. A rua vê na solidão. Mas ainda existe o Sol que as agita. O calor faz bulir as palavras trancadas em casa. Não se retratam no papel. Aí, o mal é maior. Morreriam amarrotadas e jogadas no lixo. Talvez confundidas com restos de pão e de espinhas. Escassas sobras do jantar. Que deu para o almoço. A escrita não permite pedidos de desculpa. No oral ainda vá. As palavras murcham. As bocas estão cansadas. Escusam-se a multiplicar certezas evidentes. Está calor. O Sol ainda está aí. É óbvio!

 

O Sol já se prepara para se deitar. Cansado de um dia de trabalho. No corpo carrega o suor da rotina que decretou. Amanhã nascerá outra vez. Em casa, há descansos. Sombras caladas. Jacinta ainda dorme. Adormeceu com o corpo amassado e a alma moldada por calores que não suporta. Ela sabe que o calor gera uma necessidade irracional de satisfazer a sede com um instante de Inverno.

 

Farta do parapeito da janela, foi para cama. Fechou os olhos. Projectou um prado desmedidamente verde. Um riacho inquieto. Cristalino e gelado. Nas margens, desenhou uns malmequeres, umas crianças a correr e a gargalhar. E mulheres e alguns homens. O céu coloriu de um azul sem chuva. Esqueceu-se do vento que açoitava as árvores e os corpos. E assobiava. E trazia arrepios nos braços e na espinha. Na encosta, plantou pinheiros, sobreiros e muitos fetos. Não havia uma capela, nem se rezava o terço. Tão-pouco ovelhas à espera de um sino a cantar. Pintou o calor que a mata e muitos olhos com  sonhos. Qualquer um servia. Qualquer irrealidade que a levasse dali…

 

Jacinta acordou. Já o Sol estava ausente. Apoquentava-a o sal do suor que lhe chegava à boca. Nua, correu até à janela, ainda escancarada, e olhou. E lembrou-se que sabia de tempos em que o Sol nascia ali…

 

 

-  Bom dia... Bom dia... Bom dia!

 

 

Sem dar conta que já é tarde, cumprimenta as pessoas que passam como quem saboreia a alegria de se lembrar de alguém todas as manhãs.

 

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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Jacinta - II

 

l  Jacinta está perturbada. Não quer fechar a janela. Porque está calor lá dentro e a brisa corre fresca. A noite permite-lhe perscrutar para além de si. As luzes exaltam-se na calçada. Equivocam-se. Atordoam-lhe os sentidos. Há silhuetas nas esquinas dos edifícios disformes. Nas laranjeiras, as laranjas são cinzentas. Negras. Embriagam-se de Sol. As folhas perdem-se. As árvores são vultos medonhos que tornam claros e evidentes os pânicos na calçada. Há um mundo feérico e devastador na sua cabeça.

 

Pela janela chegam-lhe paladares e fedores. A terra cospe um cheiro nauseabundo. Debruçada no peitoril da janela, Jacinta actualiza estrondos vindos da terra que fede a excrementos dos cães que pernoitam ao relento. Os vizinhos resistem. Mas há animais sem dono. Ela sabe que acumular detritos domésticos e industriais é bem pior. E eles não se importam. Escorraçam os cães. O solo sofre estragos. As pessoas também. Tropeçam em plásticos, produtos de limpeza, tintas e solventes, pesticidas e componentes de produtos electrónicos. Sobras de móveis fora de tempo. Mas não se importam. Os cães latem no outro lado da rua. Latidos de incúria. Raivas do dono. Acenos sórdidos.

 

O calor incomoda-a. Suga-lhe a racionalidade. Embriaga-lhe o rosto. Jacinta sabe que o calor lhe apodrece a carne já corroída. Por isso, mais vulnerável. Está esgotada de estar à janela. Está escuro. Não vê. A luz é privada. A lua não veio e as nuvens, carregadas de ameaças, escondem as estrelas. Jacinta tem paladar e olfacto apurados. E antevê.

