Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

ponto de admiração

ponto de admiração

29
Jul22

Em alta-voz [concentração de estúpida vaidade]

Paola

received_3260793850843620.jpeg

Acordei, levantei-me e saí de casa com o silêncio na algibeira. Sobras de uma noite calada. Sem o incómodo da Lua. Acredito que, também ela, tenha dormido bem. Não a ouvi a ressonar. Nem consta que tenho caído da cama.

Só quero um café. Quente, sem açúcar. Essencialmente silencioso. Calado, mesmo. Na total adesão à crença de que chegaria para sair do sono que teimava em perseguir-me, lá fui.

Um carro não parou na passadeira. E fui premiada com uma alegre e ruidosa buzinadela, uma saraivada de sonidos. Parva e desnecessária. Eu parei. Irra! Esta gente não entende nada sobre o sono. Exibicionistas!

Persisti, determinada na aromática busca de um café. Sem tumultos. Na esplanada, vivia-se a guerra dos toques. Das vozes e da parvoíce assumida. As pessoas gritavam umas com as outras. Não deveriam conversar? Respeitar os silêncios?

Os telemóveis vociferavam com quem estava ao lado. Sem antes se terem prestado a uma feira de músicas. Vaidosos! Mal-educados! Eu tinha de ouvir um chorrilho de palavras malcriadas? Eram séries ininterruptas de vocabulário singular. Um telemóvel tocou. Insistentemente. E clamava que queria ser atendido. Urgentemente. O dono não parecia ouvi-lo. O assunto da mesa ao lado era-lhe caro. Foi para lá que virou a cadeira. Só que o zingarelho não se calou. Ufa! Que alívio! Tou? Tou? Sim, sou eu. E tu estás acordada? Estou na esplanada. E vieram as alarvidades todas. E o meu café não vinha. Pum! Um homem sentado no interior do café entusiasmou-se com o toque do seu telemóvel. Se calhar, há muito que não o ouvia. Entusiasticamente, não controlou as mãos. A chávena estatelou-se no chão. O pires foi atrás dela. Andavam cacos por todo o lado. Perguntavam-lhe se precisava de alguma coisa. Se estava bem. A esperança de beber um café no sossego do meu sono extinguia-se a cada instante. Estas coisas são mesmo assim. De fora para dentro, entrou um barulho danado. Seria anedótico, se eu já tivesse tomado café. Acredito que teria desatado a rir. E participaria no carnaval. Afastei-me do balcão, para facilitar a ruidosa limpeza.

Dois jovens conversavam animadamente. Gargalhavam. Enquanto exaltavam os feitos. Como não tinha bebido café, não consegui perceber se estavam a gabarolar-se de factos ou se terminavam os sonhos. Devem ter dormido bem, os senhores. Grosseiros! Burgessos! Ordinários! Tentavam falar de mulheres. Tentavam. Quase tive pena deles. Quase, só que a repugnância sobrepôs-se. No meio disto tudo, tudo foi mau. Nada estava bem. Nem podia. O meu café não chegava. Apenas os telemóveis duravam. Uns despiam a intimidade das pessoas. Outros exibiam vídeos burlescos. E havia os que cavaqueavam em alta-voz. Não fosse perder-se algum cochicho. O inevitável deu-se: alhos e bugalhos. Parvos! Não havia necessidade de tantos vulgarismos. Nem perceberam que eu ainda não tinha bebido café. Que praga! Custa assim tanto conversar com palavras limpas e asseadas? Os carros passeavam o roncar dos motores. A velha vociferava que ia perder o autocarro e acenava ao motorista, pedindo-lhe que parasse. Uma mota estacionou, sem que tivesse resistido a umas tantas habilidades que, sem café, não entendi. Decibéis a mais e exagero de roncos e fumarolas. Tanta barulheira evitável.

E dei por mim a pedir às pessoas que se calassem. Que estava assustada com a violência dos impropérios. Que não tinha nada a ver com a vida dos outros. Que tinha direito a beber um café. E acordar com o silêncio que trazia no bolso. Queria lá saber do homem que partiu a loiça ou da desgarrada dos telemóveis! Um café, apenas, please. Qual quê! Exaltaram-se as vozes. Umas mais do que outras. Que chatice! Tantos erros ortográficos naquela escrita esgoelada.

Fui-me embora. E dei por mim a pensar que as pessoas estão a ensurdecer. Coitadas! Só se ouvem aos gritos. Ou então é a vaidade que as move. Deve ser o exibicionismo que as faz falar assim. Ou não é nada disto. Berram para não se ouvirem. Para amortizar as alfinetadas da vida.

Esta gente anda sempre aos gritos. Talvez se deva à abençoada palmada recebida, sem pedir, ao nascer. De imediato, reivindicaram em alta voz o direito à vida. Sem se incomodarem com o sossego dos outros que também acabavam de chegar ao mundo. Uma questão de berço, só pode. E de hábito. De contágio.

Tomei um fabuloso e lindo café, duas ruas abaixo. Ao lado de meia dúzia de vasos com flores. Uns tantos metros de relva e algumas árvores. Suportei o zumbido das abelhas. O pipilar dos pardais. O melro, esse nem se atreveu a colocar a alegria do canto em alta-voz.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub