Quarta-feira, 25 de Julho de 2012

No rio [no tempo do verão]

 

Fotografia de Jorge Soares

 

 

 

 

 

  Por vezes, tantas são as vezes, apetece-me ir para trás. Não que queira, não que corra. Somente deslizo. É o tempo que suplica um beijo à tardinha. O vento que impõe a frescura do abraço. E eu não vejo a simplicidade do caminho. É o mel que escorre pela areia. São os corpos encharcados de azul. São as algas que se enredam na rima das marés. Somos nós. Que nos poupamos no excesso das dunas. É a areia que se desfaz. É o sol que acende as nossas tréguas. E eu não antecipo a outra margem. É o meu tempo que cai desamparado nas sombras do carreiro. É o teu sorriso molhado que escorrega pela serra.

Às vezes, o rio concede-me as tuas mãos. Tantos acenos. Mais abraços. Mil afetos. E as gotas salgadas sorriem na aflição dos gritos dos pinheiros.

Depois, agarro o céu. Destapo o dia. E fica a distância que há entre mim e os restos dos botes que morrem na praia. As nuvens içam as cores rasgadas que sobram da tarde e a margem do meu olhar. E tu dizes que tens procurado.

Há momentos em que perco o olhar. E não faço nada. Apenas o rio faz o que pode.


Fotografia de Jorge Soares 


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Terça-feira, 30 de Junho de 2009

fluir [como o tempo que se engasga com as lágrimas na voz]

 

Ericeira, Paola

 

O rio está na obliqualidade da paciência da paisagem. E cuido que aquilo que contemplo não é certamente o que sucede. E penso que o rio, que aponto, existe para alcançar o mar. Que a água corre veloz. Como o tempo que se engasga nos seixos do leito deste rio. Eu é que não sei fluir naturalmente, na continuidade do meu caudal. Por desconhecer onde posso desembocar. Não me sei na sintaxe do açude que sossega a água na obediência das regras. No desconhecimento da nascente sôfrega do rio. No desagradecimento das areias receosas do mar.

 

E é na incapacidade de entender o rio que os olhos espargem lágrimas de noites alarmadas pelo silêncio do mar. Na contaminação das águas doces e salgadas. No plácido e celeste rio que irriga a perplexidade do meu olhar.

 

 

 


Terça-feira, 2 de Junho de 2009

navegar [por mares de aflitas amarras]

 

fotografia de João Palmela

 

… porque a importância é importante, não a desminto. Antes, velejo por mares quebrados. E, ao longe, vejo a reconciliação de proficientes caravelas. Na proa, os marinheiros exauridos lambem o sal dos abalroados namoricos… e desamarram as amarras com as pontas dos dedos. Desatando frutos. Tecendo nós.

 


Sábado, 30 de Maio de 2009

navegar [entre o passado e o presente]

fotografia de Luís Costa

 

Achei um búzio que andava a chorar. E o búzio de tanto chorar, logo se pôs a cantar. E por tanto cantarolar, começou a consentir. Um canto que vinha do longe. Que vinha do mar.

 

Peguei no búzio que parara de chorar. E que agora estava a olhar. E de tanto olhar, afogou o rumor que remava no mar.

 

Embalei o búzio deserto. Que só queria cantar. Pedi-lhe que se ocultasse para o poder adivinhar. Contei-lhe uma história só para o calar. Que dali, eu via o mar. Que dali, percebia o silêncio dos sulcos das ondas. E que começara a desconfiar se flutuariam búzios no mar… Que dali, eu cobiçava o mar e o melhor era correr e até mergulhar. Acrescentei, apenas para que se deixasse, que dali, eu sonhava o mar. Que me deslumbrava com as paisagens a flutuar… para cá, para lá… e que via rostos ateados nas águas a errar… Persisti na história. Que dali, eu afundava o mar.

 

E o búzio que andava a chorar. Que já estava a cantar. E que se calou para a ouvir uma história de marear, logo me falou da inutilidade da proa. Tornei a recordar-lhe que na cama onde me deitava, havia sonhos a que não assistira. Que não entendia a razão de tamanha proibição.