 

Está muito calor aqui, não está? Jacinta aprendeu que o calor é responsável pela sua ira. Que abolorece os frutos do quintal que não contempla dali. Tudo está nublado e pardacento. As raízes gritam lágrimas secas e amareladas. Exigem água. Sem entender que vão morrer. Como o tapete vermelho que ela ignorou no estendal. Empalideceu. Manchou. A alma urde-se em fios que o calor conjura.

 

Jacinta olha para a esquerda. Lá ao fundo está o hangar onde aquartela as palavras que lhe devoram sobejos da carne e do ânimo.  Não o consegue fitar nos olhos. Inventa-o.

 

Jacinta sabe que a sua sobrevivência está naquele barracão. Ali dissimula as palavras que a agastam. Contudo, ela teme que um vendaval o assole. Ou que a terra o devore. E que o fedor pestilento teime em entrar pela janela.

 

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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Jacinta - I

 

m  Está calor aqui, não está? A Jacinta pensou que o melhor seria abrir a janela do quarto. Permitir que o vento perturbasse os papéis que tinham pernoitado em cima da mesa. E que inquietasse os cortinados insensíveis ao que acontecia do lado de lá. Um vento desembaraçado. Inteligente. Um vento que fosse vento. Robusto. Com cheiro a intempéries experimentadas. A naufrágios chorados. Um vento que vestisse as nuvens, o mar e o céu de negrume. De pesadas obscuridades. De chuva, de muita água e ondas descomunais. Um vento horrendo e preto. Carrancudo. Uma ventania que soprasse ao contrário, sem se preocupar com as pressões. Um vendaval.

 

Jacinta sente-se sufocada. Hesita entre abrir a janela e correr para longe. Mas o calor torna-se intolerável. E ela não consente elevadas temperatura num corpo que é seu. De uma corrente de ar quente que vem de fora. Que lhe invade o quarto. Fica exasperada. Áspera. Azeda. Amaldiçoa frentes quentes de massas de ar em movimento que lhe roubam vontade.

 

O corpo da Jacinta incendeia-se e pinta-se de vermelho. Sem fulgor. Sem luz. Está muito calor ali. E o ciclone não de dá. Nem se mostra. Um cheiro nauseabundo alastra-se pelo quarto. Adivinha terras pútridas prenhes de vermes. Lamaçais de águas insurrectas, águas furiosamente arrancadas às profundezas. Chuvas que carregam pedaços de chão, de cascalho, de barro. Jacinta vê águas sujas e lamacentas. Sabe que brotaram ferozmente das cavadas e colossais galerias de abelhas que cobriram a Terra.

 

Está muito calor ali. Jacinta asfixia. Afoga-se nas margens lamacentas do rio. As plantas carnívoras abundam. Mas ali não está um deserto e ela não é um insecto. Afoga-se na Drosera, aprisionada pela seiva peganhenta. E ela luta. Ensaia a fuga. Não consegue porque o esforço é inglório. Combate, porém cada mais suja fica. A planta começa a digeri-la. Suga-lhe a carne e a sua alma não resiste também. Com uma força estranha, tira-lhe a vida. Quem sabe se definitiva.  

 

Está muito calor ali. As raízes desventram a terra. Existem animais mortos, a terra está podre, a água poluída. Jacinta está encurralada. A Drosera diz-se hábil predadora.

 

Está tanto calor ali. Jacinta enreda-se no caos. Desespera. Confunde-se. O calor é excesso. Jacinta abre a janela. Os cabelos voluteiam ao sabor do alento. Uma brisa leve e suave ao final da tarde. E ela prevê que todas as coisas poderão surgir outra vez. Que a ordem se instalará de novo.

 

E lá ao fundo, à esquerda da janela do seu quarto, Jacinta edificou um hangar para abrigar as palavras. As que lhe provocam calor. As que lhe gelam as mãos. E as que pariram o caos.

 

 

 

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Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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