 

E o búzio que eu encontrei a chorar. Que já só me estava a olhar. Acariciou-me a sombra que me velava rosto. Correu pelo calor da areia. Tropeçou. Ficou. Então, amargas lágrimas aconteceram no mar… Fez-me um último pedido. Implorou que ao meu ouvido chegasse o azul do rio que era aquele. Que não chorasse no mar.

 

E o búzio que eu encontrei a chorar. O búzio. O búzio naufragou. Sem me explicar por que tinha dentro a voz do mar…  noites de verão e muitas conchas com vozes. Que nas minhas mãos se estendem na consonância rosada da sua pele .

 

Eu sei… Fico por aqui. Nisto. No silêncio mudo do vento com paladar a maresia. Aportei. Amei. Lambendo os frutos do mar. Lancei o búzio. Atirei os búzios. Na analepse das grandes marés. Na ignorância de prolepses escusadas… a escutar o futuro.

 

 


Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

navegar [entre mil doses de sede]


 

Nesta clara manhã de sol inquieto, acordei com um inusitado desejo de ver o mar. Aparelhar a cama e zarpar. Bracear à bolina, na fé de um vento propício. Neste existente tempo de caravelas perdidas no azul-partida, adivinho as velas a bailar. Asas abertas ao vento… ancoradouro da minha escolha… refúgio de anémonas-do-mar… de rosários e corais… É a opção que dói! A impossibilidade que rasga a pele.

 

Eu olho-o na carícia do meu olhar e largo a prioridade… velejo à deriva… na incessante busca da maré do princípio. Porque há beijos para além do mar… e, no rio, os búzios entoam cantigas de chegar.

 

Fotografia de Jorge Soares

 

 


Segunda-feira, 9 de Março de 2009

espelhar

 alma lavada
 
 
 
 

A manhã espreguiça-se abraçada ao Sol, escutando aves melodiosas que solfejam trinados felizes. Loas primaveris espalham-se pela rua abaixo. Num quintal, um papagaio berra, desafinado, poleiros que não quer. As pessoas passam, como se os caminhos as ofendessem e as outras pessoas carregassem a culpa da pressa que têm. Algumas atrevessem-se a parar e sentar-se na esplanada para o café matinal, na ânsia de suicidar o vício acumulado ao longo dos anos.

 

Lá em baixo, o rio alonga-se no comprimento do meu olhar, languidamente. Sem alvoroços. Numa cinzenta moleza desconcertante. O rio não anda… não corre… Está exactamente no mesmo local onde ontem o deixei. Eu estranho que assim seja, porque um rio foi feito para correr. Agarre-se às margens, mas cumpra-se na missão de viagem imperfeita! Rompa pedras, imponha-se e nasça outra vez. E sonhe que um dia será grande. Maior que as pedras que o encolhem. Mostre-se ao mundo e ferva na força que esconde.

 

Lá em baixo, não é um rio que corre no cumprimento do meu sonhar. Eu  é que sou reflexo no espelho que é o rio… Volto para casa, na certeza de me ter destapado naquele plágio desfocado… com a alma molhada. Por tanto lhe implorar que seja o meu espelho. Quando me amarram os pés, eu só me quero ver no rio. Ou naquilo que corre como ele...

 

[imagem da internet]

 

 


Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

pairar

ao longe há um rio

 

 

 

 

 

Daqui vejo um rio…  Imagino-o demorado e sinuoso. Atrapalhado na volúpia da foz. Vejo-o sossegado e domado. Só que não é o rio que alimenta o meu sangue.

 

O rio que não vislumbro daqui é mais azul. Oiço-lhe o cantar… saboreio-lhe o gosto de gostar. E deixo que ele me deslumbre… sinto-lhe o calor dos afectos a encharcar-me o corpo. As mãos ávidas de mim… e cedo aos seus queixumes.

 

As gaivotas do rio, que nem sei se existe, gritam desvarios em terra… e sempre que ouço uma gaivota a amaldiçoar o rio, pressinto que já não pairam gaivotas no rio que não vejo daqui…

 

O rio que não contemplo acontece. Bem ou mal, escorrendo pelos lençóis de fado deste leito ressequido… até ao dia em que lhe rasgarem as margens.

 

 

fotografia daqui

 


Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

à janela - por causa dos robalos / parte IV

b  Contava e ria-se.  Uma história gasta no tempo e recontada quase sempre ao serão. Tinha sido o único que ousara entrar em territórios que não eram os seus. Perigosos. Um corpo de  serpente, negro, acinzentado. A boca de lábios grossos escondia fileiras de dentes esfomeados e insaciáveis. Um safio quase congro escondia-se na fenda rochosa que ele descobria. O medo cedia à adrenalina gerada pelo desafio. Os outros fugiram. E ria-se. Os seus olhos azuis sorriam, emanavam um brilho com gosto a vitória.  Enfiou o braço no buraco. Assim, às escuras. Apostava na coragem, na determinação. Na insensatez, também. Quando se é jovem o sangue corre com celeridade. O bicho estava lá e mordeu-lhe. Defendeu-se. Danado! Mas apanhei-o. Um congro! Enorme. Feroz. Garantia que não sabia como ainda tinha os dedos todos ou mesmo a mão. Quem sabe o braço. Mas tinha! A descrição hiperbolizava-se num tom quase épico. Nunca lhe percebi a dimensão. Nem me interessa. Um safio com vontade de ser congro ou um congro que um dia foi safio... Nem me interessa.

 

E remava. Num rio azul. Num céu azul. Com uns olhos azuis. Sorriu de novo quando avistou a praia. O bote entrou pela areia. Ele saltou para a água. Colocou o balde em terra. Uma terra segura que substituíra o mar. Depois deu-me a mão.

 

- Salta.

 

E eu saltei.

 

- Lava as feridas...

 

E eu lavei. Mergulhei na água azul de um rio azul. Com sabor a mar. Como se fosse uma grandiosa pia baptismal. De novo me baptizei. E renasci do alto, pela água purificadora do meu rio. Que não é Jordão, já que não havia arrependimento em mim. O sal roçava as feridas e roubava-lhes o sangue. Cicatrizava-as. O meu pai empurrou o bote para a água. Fixou-o com a fateixa e deixou-o ali. Ancorado! Agarrado a uma âncora. Para que não se desorientasse. Para que não fosse sozinho à pesca. E o bote permaneceu ali ao sabor das vontades do rio.

 

- Deve haver lume.

- Para quê?

- Para os robalos.

- Pois é!

 

E foi! Assados em lume ateado pela minha avó...

 

Hoje, na minha cabeça, há alguns brinquedos vencidos. Bonecas, poucas. Uma máquina de costura e um bote que ninguém salvou. Só porque não podiam, presumo. Nem sempre as âncoras são panaceia para males incuráveis.

 

Hoje, na minha cabeça, tenho um bote que cessou de navegar. Que naufragou. E um pai que foi com ele. Ambos sabiam a rio. Um rio que se enleou com o mar. E o cerúleo céu pintou-se com ébano. Um desenho sonoro embaciado. Uma fotografia com sabor a naufrágio.

 

E no céu azul repetiu-se um brado carregado de profunda mágoa.

 

- Salvem-me!

- Não posso...

 

E ninguém os salvou... não sabiam.

 

 

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

à janela - devaneios pelo cinema

Estuário do Sado monte Comporta, Herdade de Murta, Poisadas, Rio Sado

 

Eu vejo-o assim. Com um megafone. Talvez com um microfone na mão. Com o seu nome rabiscado em letras apressadas. A lona é vermelha. Ele é moreno, talvez resultado da dureza dos exteriores. Tem bigode, talvez por causa do génio. Já ouvi que não há acordo quanto à etimologia da palavra bigode. Uns filmaram-na na China, outros associam-na aos visigodos. Depois, há os que a consideram grega e até mesmo portuguesa. Enfim, uma trajectória de narrativas abertas. Partilho, sem qualquer fundamento,  a tese germânica. Parece que era hábito jurar pela honra do bigode, "Beit Got!". Ou seja "Por Deus!". A gritaria do “corta”, “corta”, de quem desgraçadamente observa os planos de nós. Imagino o mau humor do realizador sentado numa cadeira de lona. Por Deus, berra o homem farto de mandar repetir a cena. Arrufos de contadores de histórias.

 

A sala escurece e lá ao fundo o ecrã reluz. O filme começa com um grande plano. Um rio. Azul. Sereno. Um rio que corre tranquilamente por planícies alentejanas até se abraçar à cidade. Uma linda história de amor. Uma paixão acalorada. Abençoada por cegonhas brancas. Apadrinhada por roazes brincalhões. A câmara procura as dunas, geralmente pouco povoadas. Fixa-se numa. Um plano de pormenor mostra um casario branco. Com barras azuis. Não mais do que cinco ou seis casas. Uma delas eleva-se ao primeiro andar. A janela fez-se olho da câmara e mostra o rio e os arrozais. O areal... São cenas repetidas. O passado sobrepõe-se ao presente que está ali. A minha cabeça está cheia de murmúrios. São sinfonias com cheiro a maresia.

 

Disperso algures pela plateia, um homem toca concertina em animada interpretação. Toca-lhe como acarinhava a mulher. Sabia-a de cor por tantas vezes a executar. Tinha sempre audiência. Não muito longe dele, uma menina sustem o impulso de lhe falar, de lhe dizer o quanto gosta de o ouvir. Por essa altura, já os espectadores, homens, mulheres e crianças, se tinham dado conta que se tratava uma realização em registo de amor. De alegria. De vez em quando, o homem da concertina recita poemas. Quadras que inventa no momento. E ri. Os figurantes aplaudem nos seus corpos sentados nos degraus de uma escada que conduz ao piso superior. As personagens secundárias gritam enfado. Mas riem e cantarolam também. Os acordes do acordeão escapam-se com elas pela porta da cozinha. Chegam até ao pinheiro. Manso na sua folha persistente. O corpo arredondado sugere um guarda-chuva, sobretudo no Inverno. Mas é Verão. No tronco a casca grossa, parda e muito gretada denuncia-lhe a idade. No lugar dela surge uma coloração castanho-avermelhada. Num dos seus braços baloiça-se um balancé de corda. A menina adora-o e brinca com ele.

 

A câmara alonga-se num plano de conjunto. Fixa-se na fonte. Mostra as piteiras orgulhosas dos figos suculentos. Mas os picos, senhor! Colhem-se com uma tenaz e rolam-se na areia. Os pormenores passam em forma de analepse presentificada. Técnica de cinema. Um ângulo perfeito. Volta à fonte em jeito de clareamento. O escuro mostra um homem. Alto, com os passos cansados pela idade, cabelo curto. Muito curto. Segue descalço pela areia. Percebia-se que a manhã mal tinha principiado. O Sol ainda não tivera tempo de aquecer o caminho. O homem aproxima-se. A câmara acompanha-lhe os movimentos. Aponta para um painel de azulejos, uma imagem, uma legenda. O Sagrado Coração de Jesus, afinal a fonte tem nome. É lugar mágico, um espaço mítico, inserida num tecido feito de areia e de piteiras com cheiro a rosmaninho. Um lugar poético. Um cântaro vazio espera pelo final do ritual, apesar do cansaço dos braços que o voltariam a encher e a carregar. O homem e a fonte fundem-se num só. A água lava-lhe o rosto, os pés, as mãos. Mata-lhe a sede de viver. Ele acredita que a morte não gosta daquela água. É pura, santa, de nascente. O homem pega na bilha de barro à espera que seja de novo manhã. Repetirá a acção. Certamente!

 

A câmara abre o ângulo, vira-se para a esquerda. Não dá importância ao quintal. Às batatas-doces, às cebolas, nem às melancias. Corre desenfreadamente. Mais para a esquerda, mais... Pára! Acção, grita a claquete. A sala de cinema pinta-se de azul. É um rio. Não! É o rio nos fluxos e refluxos das marés. E os caranguejos escondem-se nos juncos.

 

No areal vê-se um enxovalho total. Uma casa pré-fabricada instalara-se ali. Que abuso! Grita a plateia. Um aglomerado de madeira protegido por fitas que proíbem o contacto de intrusos com a arte. A câmara mostra. Ali se instalou um estúdio de cinema. Um acervo de actores, actrizes, fitas, realizadores, bobinas, projectores, guiões, bandas sonoras, fotografias, ópticas... tudo a falar francês, sem acento alentejano.

 

A minha mãe chorou. Não pela praia, mas por se ver impedida, por uma fita amarela, de entrar na casa que a vira nascer. A fonte é actriz de cinema, mãe! Depois rimos. Rimos com a certeza que nenhum daqueles actores terá melhor desempenho que o meu avô.

 

Numa película a preto e branco... com sabor a mar!

 

 

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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

lixar

pHistoire d’un fleuve-poubelle?

(Rio Sado - imagem de costa azul)

 

automóveis e coisas do tipo

 

 

 

Não tenho carta de condução! Logo de que me serviria ter automóvel? Abdiquei! Em consciência. Há momentos em que sinto uma falta inexplicável de um carrito, outros em há em que dou graças por, num dia quente de Verão,  ter enfiado o carro numa vala farta em água e, seguramente, com excesso de largura. Ainda hoje, pago com títulos de transporte a minha falta de habilidade para desfazer aquela curva.

Não conduzo, logo não me canso na demanda de estacionamento seguro. Livre de qualquer reboque atrevido ou de um vizinho enfadado com a vida. No autocarro que diariamente me leva até ao local de trabalho, e leva-me sempre, tenho o privilégio de viajar acompanhada. Às vezes até com música, coisa rara na RL. Um transístor, à moda antiga, que em cima do tabliê se esganiça na veleidade de ser audível. Frequentemente sem êxito.

Entro, exibo a validade do meu título de transporte, sento-me e a inevitabilidade acontece. São vidas privadas a percorrer bancos de autocarro. São retalhos expostos em andamento. A vida é mesmo macabra, concluo. Banalidades. Testes. Desgostos. Desgraças. Gargalhadas. Exames. Necrologia. Dinheiro. Informática. Conselhos. Telemóveis. Números de telemóveis. Música. Encontros falhados, outros adiados. Sobras do fim-de-semana. Família. Exposições orais. O rol é imenso. A viagem é curta. A opção é difícil. Não sei que frequência escolher. No tabliê, o rádio dá notícias com solavancos. Interferências promovidas pelos buracos alcatroados a ponto cheio.

No banco do lado, jovens, com ar de quem frequenta o 10.º ano, atropelam-se com palavras. Aceleram com irresponsabilidade. Buzinam a falta de estudo. Travam respostas que não sabem. Enfiam-se por becos donde, só com muita sorte, sairão. Uma confusão no livre trânsito das perguntas e respostas.

Os jovens comunicavam numa língua estranha. Mas comunicavam que eu vi e ouvi. De vez em quando, socorriam-se de outra língua, mais específica, mais técnica. Para essa eu não necessitava de tradutor. O pior era quando tornavam ao idioma deles... O congestionamento do tráfego verbal devia-se à apresentação oral agendada para a tarde. Treinavam respostas. Exercitavam discursos. Ah, eu sei essa cena! Não é tipo... Ya, é tipo... Sabes aquilo... tipo... Ya, meu... é tipo. Então é tipo...? Nã, é tipo...? É tipo... ya, pois...tipo..

 

Quem será o tipo de que falam tanto? Pessoa importante, estou certa. Fiquei desassossegada! Curiosa! Que língua usariam na apresentação oral? Que língua falaria a professora?

 

No tabliê, o rádio dá a notícia de um aidente no IC19. O tipo só falava de sinistralidade nas estradas portuguesas. Lembrei-me de um tipo que um dia foi quase meu amigo. Confesso que cheguei a ter pena do tipo. Até é boa pessoa. Um tanto excêntrico, mas bom rapaz. Simpático e sempre disponível. A paciência que ele tinha com o meu  primo António!! E ele chegava a ser impertinente com o rapaz. É que o tipo da oficina não tinha mãos a medir... nem sempre lhe sobrava tempo para aturar o meu primo António. Bom tipo!

 

 

Estou: Admirada!

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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Escrita poética Gostei.
Pois, sabe bem ler as tuas palavras... saudade.
Que lindo!! Como sempre, uma escrita deliciosa...U...
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